O Maestro, a Canção e o Encantamento
O Maestro, a Canção e o Encantamento
Cresci em ambiente musical. Apesar de meus pais não serem músicos - ambos foram funcionários públicos - sempre fizeram questão de ouvir muita música em casa. Meu saudoso pai, Seu Antonio, tinha uma grande coleção de LPs de dez polegadas e discos de 78 rotações, que conservo até hoje. Ele e Dona Dina, minha mãe, hoje com 82 anos e absolutamente serelepe, ouviam de tudo: Francisco Alves, Frank Sinatra, Carmem Miranda, Glenn Miller e por aí vai.
E tinham seus arroubos de modernidade com Elvis Presley, Brenda Lee, Neil Sedaka. Bom, para se ter uma idéia, meu pai gostava de ouvir, no fim da vida, Rod Stewart, Beatles e Queen!
Nasci em 1958. Aos três anos me sentava à frente da televisão religiosamente às terças-feiras, início da noite, para ver o Crush em Hi-Fi na TV Record, apresentado pela maravilhosa Cely Campello. Fui tomado por um misto de paixão e admiração por aquela doce menina que cantava Banho de Lua, Lacinhos Cor-de-Rosa, Estúpido Cupido... Pouco antes de sua prematura morte tive a chance de conhecê-la, conseguir autógrafo num CD e dizer o quanto ela era importante para mim. Foi uma das maiores emoções de minha vida.
Aos sete descobri a música de Burt Bacharach. Descobri por vias tortas, adorava ouvir rádio e vibrava quando tocavam Tom Jones cantando What's New Pussycat, tema do filme O Que é Que Há, Gatinha. Não fazia idéia de quem era Burt Bacharach, mas adorava a canção.
E comecei a me interessar por aquele som. Pulemos a história para 1971. Meu tio José Roberto, irmão de minha mãe, tinha muitos discos dos Beatles, Ray Charles, da orquestra do alemão Bert Kaempfert - fiquei fascinado por Afrikan Beat! - e dois que me chavam particularmente a atenção: Ye-Me-Le, de Sérgio Mendes & Brasil' 66 e Burt Bacharach, do próprio.
Na 'mão grande' me apossei de ambos. O disco de Sérgio Mendes, até hoje um dos meus favoritos, tinha canções fantásticas, mas me encantei pela última faixa em especial, What The World Needs Now. De quem era? Burt Bacharach, em parceria com o letrista Hal David.
O disco de Bacharach, um clássico que não canso de ouvir, trazia maravilhas como Mexican Divorce (que canção deslumbrante, meu Deus!), One Less Bell To Answer e uma certa (They Long To Be) Close To You, que já tocara nas rádios um ano antes com os Carpenters.
Estava feito o 'estrago afetivo'...
Comecei a correr atrás dos outros discos de Bacharach, Hit Maker! (ou Burt Bacharach Plays His Hits, pois saiu em duas edições distintas, de 1965), Reach Out (1967), Make It Easy On Yourself (1969) e a trilha de Butch Cassidy & The Sundance Kid (1969), com a divina Raindrops Keep Fallin' On My Head, na voz de B.J. Thomas, que eu também adorava, e as trilhas de Cassino Royale, O Fino da Vigarice (After The Fox), What's New Pussycat e Promises, Promises (o único espetáculo da Broadway musicado por ele).
Ao ter contato com esses discos, reconheci melodias deslumbrantes que ouvia como prefixos de programas de rádio e/ou trilhas de comerciais de televisão.
Fui tomado de um profundo sentimento de emoção e envolvimento com as harmonias intrincadas e os acordes mágicos das criações do Maestro.
Quando em 1973 foi lançada a trilha de Horizonte Perdido (Lost Horizon), não sosseguei enquanto não garanti meu LP. E me apaixonei pelo filme, claro. Que injustamente só fez sucesso no Brasil, diga-se...
Já era Bacharólogo convicto, daqueles que procuravam notícias em jornais e revistas. Não havia internet à época, uma pena... Até que em 1978 ele veio a São Paulo.
Burt Bacharach conheceu a música brasileira em 1958 ao vir como diretor musical de Marlene Dietrich para shows no Rio e em São Paulo. Ele teve contato com baião, samba e Bossa Nova. A partir dali, sua música nunca mais foi a mesma.
Voltando a 1978, foram dois concertos deslumbrantes no Palácio das Conveções do Anhembi. Eu, que já estava na faculdade e trabalhava, comprei ingressos para os dois dias. O salário foi quase inteiro, mas valeu a pena.
Passou-se o tempo, Bacharach seguiu compondo, teve altos e baixos de popularidade, mas jamais deixou de ser genial. Foi redescoberto em meados dos anos 90 e em 1999 fez um show no Metropolitan, Rio de Janeiro.
Tive o privilégio de entrevista-lo para a revista ShowBizz, da qual era um dos editores. O Maestro foi gentilíssimo, contou histórias maravilhosas. Tive como companheiro de prazerosa empreitada o grande fotógrafo Marcus Hermes.
Dois dias depois da entrevista, em 27 de outubro, o show. Mágico. E novamente um contato direto e afetuoso com o Mestre.
Dez anos depois, ele voltou ao Brasil. Foram cinco shows - Curitiba, Porto Alegre, São Paulo (2) e Rio. Claro que vi os dois na capital paulista, 15 e 16 de abril de 2009, de lugares privilegiadíssimos no HSBC Brasil, a poucos metros do palco. Tive a chance de dar um apoio operacional aos organizadores da turnê por conhecer muito bem a obra de Bacharach. E o entrevistei para o Jornal do Brasil (um mês antes, por telefone, e ele se lembrou do nosso contato no Rio em 1999, o que quase me matou do coração. E era verdade, pois ao me ver nos camarins confirmou a lembrança).
Foram dois eventos emocionantes. Quarenta canções apresentadas por um genial artista de 80 anos, que se portava como um garoto regendo a orquestra, conversando com o público, cantando, tamanha a disposição e a vontade que ele tem de fazer música. Nos dois dias, uma platéia embasbacada e eufórica, que não economizou lágrimas. Nem eu, diga-se.
Histórias, amores, acordes, recordações mágicas vieram à mente. A oportunidade de rever esse Deus da Canção ao vivo, carne e osso, mostrando suas maravilhas foi indescritível. Me senti emocionado e principalmente privilegiado.
E ainda por cima tive a oportunidade de apresentá-lo à minha querida Karyme Hass, que gravou em seu novo CD, Amor Solene, do selo independente RM2 Entretenimento, uma linda versão feita por ela e Tom Arruda para (They Long To Be) Close To You, intitulada Sonho Azul.
O Maestro, sempre atencioso e gentil, mostrou interesse pelo trabalho de Karyme.
Vejam só: alguém da magnitude de Mr. Burt Bacharach, um dos maiores gênios da história da música, mostrando interesse pelo trabalho de uma jovem artista. Isso é de uma dignidade ímpar!
A Vida nos presenteia com momentos grandiosos e inesquecíveis.
Muito Obrigado, Mestre Bacharach! Pelos 50 anos de Maravilhosas Canções, pela Humildade, Gentileza, Carinho.
Volte Sempre!
A Casa é Sua!






