O mercado de imprensa em discussão / Por Gustavo Barbosa - PUC (RJ)

O mercado de imprensa em discussão / Por Gustavo Barbosa - PUC (RJ)

Atualizado em 04/08/2005 às 15:08, por Gustavo da Silva Barbosa e  estudante de jornalismo da PUC-Rio*.

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"Não temos liberdade de imprensa, mas sim liberdade de empresa" - Cicero Sandroni

A imprensa não costuma ser pauta de si própria. O mercado de jornalismo é hermético e são poucos os estudantes de Comunicação que entram numa redação de jornal, TV ou rádio. Ao mesmo tempo, o repórter encara a necessidade de ser multifuncional e tem uma vida profissional relativamente curta. Ouve-se falar em liberdade e ética no jornalismo, mas não há divulgação suficiente do assunto. O escritor e jornalista Cicero Augusto Ribeiro Sandroni é ex-aluno da PUC e ocupa a cadeira número seis da Academia Brasileira de Letras. Membro do Conselho de Ética da Associação Brasileira de Imprensa, ele foi repórter político de O Globo, Jornal do Brasil e Correio da Manhã. Cicero foi, ainda, redator-chefe das revistas Manchete e Fatos e Fotos e cobriu a inauguração de Brasília em 1960. Para ele, tanto o profissional de jornalismo quanto os órgãos de imprensa faltam com a ética de diferentes maneiras. Quando isso acontece, a sociedade é que sai perdendo: "O jornalista e as empresas de mídia precisam ser fiéis e objetivos com o público e oferecer informações de modo bem feito e eficiente. O que importa para o leitor é credibilidade, informação verdadeira".

Revista Pilotis: O IBGE realizou uma pesquisa apontando que o desemprego na faixa etária de 18 a 24 anos cresceu de 9,18% em 1991 para 12,46% em 2001. Como você vê a absorção de jovens e recém-formados no mercado da imprensa?

Cicero Sandroni: O mercado de mídia é muito restrito. O número de empresas jornalísticas está diminuindo com o problema econômico do País. O Sindicato dos Jornalistas realizou estudos mostrando que houve uma redução dos quadros de trabalho. Quando isso acontece, ficam os mais jovens e mais competentes. A vida útil profissional de um jornalista é curta, dura um pouco mais que a de um jogador de futebol. Do ponto de vista empresarial, um bom jornalista é aquele que tem mais conhecimentos e experiências. Mas, no Brasil, um bom jornalista precisa ter a função de editor quando chega aos 40 anos. Ele não ficará como repórter para sempre. Como as universidades estão despejando muitos formados, os repórteres com mais idade acabam perdendo o emprego e passam muitas vezes para a área de assessoria. Em contraste, na imprensa européia, por exemplo, ainda tem muita gente com mais de 60 anos na ativa.

Revista Pilotis: Quais são as críticas direcionadas aos jovens que chegam no ensino superior pretendendo seguir a carreira de jornalismo?

Cicero Sandroni: A principal crítica é que os alunos vêm do ensino médio sem um preparo intelectual adequado. Ouço muito que o aluno chega à formação acadêmica sem saber escrever. É preciso conhecer o idioma para entrar na faculdade e aprender a técnica jornalística: como fazer boas perguntas, adequar as matérias, preparar o texto para ser publicado. Outro defeito é a falta de cultura geral. Os alunos não lêem. Eles deveriam estar em dia com a circunstância cultural de seu país. Além disso, os futuros jornalistas devem saber o que vão perguntar numa entrevista e isso tem a ver com o seu conhecimento geral.

Revista Pilotis: Qual a sua opinião sobre a exigência do diploma universitário para exercer a profissão de jornalista?

Cicero Sandroni: Sou a favor do diploma para exercer a carreira. É fundamental, porque demonstra que a pessoa passou por um curso e (em tese) está preparada. Isso evita que empresas jornalísticas contratem gente sem qualificação por um salário menor. Minha formação é em Administração, estudei Ciências Sociais. Fiz um ano de Jornalismo na PUC e tranquei. Mas defendo que para se ter uma boa compreensão jornalística é necessário uma formação de base universitária.

Revista Pilotis: Por que você não terminou o curso de Jornalismo na PUC?

Cicero Sandroni: Entrei em Jornalismo noturno em 1954 quando Cândido Mendes (pai) era o diretor da escola. Mas logo no primeiro ano comecei a trabalhar como foca (estagiário) na Tribuna da Imprensa. No dia anterior ao suicídio de Getúlio Vargas, fui com meu amigo Marcelo Tostes ao Catete para saber o que estava acontecendo no local naquele dia. Encontramos muitas luzes acesas e sentinelas na porta. À noite, foi dada a notícia de que Vargas tinha de se licenciar do cargo. Na manhã seguinte, o ex-presidente se suicidou. Quando soube disso me dei conta de que queria mesmo entrar para a redação de um jornal. Eu queria a ação. A teoria é muito importante, mas na época eu estava com muita vontade de conhecer a prática e acabei largando a faculdade.

Revista Pilotis: Antigamente os repórteres contavam com a figura do copidesque. Hoje, temos que produzir o texto final e com rapidez e perfeição. Qual a sua opinião em relação a isso?

Cicero Sandroni: Fui copidesque do Jornal do Brasil, Diário Carioca e Manchete e presenciei uma grande geração de repórteres que se baseava no apoio da figura do revisor dos textos. Hoje, mais do que estar preocupado com a produção de um texto final, o repórter tem o dever de dar conta de uma grande quantidade de matérias. As empresas querem tirar o máximo possível dele, o que pode criar patologias. É função do Sindicato dos Jornalistas rever isto e estudar até que ponto um trabalho desses provoca problemas de saúde. O jornalista tem muita responsabilidade, porque qualquer falha que ele comete compromete não só a sua vida profissional, mas a de outras pessoas também. O erro do jornalista está todo dia estampado nas bancas de jornal, enquanto o do médico está enterrado e o dos advogados está solto ou na cadeia. É por causa disso que os jornais estão ampliando suas redes de aperfeiçoamento para evitar correções.

Revista Pilotis: A Constituição prevê que um dos direitos básicos do cidadão é ter acesso à informação. Mas existem jornalistas que fazem uso da imprensa de maneira irresponsável. Um exemplo é o repórter Jason Blair, repórter do New York Times, que passou quatro anos fraudando matérias. Quais são as condições para o exercício de um jornalismo ético?

Cicero Sandroni: O problema da ética jornalística passa muito pela formação universitária. Não acredito que exista uma ética profissional e sim pessoas éticas. A ética é uma coisa só. A maneira de impedir o jornalismo irresponsável é adequar as empresas a uma posição ética. Para se chegar nesse estágio as empresas de mídia precisam ser fiéis e objetivas com o público e oferecer informações de modo bem feito e eficiente. O que importa para o leitor é credibilidade, informação verdadeira. Um jornal que dá dez matérias para um sujeito fazer não é humanamente ético nem responsável.

Revista Pilotis: Você acha que existe liberdade de imprensa no Brasil?

Cicero Sandroni: Não temos liberdade de imprensa, mas sim liberdade de empresa. Haveria liberdade de imprensa se houvesse uma variedade tal de jornais que o cidadão pudesse escolher a publicação que melhor atende às suas expectativas. É fundamental que haja a criação de condições para que outros segmentos da sociedade possam dispor de canais de comunicação com o público. A realidade é uma pequena quantidade de empresas que controlam quase toda a comunicação do mundo. E no Brasil não é diferente. A pluralidade da imprensa é indispensável para que o público tenha como optar. Podemos equiparar o conteúdo das revistas Veja, IstoÉ e Época: elas dizem quase a mesma coisa. A alternativa que temos é a Carta Capital, que segue uma linha mais crítica, mas tem uma tiragem bem menor.

Revista Pilotis: Quais são os seus próximos projetos como escritor?

Cicero Sandroni: Vou publicar três livros em 2005. Um de crônicas, um de contos e uma novela. Vou lançar em 2007 um livro sobre a história do Jornal do Commercio, o jornal diário com circulação ininterrupta mais antigo da América Latina. O livro coincidirá com o aniversário de 180 anos do jornal e eu vou falar sobre como a publicação acompanhou, participou, interferiu, opinou e refletiu a História do Brasil.

*Matéria publicada em maio de 2005 na edição 8 da Revista Pilotis
versão online: http://www.revistapilotis.com.br/materiacicero.ht,l