O paradoxo da enganação
O paradoxo da enganação
Quer ver uma aula mestra de cinismo? Faça uma leitura comparada entre a cobertura sobre a COP-15 e pautas comuns - política, economia, geral, esportes − do mesmo período, em dezembro. Busque na internet, procure vídeos no YouTube, resgate as revistas semanais que iam para reciclagem ou o jornal velho que teria destino menos nobre. Está tudo lá.
Em determinado caderno do diário ou bloco do programa, a imprensa cobria a desorganização de Copenhage; mais a frente, uma matéria elogiosa tratava da campanha Rio-2016. Certo momento, discutia-se a renúncia do presidente da Conferência; depois, a previsão de gastos com propaganda eleitoral no Brasil pós-reforma. Antes, a necessidade de compromisso internacional no corte de emissão de carbono; depois, as perspectivas do crescimento das vendas no Natal. Lá, a urgência em se discutir novos modelos econômicos e a necessidade de conscientização ecológica da população; aqui, compre, compre, compre.
Se a incoerência alarmante não parece tão clara nos exemplos acima, vou me explicar melhor: Como é que a grande mídia brasileira tem a empáfia de se orgulhar de determinada cobertura se ela não ajuda a limpar a sujeira do próprio quintal?Prováveis desculpas, capítulo um: esse é um mal da imprensa no mundo todo. Pode até ser, mas não me cabe analisar o jornalismo praticado pelos outros, que acompanho de forma referencial. Além disso, o fato de o planeta inteiro ser irresponsável nos redime de alguma forma?
Prováveis desculpas, capítulo dois: a cobertura jornalística preza pela imparcialidade e cobre tudo que for do interesse do leitor/ouvinte/telespectador. Mentira. Quando um jornal publica em letras garrafais que o evento voltado ao clima teve resultado frustrante e seus articulistas reforçam a urgência de metas firmes de mitigação, este veículo está dizendo afirmativamente que é a favor da ecologia e da sustentabilidade. Do mesmo modo, ao publicar infindáveis guias de compras e sugestões de ceias natalinas, determinado jornal assina embaixo do consumismo e dispêndio desenfreado exercido nessa época - e para isso nem precisa de articulistas.
Prováveis desculpas, capítulo três: a mídia não pode abdicar de sua função econômica - ajudar a girar o mercado e contribuir para o progresso da nação - a favor de sua função social - alertar sobre o desastre ecológico. É fato, porém, que a conservação dessa via de mão dupla possui uma contradição científica que, didaticamente explicada, é capaz de iluminar o menos capaz dos iletrados: a manutenção do planeta e a construção de uma sociedade sustentável é completamente incompatível com o modelo econômico no qual vivemos há mais de cinco séculos. A mídia, única instituição com poder o suficiente para fazer a massa refletir sobre esse quadro, prefere bater e assoprar. Enxugar gelo. Lavar as mãos. Consigo pensar numa dúzia de provérbios para destacar tamanha irresponsabilidade.
Claro, exceções desse paradoxo editorial pularam por aqui e acolá. A Folha indicou, por exemplo, como a Copa do Mundo de 2014 vai ser a mais poluidora de todos os campeonatos anteriores, e em outra reportagem mostrou como a produção artesanal de presentes natalinos é uma ideia que tem tudo a ver com sustentabilidade. O Estadão fez uma boa matéria sobre a Lei Nacional de Mudança Climática com críticas ao veto sobre o abandono de combustíveis fósseis. E, claro, todo mundo lamentou profundamente o resultado da COP. Mas ninguém assumiu responsabilidades institucionais, nem mesmo Folha e Estadão. Nenhuma empresa de mídia brasileira arregaçou as mangas e percebeu que, para além de relatar os problemas do mundo, devia fazer algo efetivo para ajudar a resolvê-los.
Verdade seja dita: não é tarefa simples. E a imprensa, muito mais do que assumir qualquer espécie de protagonismo, deveria ao menos convocar à reflexão sociedade, governo, ONGs e setor privado, no sentido de construir um caminho prático de mudança. No caso da comunicação em especial, seria de fundamental importância que esse debate fosse amplamente defendido conjuntamente por instituições como ANJ, Aner, Abert, ABTA, ABPA, ABA, Abradi, ABRP, Aberje e Abracom. Seria uma ótima reunião, cujos trabalhos poderiam ser inaugurados a partir da pergunta: "Como recomeçar do zero?"
Na pior das hipóteses, o trabalho jornalístico deve aprimorar-se para melhor analisar e expor ao público as fraquezas do sistema sócio-econômico em que vivemos. Esse tipo de matéria nunca deve ser construído isoladamente, por baixo de um único chapéu e sem estabelecer relações diretas com as mais diversas editorias − afinal, as consequências do que pensamos e fazemos raramente são localizados. Não tenho lembranças, no entanto, de reportagens de grande repercussão no Brasil nesse sentido.
Lá fora, duas revistas de grande influência trataram desse assunto de forma bastante ampla e discernida em recentes matérias de capas. A Newsweek publicou, em novembro, sobre uma próxima bolha econômica a surgir ainda em 2010, fundamentalmente originária da ausência de base real para a recuperação de crédito que fez o mercado financeiro respirar novamente, especialmente a partir de fevereiro de 2009. Segundo a revista, o restabelecimento econômico pós-crise aconteceu baseado na própria cultura de confiança e desenvolvimento que ajudou o caos a acontecer. A outra revista a alertar inteligentemente sobre tais questões foi a The Economist em edição de dezembro, com um grande especial analisando o empobrecimento da ideia moderna de progresso.
Há outros modelos coerentes para inspirar-nos. Podem ser simples matérias de jornais, podem ser eventos mais ambiciosos. O que importa é fazer com que o saldo final entre nossas vontades e nossas atitudes não sejam tão opostos como agora. E que tais atitudes e seus resultados não sejam tão enganosos a ponto de aliviar a culpa geral.






