O livrinho azul, por Rodrigo Viana

O que escrever num papel em branco sem nenhuma ideia de assunto? Em meio ao diálogo interno, súbita ansiedade tomou-lhe conta: tinha crença

Atualizado em 03/11/2014 às 16:11, por Rodrigo Viana.

Crédito:Leo Garbin

de que a ansiedade era uma espécie de cobra energética que subia do estômago à cabeça, provocando calafrios e espasmos musculares.

Ultimamente escrever era automação. Prendera- se ao velho jornalismo relatorial e fora de moda. Afinal as notícias, agora, não eram produzidas pelos mais jovens e seus smartphones, tablets e toda infinidade de aparelhos cibernéticos? Seu texto normóide estava tão obsoleto quanto uma máquina de escrever. Adepto de metáforas, filosofava: “Parece a Ferroviária de Araraquara: joga um futebol medíocre e está na segunda divisão há 19 anos”. Achava que iria completar maioridade normóide jornalística.


Resolveu ler um livro. A capa era azul anil: um bom presságio. Apegava-se não só às metáforas, mas à metafísica e, portanto, um presságio eliminava qualquer ansiedade. Leu sobre a boa e velha crônica de futebol. Ficou com tesão! Achava importante deixar claro que havia, ali, uma ruptura de tudo quanto vinha pensado ultimamente. Depois de devorar o livrinho azul da cor do céu, reflexão: “A crônica tem tentáculos literários...”. Foi buscar um guru. Queria saber o porquê dos porquês.


Tomou coragem – outra que andava sumida – colocou no Google o nome de um antigo autor da época de faculdade e fuçou até encontrar o homem. “Um café?” O doutor em Ciências da Comunicação pela USP e pós-doutor no Canadá se apresentou apenas como ‘aprendiz de viver’. Naquele momento desangustiou-se: lembrou da faculdade e da paixão pela obra antiga: “Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura”.


Mas paixão passa e amor fica. – “Existe algum link do jornalismo literário com o esportivo?”, quis saber temendo o recorrente “não” que a vida vinha lhe dando. O guru explicou que o esporte não mobiliza apenas a mídia, mas a sociedade e os povos. Por isso espelha o teatro da vida na trajetória dos atletas de todas as modalidades: um palco de dramas, glórias e fracassos retumbantes. “Sim, tema por excelência para o Jornalismo Literário”.


Ah! Havia encontrado a pena para rabiscar aquele papel em branco. Lembrou-se da aproximação das Olimpíadas no país e perguntou ao guru se era preciso dominar o Jornalismo Literário pra narrar em grande estilo. “Sim, mas também ter espírito de liderança, como o de um atleta campeão! Ser criativo, produzir reportagens, perfis, biografias, ensaios em livro, na mídia impressa e digital.”


Estava encantado. A chave de ouro foi a descoberta de que entre a mais de dezena de livros publicados pelo guru, estava “Ayrton Senna – Herói de Um Novo Tempo”, justamente um de seus ídolos.


Juntaram-se e montaram um curso de Jornalismo Literário no esporte. Pra soltar o texto, iniciaram com a ‘redação espontânea’, um atrevimento do guru. O aprendiz chegou a escrever um livro. O guru, satisfeito, passou a ler pequenas crônicas de jornalismo esportivo numa revista especializada. A história tem tudo para ter um final feliz.