O pai do "Quarto Poder"

O pai do "Quarto Poder"

Atualizado em 02/02/2009 às 13:02, por Nelson Varón Cadena.

Este ano a Inglaterra comemora o sesquicentenário da morte de um de seus filhos mais ilustres: Lord Macauly (1800-1859), a quem se atribui a concepção da imprensa como um "quarto poder", frase cunhada pelo parlamentar, literato e historiador em 1828, num contexto não muito claro. Em todo caso, uma frase que ainda hoje dá margens a inúmeras interpretações, controversa, polêmica; cristalizada no inconsciente coletivo dos profissionais de mídia de todo o planeta como uma sina ou uma benesse. Há quem diga que Macaulay referia-se à Galeria de Imprensa da Câmara dos Comuns, há quem situe o contexto como uma crítica velada ao The Times. O fato é que a expressão "quarto poder" ganhou fôlego e se multiplicou, de fato, a partir da publicação em 1850 de um livro com esse título da autoria do jornalista F. Knigth Hunt. Macauly que alguns de seus biógrafos julgam um dos mais eloqüentes defensores da liberdade, comparável a Thomas Jefferson, morreu sem imaginar que o "quarto poder", qualquer que tenha sido a sua inspiração, vestiria a carapuça e a perpetuaria "sine die".

Thomas Babington Macaulay era filho de um livreiro, garoto prodígio que aos sete anos de idade escreveu um "Compendio da história mundial"; menino, já revelava o seu talento como historiador, imprimindo observações críticas sobre os fatos. Entre 1824 e 1830, período que compreende a autoria da frase do "quarto poder", publicou inúmeros ensaios no jornal de Francis Jeffrey, tido como o principal veículo de opinião política da época: o Edinburgh Review. Sempre artigos em defesa das liberdades dos escravos, contra a censura à imprensa, a favor da independência das mulheres a quem lhes atribuía o direito de possuir propriedades, contra o anti-semitismo e ainda artigos onde enaltecia as virtudes da propriedade privada que considerava essencial para a afirmação do conceito de liberdade.

O ídolo de Churchill
Da imprensa para o parlamento foi apenas um passo, de modo que em 1830 já surpreendia seus colegas com eloqüentes discursos, uma oratória envolvente que fazia silenciar a casa, segundo observam os seus biógrafos. Empenhou-se em combater a escravidão na Índia, então uma colônia inglesa, aboliu leis que censuravam a imprensa e estabeleceu limites para a pena de morte. A causa indiana deu-lhe visibilidade, tanto quanto a edição de sua obra prima "History of England", traduzida para nove idiomas e que no século XIX vendeu centenas de milhares de exemplares, em especial no mercado americano onde o livro teve impar acolhida.

Lord Macaulay foi amado e odiado pelas suas idéias. Desprezado por Karl Marx e Thomas Carlyle, dentre outros; admirado por J.O.Taylor e Lord Acton que o considerava depois de Shakespeare o maior escritor inglês. Winston Churchill que aos treze anos decorou os mil e duzentos versos do heróico poema épico de Macaulay, Lays of Antient Rome, gabava-se de seus escritos serem uma combinação dos estilos de Macaulay com o de Gibbon.

Macaulay construiu uma obra monumental. Mas foi uma frase dita ao "acaso', sem nenhuma importância para ele que nunca mais se referiu ao assunto, num contexto não muito claro, conforme aqui referido, que lhe perpetuou o nome. Macaulay teria sido apenas uma referência das elites intelectuais, mas o "quarto poder" tornou-o uma referência popular.