O mensalão da imprensa

O mensalão da imprensa

Atualizado em 25/10/2010 às 18:10, por Nelson Varón Cadena.

O golpe de 31 de março de 1964 impediu que o Brasil conhecesse os detalhes do envolvimento de jornais e jornalistas, num dos mais sórdidos episódios da história da mídia brasileira e suas relações promiscuas com a política : a manipulação da opinião pública, através de editoriais, artigos, noticias, programas televisivos e radiofônicos, em torno de um projeto de poder que tinha o Instituto Brasileiro de Ação Democrática-IBAD como gestor e operador. O golpe de 1964 pós fim à CPI que apurava a atuação de bastidores da entidade e a sua ação articulada com o Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais-Ipes, as suas relações com a CIA e a Embaixada Americana e o mais escandaloso: o "financiamento" da mídia.
A queima dos arquivos do IBAD, em pleno andamento da Comissão Parlamentar de Inquérito, impediu que o Brasil conhecesse as entranhas desse monstro engendrado e sustentado por empresários brasileiros que se sabe movimentou, apenas numa conta da agência de propaganda "Incrementadora De Vendas Promotion", 1,3 bilhão de dólares. Dinheiro destinado para o financiamento de campanhas, mensalão a parlamentares, compra de votos, formação de tropas de choque para sopapos, pichações e escutas clandestinas (grampearam até o Congresso), contrabando de armas, contratação de jagunços (o órgão é suspeito de ter comandado o incêndio criminoso das rotativas do JB), compra da linha editorial de empresas jornalísticas e o mensalão de dezenas, provavelmente centenas de jornalistas arregimentados à serviço da causa em todo o país.
Contrato assinado
O deputado gaucho Leonel Brizola revelou detalhes do modus operanti do IBAD em relação à imprensa, apresentando o contrato entre a entidade e o até então respeitado vespertino "A Noite". O Governador de Pernambuco Miguel Arraes também forneceu informações específicas sobre esse contrato e outros que denunciou na CPI envolvendo programas de emissoras de rádio e televisão do Recife : "Cadeira de Engraxate" exibido pela TV Canal 2 Jornal do Commercio e "Dramas da Cidade" irradiado pela Rádio Clube de Pernambuco, dentre outros que os documentos do IBAD relacionavam como "negociáveis" numa planilha de valores depositados.
Mas é o contrato de "A Noite" com a agência de propaganda "Incrementadora De Vendas Promotion", publicado por Samuel Wainer nos jornais "Última Hora", que nos revela as relações espúrias e o nível (ou falta de ) de parte da mídia brasileira com a entidade/organização objeto deste artigo. Pelo contrato "A Noite" receberia 5 milhões de cruzeiros durante os dois meses e meio de campanha para promover os candidatos apoiados pelo IBAD. Os detalhes da contra-partida são estarrecedores: A "Promotion" fornecia os editoriais; assumia o controle da editoria de política; contratava copidesques sem ônus para o jornal; diagramava a primeira página e poderia intervir na publicação de matéria-paga, vetando aquelas consideradas contrarias aos interesses da organização.
O fato é que na CPI do IBAD o Brasil ficou sabendo que pelo menos 60 empresas brasileiras contribuíram com o caixa do entidade; ficaria sabendo, décadas após, que a logística da "Promotion" tinha sido inspirada nos métodos do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs. Mas o golpe de 1964 nos impediu de conhecer o nome dos empresários envolvidos, nessa sórdida operação; dos jornalistas a soldo e dos veículos de comunicação "alinhados", mediante contratos, com os interesses do IBAD que nada mais eram do que os interesses das forças que um dia tomaram de assalto o Governo e depuseram João Goulart.