O perigo exclusivista

O perigo exclusivista

Atualizado em 28/11/2008 às 14:11, por Igor Ribeiro.

Só mesmo um jornalista muito antipático ao universo digital para não saber a quantidade de gente que hoje produz informação e nunca cursou comunicação - e muitas vezes, sequer fez faculdade. Eu mesmo cheguei a idealizar um sobre música anos atrás, no qual era o único com formação em jornalismo, entre os três colaboradores. Nada de novo. Mas, recentemente, ao conduzir a apuração de uma pauta complexa sobre tecnologia de informação, que envolvia fontes em diversas cidades do país, me dei conta de que essa popularização da notícia é muito maior do que eu imaginava.

Gente que mora no sertão, numa pequena fazenda ou numa vila de pescadores. Gente das periferias das cidades ou das áreas nobres, em suas mais variadas especialidades. Crianças, adolescente, idosos. Porteiros, executivos, estilistas, bailarinos, contadores, vendedores, estudantes, escultores, atletas. Deficientes físicos, visuais e auditivos. É formidável. Por meio de telecentros, pontos de cultura, lan houses, do próprio computador ou do PC do amigo, algumas vezes com imagens, áudios, vídeos, bem editadas, muitas vezes feitos pelo celular. Outras vezes mal-escritas, mas de uma sensibilidade enorme. É um conteúdo vasto e riquíssimo, não há como ser ignorado.

Essa monumental, crescente e fascinante realidade nos diz, basicamente, que a briga de certas entidades a favor do diploma obrigatório é uma batalha contra moinhos. Pense bem: algumas centenas de milhares de jornalistas reivindicando qualquer espécie de exclusividade de trabalho ou de direito contra milhões de brasileiros que a cada dia, hora e minuto conhecem, por meio da internet, a possibilidade de divulgar ao mundo suas histórias sem o intermédio de ninguém. Se em veículos impressos altamente segmentados ainda há, por exemplo, a obrigatoriedade formal e hipócrita do "jornalista responsável", nada nunca vai obrigar um internauta de uma comunidade quilombola a incluir a mesma premissa em seu site. E quem vai dizer que o que eles produzem não é informação ou jornalismo?

Antes que as tochas se acendam e as cruzes se aproximem, preciso fazer uma ressalva. Um dos poucos redutos educacionais onde ainda se ensinam as premissas básicas de jornalismo são as faculdades de comunicação. O que é um grande mérito. Pois, antes de entrar no mercado de trabalho, é saudável discutir necessidades fundamentais do bom jornalismo, como fonte, outro lado, pesquisa, padrões e estilos. Mas, convenhamos, não é uma faculdade de jornalismo que vai ensinar estatística, economia, história, filosofia, ciências políticas ou sociais. Até ética é algo que não cabe ser jogada no balaio jornalístico. Parafraseando Cláudio Abramo, ética é ética: pode-se estudar as raízes mais profundas do debate filosófico num curso específico, mas não existe "ética jornalística", "ética médica", "ética gastronômica" (isso mereceria um texto próprio, futuramente). O importante é observar que a teoria atrelada ao jornalismo só tem razão de ser em escola específica - o seu entendimento enquanto ciência é superficial num curso regular de comunicação. Nesse momento, para defender novamente o curso, viria a imposição técnica: a escola de jornalismo ensinaria o que é um lide de jornal, um switcher de TV, o manuseio de um fotômetro, a sangria de uma página. Mas a verdade é que alguém que adora escrever, ou ama televisão, ou alguém que curte fotografia ou design nunca conseguiria dominar a especificidade técnica da qual gosta num curso de jornalismo regular, de quatro anos, com a concorrência de outras disciplinas. O sujeito, para dominar a língua escrita, tem que estudar letras; para a televisão, recomendada-se rádio e TV; para os candidatos à fotógrafo, há cursos específicos e no mínimo um universitário; o mesmo para os fãs de design. Tira-se a técnica e a teoria, há algo muito pontual que realmente vale o ensino jornalístico, espécie de "malícia" da profissão, que se pega na faculdade e se aprimora no trabalho.

Além disso, o avanço e a inclusão tecnológica tem reduzido ainda mais a necessidade técnica. Por meio da internet, qualquer um pode aprender conceitos básicos da língua; aprender por meio de tutoriais como funciona edição de vídeo; estudar o mecanismo de uma câmera fotográfica; baixar programas gratuitos para design; etc. Não que isso seja melhor ou pior, mas simplesmente existe, é possível, e só acontece porque há disseminação de informação, que muitas vezes não passou pelas mãos de um jornalista. Ilustrativamente, o sujeito que disponibilizou um tutorial sobre edição de vídeo costuma ser um profissional da área, raramente um jornalista. E se for, é bom desconfiar do conteúdo.

Os jornalistas que admitem não terem controle sobre informações de especialistas, ou que se dizem "especialistas em generalidades" estão um passo adiante - pelo menos desceram do pedestal. Mas, de forma geral, orgulham-se do domínio sobre a língua e da interface que fazem entre o especialista e o cidadão comum. Em primeiro lugar, essa história de domínio da língua é uma imensa falácia. Jornalistas abominam erros de português, mas vivem cometendo seus deslizes. Quando o fazem, dificilmente assumem: preferem culpar o revisor, o editor, o barulho da redação. Pesa sobre eles a incoerência de abominar algo ao qual estão todos submetidos - principalmente eles próprios - e a herança ignorante de sacrilizar deslizes como erros. Esta não é uma defesa de um português mal escrito ou mal falado, mas uma defesa da tolerância lingüística, um alerta contra o perigo que a idolatria à forma padrão da língua pode causar ao estigmatizar o cidadão comum e aumentar nosso calabouço social.

Para a mesma reportagem citada no início da matéria, a repórter Ana Ignácio colheu um depoimento valioso de Maurício Falavigna, diretor do Sampa.org. Este explicou como teve origem um projeto chamado Capão OnLine, no qual auxiliaram uma comunidade da periferia paulistana a se organizar e montar uma agência de notícias. Montaram um curso de jornalismo simples e funcional. Sobre o trato do português, Falavigna detalhou, sem pudores infantis, que primeiro incentivaram as pessoas a escrever como quisessem, sobre peculiaridades do seu bairro:

"Questões como língua portuguesa, por exemplo, a gente resolveria ao longo do tempo. Primeiro porque a língua oficial é a coisa mais excludente do mundo. É um dos mecanismos de exclusão mais poderoso que existe porque você não deve ter 10% da população que consiga manusear ela com alguma propriedade. A gente resolveu corrigir esses problemas depois, porque percebemos que o importante era eles contarem histórias, entender o processo da coisa, de construção de uma notícia. Podia cada um escrever 'exceção' de um jeito mas ninguém ia corrigir o outro porque ninguém saberia qual era o certo, mas iam entender a história, iam ler até o fim. A gente chegou a publicar com erro de português para evitar qualquer tipo de constrangimento e individualmente íamos dando aula de português. E outra coisa que calculamos e que realmente aconteceu é que quanto mais eles se interessassem por escrever, contar uma história, ir atrás de uma notícia, relatar aquilo, é natural que eles passem a ler muito mais. Passando a ler mais, eles vão errar muito menos e é realmente o que acontecia. Com o tempo, aqueles erros iam diminuindo consideravelmente, a gente só corrigia pontuação e concordância para que todo mundo pudesse ler, mesmo com a ortografia errada."

Falavigna não é um iletrado irresponsável. Chegou a estudar comunicação, formou-se em história pela USP e dedicou boa parte da sua vida ao jornalismo. Para os interessados em se aprofundar sobre o tema específico que ele coloca, é importante conhecer os conceitos por trás das variações lingüísticas, lendo os estudos de mestres como , e Carlos Alberto Faraco.

Os "especialistas em generalidades" também trocam os pés pelas mãos ao acharem que são capazes de traduzir para um grande público assuntos complexos das mais variadas especialidades, seja medicina, filosofia, economia ou tricô. Optar pela generalização não é errado, é até saudável que gente treinada na ferramenta escrita, televisiva ou digital tenha sua especialidade nela, de forma que consiga com facilidade disponibilizar conteúdo ao público em geral. Mas no momento de adaptar o conteúdo de um especialista, deve-se redobrar o cuidado, verificar e reverificar tudo que se escreve, certificar-se de que um simples sinônimo, naquele ramo específico da ciência, não quer dizer algo completamente diferente. Editei, há pouco tempo, revistas educativas cujos textos eram prioritariamente escritos por especialistas. Demorei muito quase dois anos para conseguir atingir um equilíbrio entre um trabalho que fundisse a inteligibilidade para o público e originalidade do autor. Bati muito a cabeça, mas persisti. Ouvi algumas reclamações dos leitores e, principalmente, dos acadêmicos, porém nunca me esquivei da conversa e da admissão do erro. Posso dizer que, ao fim de três anos desse processo, aprendi muito.

Este não é um chamado às transformações radicais ou a um grito revoltado contra a ordem vigente. Cursos de comunicação, sindicatos e associações empresariais são livres para articularem seus interesses como quiserem. Da mesma forma, os jornalistas viciados nesse sistema podem continuar tratando o vernáculo como o último bastião nacional e tomarem para si exclusivamente o direito de comunicação. Tudo pode continuar como está, mas a profissão paga um preço pela manutenção desse sistema e do comportamento conseqüente, que é o afunilamento das idéias. Enquanto isso, os guardiões da grandiloqüência jornalística deixam de participar de modo mais expressivo do maior evento cultural já acontecido neste planeta: a democratização das tecnologias de informação. E o ingresso dessa festa custa infinitamente menos do que o afunilamento das idéias. Para entrar, basta estar desarmado e cheio de disposição.

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A reportagem citada neste artigo estampará a capa de dezembro da revista IMPRENSA, edição 241. Convido todos a lerem e refletirem sobre o assunto.