O primeiro ano da Era João Sayad na TV Cultura
Em agosto de 2010, durante reunião com a equipe da TV Cultura, um episódio com o recém-empossado João Sayad resumiu o clima em que ele foirecebido como presidente da Fundação Padre Anchieta, após a conturbada e nebulosa saída de Paulo Markun.
Ao apresentar suas propostas e intenções para a emissora, Sayad fora interrompido por um distinto senhor, veterano da casa, que questionou seus métodos de trabalho, após o presidente classificar alguns dos programas como "ultrapassados". Entre eles, o antológico e aclamado "Ensaio".
"Quem é esse?", indagou Sayad a um assessor próximo, sobre o homem que lhe confrontava. "Esse" era Fernando Faro, considerado um dos gênios da TV brasileira e financiador direto da música popular.
Revoltado com a desinformação do presidente da Fundação e com a pecha de "ultrapassado" empregada por ele ao "Ensaio", um dos funcionários pediu a palavra e resumiu a Sayad sob qual prisma ele era visto dentro da Cultura.
"O senhor está acostumado a lidar com planilhas e números, enquanto nós trabalhamos com sonhos. O principal desses sonhos é fazer uma TV pública de qualidade. Talvez o senhor tenha como referência uma calculadora. Já a nossa referência é esse homem aqui", e apontou para Fernando Faro.
O acontecimento indigesto não seria o último. A contrariedade de suas atitudes iria gerar dezenas de manifestações negativas. E algumas delas extrapolaram os muros da emissora, como quando Sayad anunciou o fim do "Manos e Minas". A decisão culminou em protesto na Assembleia Legislativa de São Paulo e com a veiculação de um manifesto do rapper Mano Brown, do Racionais MC´s, um dos maiores expoentes do rap nacional.
Nos meses seguintes, Gabriel Priolli, diretor de jornalismo, deixaria a Cultura, por suposta pressão do governo de São Paulo, dias após assumir o cargo. Por motivo parecido, o jornalista Heródoto Barbeiro "abriria" mão do "Roda Viva".
Em entrevista ao Portal IMPRENSA como balanço de seu primeiro ano à frente da Cultura, Sayad evitou polêmicas; contemporizou o suposto mal-estar de seus primeiros dias na casa; e declarou aceitar as observações negativas, sobretudo pelo fato de presidir uma fundação de caráter público.
Portal IMPRENSA - Como o senhor avalia o primeiro ano à frente da Fundação?
João Sayad - Neste primeiro ano de gestão, concentramos esforços para reposicionar a TV Cultura. Nossa aposta é transformá-la numa emissora moderna, comprometida em oferecer programação qualificada, atrativa, crítica, democrática e inovadora para os mais diversos públicos e faixas etárias.
O primeiro passo nesse sentido veio já nos primeiros meses da gestão (a partir de agosto) com o lançamento de 15 novas atrações e a reformulação de outras oito. Assim, foi aberto maior espaço para documentários e filmes nacionais e estrangeiros, com curadoria de especialistas nos temas, dentro do processo de consolidação da produção independente na grade.
Em abril de 2011, lançamos a nova grade da TV Cultura com conteúdo de amplo espectro, abrangendo desde programas infantis, atrações educativas, musicais, literárias, jornalísticas, séries para o público jovem, até documentários e filmes nacionais e internacionais.
Ao todo, passamos a exibir 25 novas atrações, outras quatro redesenhadas e oito temporadas inéditas.Também reforçamos o time da casa com a contratação de Cao Hamburger, Carla Camurati, Marina Person, Carlos Alberto Torres, Sandra Peres e Paulo Tati, da dupla musical Palavra Cantada.
Há esforços inequívocos para a melhoria da produção, dos cenários, da estética e do prestígio dos apresentadores. Ainda administramos posições e cargos de jornalistas, artistas e produtores artísticos, para que eles desempenhem adequadamente suas funções e sejam reconhecidos por isso.
Outra ação importante foi o lançamento (também em abril) do Portal Cmais, que disponibiliza a íntegra dos programas da TV Cultura e das demais emissoras da Fundação Padre Anchieta - Univesp TV, Multicultura e TV Rá Tim Bum; Rádios Cultura Brasil e Cultura FM, e webrádios Rá Tim Bum e Cocoricó.
IMPRENSA - Qual foi a decisão mais difícil que o senhor teve de tomar nesse período?
Sayad - Estamos fazendo uma análise criteriosa focada na adequação da programação aos públicos de interesse. Por isso é necessário eficiência em todas as etapas, bem como maior equilíbrio entre despesas e resultados gerados. Ou seja, a estrutura da TV Cultura precisa se ajustar a seus novos objetivos e necessidades. E esse é um processo difícil, mas que tem que ser enfrentado.
IMPRENSA - No lançamento da programação 2011, o senhor afirmou que a reestruturação ainda não terminou. Quais serão os próximos passos?
Sayad - Como mencionado acima, os planos de ação em curso visam criar uma tevê vibrante, moderna, cada vez mais abrangente, e que ofereça programação de qualidade técnica e de conteúdo para os seus mais diferentes públicos. Continuamos trabalhando nesse sentido. Para o segundo semestre, por exemplo, teremos novos jornalísticos e produtos infantis.
I MPRENSA - Em sua opinião, qual a importância da TV pública para o Brasil, atualmente? A função da TV Cultura mudou ao longo dos anos?
Sayad - Uma TV pública tem como missão contribuir para a formação crítica do telespectador, a partir de sua programação educativa, cultural e informativa de qualidade. Ela tem que buscar inovação, experimentalismo, oferecer espaço para diversidade e para áreas específicas que não têm como se expressar por razão de mercado. E têm que ter, acima de tudo, o compromisso da pluralidade.
Aqui na TV Cultura, todos trabalhamos para oferecer programas que sejam transformadores, dirigidos a variados públicos. Nosso principal objetivo é fazer uma televisão pública de qualidade, com conteúdo inteligente e, acima de tudo, transparente.
IMPRENSA - Não é segredo que o senhor assumiu durante um período tenso, o que gerou um pouco de desconforto e desaprovação por parte de alguns funcionários. Hoje, um ano depois, o "clima" na Cultura está mais ameno?
Sayad - O clima interno melhorou muito, especialmente porque estabelecemos um relacionamento franco e aberto com todos os colaboradores e porque as mudanças executadas até agora estão sendo bem percebidas pelo público interno.
IMPRENSA - O senhor acredita que parte da imprensa se aproveitou das recentes polêmicas em torno da Cultura com intuito político?
Sayad - Uma TV pública sempre estará sujeita a especulações relacionadas a favorecimentos políticos, mas posso garantir que não há qualquer interferência neste sentido e a TV Cultura tem mantido sua independência e oferecido programação de qualidade para os mais diversos tipos de público.






