O mesmo, só que ao contrário
O mesmo, só que ao contrário
A duas longas quadras do hotel onde a fotógrafa Pya Lima e eu ficamos hospedados em Pequim, em janeiro deste ano, há uma igreja católica. Ela destoa da paisagem de Xidan, hoje um próspero bairro comercial, com edifícios corporativos e grandes shoppings centers, a oeste da Praça da Paz Celestial. Certa manhã, Pya, Sheryl (nossa intérprete) e eu resolvemos conhecer a igreja. A resistente neve dos dias de dezembro se acumulava na entrada e, com medo de avançar em território restrito, andamos com cautela no adro da igreja, onde repousa, espantosamente dourada e visivelmente lustrada, uma imagem de São Francisco Xavier, um dos fundadores da Companhia de Jesus, considerado o responsável pelo maior número de conversões ao cristianismo depois de Paulo, em especial no Oriente. Francisco Xavier morreu na China, a espera de permissão para entrar no país.
Vencido o pátio, nós entramos na igreja. Um chinês muito pequeno e corcunda, circulando por ali, compunha com o cenário um ambiente soturno e levemente engraçado. Duas senhoras, aparentemente religiosas, trabalhavam na entrada da igreja, recebendo os únicos três visitantes naquele momento. O tom de suas explicações sobre a construção revelava algo levemente burocrático. Pareciam dóceis e eficientes funcionárias públicas.
De fato são. Desde a criação da República Popular da China, os católicos legalmente reconhecidos se reúnem sob a autoridade da Associação Patriótica Católica Chinesa, que legitima a versão estatal da Igreja Católica Romana. Entre os principais pontos de tensão entre as duas instituições está a autoridade do papa e a nomeação de bispos. De acordo com o Governo Central, a submissão dos católicos aos princípios estatais e comunistas tem como objetivo manter, sobre a igreja,"os princípios de independência e autonomia, autogestão e administração democrática". As duas adoráveis "funcionárias" da igreja nos convidaram para a missa, supondo fôssemos católicos, no domingo pela manhã. Não comparecemos, do qual me arrependo. Gostaria de ver como se processam os ritos e, sobretudo, confirmar a minha tese tardia de que sob o teto da igreja patriótica, todos os fiéis são, antes de católicos, chineses, no sentido mais literal das palavras e de sua oposição (católico significa universal).
A relação entre Estado e religião na China comunista se deu, todos sabemos, de forma violenta, paga com a liberdade individual de crença e de expressão da fé. A China não é um Estado laico, mas, antes, um estado ateu. Se existe de fato, Deus vive sob concessões do Partido Comunista Chinês. Já nas democracias ocidentais que alcançaram maturidade política e instituíram verdadeiramente um estado laico, não se usou a força, mas a lei e o bom senso. Este, infelizmente, não é o caso brasileiro.
Os rumos tomados pelo debate político-eleitoral nesse segundo turno entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) me lembram daquela insólita manhã. Antes de brasileiros e eleitores, tornamo-nos todos cristãos. Quando escrevi sobre esse mesmo tema, o horror ainda não havia se instalado. A confusão entre princípios religiosos e políticos era apenas uma leve sugestão no horizonte eleitoral. Hoje, explícita, faz-nos retroceder aos piores momentos e práticas da nossa política.
O farisaísmo se aplica nos dois sentidos. No primeiro, da devoção religiosa desmedida, cega e impositiva. No segundo, da mesma devoção religiosa, hipócrita, vazia e oportunista. A responsabilidade, contudo, não é apenas dos candidatos e de seus marqueteiros. É, sobretudo, do jornalismo que deu guarida ao tema, transformando fé, religião, aborto, união civil entre homossexuais (dentre outras) em universais e fundamentais, quando não o são. São deploráveis as imagens de José Serra beijando um terço em Goiás e a divulgação, por Dilma Roussef, de carta em que se compromete a não mudar a lei em aspectos sensíveis às igrejas, Católica ou evangélicas, rompendo com os avanços sociais e com os ideais mais à esquerda, berço político dos dois candidatos, religiosos de última hora.
Diferentemente da China comunista, cujo autoritarismo do Estado violentou a vida privada, presenciamos, horrorizados, à vida privada impor-se sobre o Estado democrático. Não há diferença. Tão deplorável quanto o aparelhamento político e partidário sobre os negócios da fé é o aparelhamento religioso da vida pública e governamental. A igreja de São Francisco Xavier, em Pequim, pareceu a mim transformada em uma fria repartição pública de aspecto revolucionário e impessoal. Aqui acontecerá .
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Parece sintomático que o brilhante e polêmico psiquiatra José Ângelo Gaiarsa (1920-2010) tenha desistido de nós em meio a esta campanha presidencial. Ele era o oposto dos conservadores que pautam a disputa ao Planalto. Sua face mais conhecida - a de comentarista de televisão - colaborou para fazer avançar muito dos costumes retrógrados e leituras medievais das relações humanas, familiares, principalmente. Lembro-me do susto que eu, ainda adolescente, levei ao vê-lo aconselhar uma mulher no "Dia Dia", da Band, nos anos 1990. "Eu não suporto o namorado de minha filha. Ele é folgado, indelicado, sem modos", afirmou a telespectadora. Sua pronta resposta: "A senhora o deseja sexualmente". Há dois anos, encontrei-o numa loja de materiais de construção de meu bairro. Lamentei que ele não tivesse mais espaço nessa mídia tão atrasada e politicamente correta de nossos dias.






