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"O leitor sabe que quem está falando da novela é a Ilustrada, não é a Contigo", diz Mag, editor do caderno de Cultura da Folha

"O leitor sabe que quem está falando da novela é a Ilustrada, não é a Contigo", diz Mag, editor do caderno de Cultura da Folha

Atualizado em 04/09/2007 às 16:09, por Cristiane Prizibisczki/Redação Portal IMPRENSA.

"O leitor sabe que quem está falando da novela é a Ilustrada, não é a Contigo ", diz Mag, editor do caderno de Cultura da Folha

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Marcos Augusto Gonçalves, o Mag, começou no jornalismo de forma "acidental" e hoje comanda um dos cadernos mais lidos do jornal Folha de S.Paulo , a Ilustrada. Com diploma na área de exatas, mas um enorme interesse por letras e literatura, Mag começou a carreira de jornalista no jornal O Globo e já passou por veículos como Diário Lance , revista Isto É e Lance Net.

Dentro da Folha , empresa para a qual contribuiu em diferentes etapas de sua carreira, desenvolveu funções como a de editor da Revista da Folha , correspondente internacional, editor do Caderno Opinião e criador e primeiro editor do Caderno Mais.

À frente de uma equipe formada por 20 jornalistas e com o compromisso de uma coluna semanal, Mag acredita que a Ilustrada, hoje, pode falar de qualquer assunto, do mais gabaritado intelectual à "estrelinha de tv". Afinal, todo mundo já sabe: "quem está falando é a Ilustrada, não a Contigo ".

Em um bate-papo descontraído, Mag conta ao Portal IMPRENSA um pouco de sua história, a rotina da redação, os desafios impostos pela mediação tecnológica em um caderno de cultura e o trabalho de comando de uma equipe cada vez mais jovem. Confira:

IMPRENSA - Como começou sua carreira no jornalismo?
Gonçalves - Comecei no jornalismo de forma um pouco acidental, talvez. Comecei a estudar na Faculdade de Economia e Administração da Universidade do Rio de Janeiro. Com algum tempo de curso, eu comecei a me interessar por outros assuntos. Passei esse curso pra noite e me matriculei no curso de letras da PUC, onde conheci pessoas que estavam em contato com o jornalismo. Assim, comecei a fazer resenhas de livros pro jornal O Globo . A gente tinha uma turma de artista, intelectuais, jornalistas que fazia um jornal alternativo que se chamava O Beijo e eu fui fazer também.

E nesse momento de fazer esse jornal alternativo eu conheci muita gente interessante, porque era um coletivo muito grande e diversificado. Matinas Suzuki... Numa dada altura, eu me formei no curso de administração, tranquei o curso de Letras e fui fazer um mestrado em comunicação na Federal do Rio de Janeiro, tendo a Heloísa Buarque de Holanda como orientadora e Zuenir Ventura era um dos professores do mestrado. Na época, foi a primeira vez que eu trabalhei fixo, que foi na sucursal carioca da Isto É . Eu trabalhava na área de cultura da Isto é e dava aula também na faculdade do Rio. A uma certa altura, o Matinas Suzuki tinha assumido a Ilustrada e me convidou pra vir pra São Paulo. Eu acabei topando, fiquei um período como editor assistente. Quando o Matinas foi pro Rio, assumir a sucursal, eu fiquei como editor, um período relativamente curto.

Já passei por várias funções aqui [Na Folha ]. Fui editor da revista, fui uma das pessoas que criou o caderno Mais, fui o primeiro editor do caderno Mais, Depois passei um tempo como correspondente na Europa, na Itália, em Milão, no período da Copa do Mundo, em 90. Fui para a Iugoslávia, no início das manifestações dos estudantes contra o regime do Slobodan Milosevic. Voltei pra cá, passei um período na editoria de Mundo, e fui também editor de Opinião, até que, no final dos anos 90 eu saí do jornal, tive um convite pra dirigir o Diário Lance e o site Lance Net. Lá fiquei por três anos, foi uma experiência ótima. Em 2003 eu acabei retornando à Folha . E daí veio a oportunidade de assumir a editoria de Opinião. E aí o editor da ilustrada saiu, por motivos pessoais, e começou a me dar uma coceira de voltar pra redação, pra Ilustrada, que eu gosto muito. Voltei pra iIustrada, vai fazer dois anos.

IMPRENSA - Quantas pessoas você comanda hoje?
Gonçalves - Eu acho que aqui na redação, me incluindo e aos dois editores, 20 pessoas. Fora isso, tem uma série de colaboradores, críticos das diversas áreas, como cinema, artes plásticas, que trabalham fora da redação, e mais um grupo de colunistas.

IMPRENSA - E como é sua rotina de trabalho?
Gonçalves -
A Ilustrada fecha às 14h30. Então, na noite anterior, a gente recebe o espelho da edição e decide o que vai ser a capa, o que vai ser matéria. O Naief [Naief Haddad, editor assistente] fica à noite cuidando do risco eu fico um período também. Ele finaliza, de modo que, no dia seguinte, a gente já tem as sessões atualizadas, o caderno já está riscado e a gente fica esperando que as matérias fiquem prontas para fechar. Fechado às 14h30, ficamos à espera do espelho do dia seguinte e o processo é esse. Mas tem uma série de complicadores porque na quinta-feira a gente fecha o domingo, então, até às 14h30, a gente fecha a sexta, depois a gente começa a fechar o domingo e a preparar o sábado, que será fechado na sexta de manhã.

Fora isso, na própria sexta, a gente tem uma decisão sobre as edições de segunda, porque a edição de segunda é fechada no sábado e a edição de terça na segunda de manhã. Quando a equipe chega na segunda de manhã já precisa encontrar o caderno pronto para ser fechado. Então tem uma concentração de trabalho na quinta e na sexta bem mais pesado do que no início da semana. Fora isso tem a rotina de reuniões do jornal. Tem reuniões de pautas do fim de semana, tem duas reuniões por semana de especiais, tem as diárias ao meio dia e às 17h, que o jornal se reúne para ver quais são os assuntos principais das diversas editorias.

IMPRENSA - Quantas horas você trabalha por dia?
Gonçalves -
Depende. Tem dias que trabalho 10h, tem dias que trabalho 7h, tem dias 14h, depende. Mas diria que, em média, chego aqui ao meio dia e saio daqui às 21h.

IMPRENSA - Como funciona a pauta no caderno de Cultura? Tem um pauteiro? Os repórteres têm liberdade para se pautar?
Gonçalves -
Tem um pauteiro que acompanha a agenda, centraliza as pautas. Tem uma reunião de pauta da editoria em que a gente passa em revista a agenda e discute pautas propriamente. Os redatores e repórteres apresentam sugestões, eu também apresento sugestões. E tem uma dinâmica diária, aparecem idéias no dia-a-dia, diante dos acontecimentos, alguém faz uma ligação entre uma coisa e outra e as pautas vão aparecendo e a gente sistematiza tudo nessa reunião de sexta-feira.

IMPRENSA - Uma crítica que se fazia internamente na Folha há algum tempo era que o caderno de Cultura deveria sair um pouco do oba-oba da cultura, da cobertura de eventos para ter um tom mais crítico, como aquelas reportagens sobre a Bienal que tiveram bastante repercussão e as das carteirinhas de estudantes. Vocês conseguiram mudar isso. Esse é realmente o objetivo?
Gonçalves -
O projeto da Folha é de se fazer um jornalismo crítico. No caso da cultura tem o lado do entretenimento, o lado da orientação do leitor, o da reportagem e do jornalismo crítico. A gente tenta fazer uma coisa equilibrada. Já fizemos coisas muito fortes, como as reportagens sobre o uso da lei Rouanet, as reportagens sobre os problemas da Bienal, o próprio processo de reeleição do presidente da Bienal, que cometeu algumas irregularidades que depois ele mesmo reconheceu. Fizemos também uma reportagem sobre a carteirinha de estudantes, também em televisão a gente fez alguma coisa desse tipo, como a passagem de dinheiro da Igreja universal para a TV Record. Estes são todos exemplos. Acho que a gente talvez devesse até fazer mais, mas nem sempre essas coisas acontecem.

Mas temos essa preocupação e tem uma preocupação crítica também no exercício da crítica cultural mesmo, produto dos filmes, das coisas que estão em cartaz. Procuramos ter uma visão crítica do que está sendo apresentado, não a crítica pela crítica, mas procuramos exercer essa prerrogativa. Procuramos também detectar tendências novas, produtos novos, cantores, novas tendências. Acho que hoje nós trabalhamos com um povo muito heterogêneo e leitores relativamente diversificados. O caderno vai numa linha de diversidade, que é uma característica importante, pelo menos do jornalismo cultural. Diversidade no sentido de a gente transitar por esferas e registros e visões diversas, então, desde uma entrevista mais consistente com um intelectual como Augusto de Campos, até a reportagem mais Contigo, digamos, a estrelinha da TV.

IMPRENSA - Mas as coberturas dos dois lados não são dosadas? Você acha que tem uma preponderância, predominância de certo aspecto?
Gonçalves - Eu acho que um jornal que só fica fazendo um jornalismo cultural, sério, crítico, ele acaba se encalacrando um pouco em um tipo de público, de discussão. Por outro lado, se fica só no entretenimento, ele fica no superficial. A questão aí é a dosagem. Eu acho que o que permite a gente fazer também um jornalismo mais de entretenimento é a questão de credibilidade já adquirida, não só pela Folha , mas também pela Ilustrada. Quero dizer, eles sabem que a gente não é idiota, e a gente demonstra isso com alguma assiduidade. Então, a maneira de fazer o entretenimento tem um tom irônico. O leitor percebe quem está falando da novela é a Ilustrada, não é a Contigo , então ele sabe que por trás daquilo tem uma inteligência, mesmo que às vezes não pareça.

IMPRENSA - A redação é formada predominantemente por jovens. Você acredita que eles estão preparados para falar de cultura, tem know how para isso? Gonçalves - O seu Frias dizia uma frase que era: "Um dos poucos defeitos que não pioram com a idade é a inexperiência". Para mim, os jovens são mais antenados, o jornal tem que estar ligado no público mais emergente também. Hoje eu sou velho, tenho 51 anos, mas eu tenho a gurizada de vinte, vinte e poucos anos, então, eles são antenas. Eles sabem quem são os meninos que estão fazendo as coisas, quem vai ser a nova atriz de teatro, o novo artista plástico, a nova banda. A gente não pode perder essa conexão geracional com os mais jovens. Agora, tem o processo de seleção, tem o treinamento, a gente tem muita gente jovem de qualidade aqui. Claro que com uns problemas característicos da juventude, uma certa falta de cancha, às vezes um certo desconhecimento que, para uma pessoa mais velha, já é banal. A idéia é que a gente tenha um mix de juventude e experiência, mas eu gosto da idéia de trabalhar com gente jovem porque o jornal precisa formar novos jornalistas, são os caras que vão tocar o barco. Se começar a envelhecer muito e não se preocupar com a renovação do eleitorado, morre junto com o leitor. Tem problemas e tem vantagens de se trabalhar com uma equipe jovem. Eu diria que mais vantagem.

IMPRENSA - Você é uma pessoa bastante ativa culturalmente. Há a preocupação em se reciclar?
Gonçalves -
Isso é um problema do jornalismo e você acaba não tendo como retratar aquilo que deveria retratar que é a realidade exterior. Eu estou com um atraso de filmes enorme, a inércia leva você a ficar na redação. Em caderno de Cultura tem que existir uma certa especialização. Tem o cara que acompanha o teatro, o que acompanha música...A mediação tecnológica ajuda muito a você ficar na redação o que eu acho que é um desvio, tem que ter um equilíbrio, sair, ver as coisas, ter idéias, ver a vida rolar um pouco.

IMPRENSA - Como você concilia seu trabalho de colunista com o de editor do caderno de cultura?
Gonçalves -
Eu gosto muito de escrever e tenho um acerta facilidade de escrever. O grande drama é procurar assunto. Eu sempre estou pensando no que vou escrever e nem sempre a gente acerta, mas, para mim, não é um sofrimento não. Eu faço uma horinha extra em casa, fico à noite no computador, vou desenvolvendo alguma coisa, dá pra conciliar.

IMPRENSA - Você compõe também? Eu sei que você tem uma música composta para a Gal Costa.
Gonçalves -
(Risos) Não, eu não componho. Eu sempre tive vontade de fazer letras de músicas, eu tenho planos de escrever, talvez escrever ficção. Eu gosto muito de música popular, conheço relativamente bem eu sempre achei que teria condições de fazer uma letra. A letra pra Gal foi uma casualidade, porque minha mulher é artista e trabalha com palavra também. Um amigo nosso que trabalhava com a Gal tinha uma música que ela gostava muito, mas não tinha letra. Aí ele lembrou da Leonora e perguntou se ela não queria fazer uma letra para aquela música, mas só tinha uma semana pra fazer a música. Leonora ficou na dúvida e eu falei: "Vamos fazer essa música, eu te ajudo". Então a gente acabou fazendo, ficou legal e ela gravou, mas essa foi a única experiência (risos). Mas se alguém tiver música e quiser me mandar para musicar eu topo.

IMPRENSA - Em relação à coluna Mônica Bergamo, apesar de as colunas sociais ficarem historicamente no caderno de cultura, ela trabalha assuntos muito variados, inclusive, ligados à política. Você acredita que a coluna ainda caiba no caderno de cultura?
Gonçalves -
Acho que sim. A Ilustrada precisa ter uma abertura para outras áreas. Ela tem uma faceta politizada, sempre teve, mesmo porque a cultura dos anos 70 estava muito contaminada pela política, por conta do regime militar, muito da política foi feito na cultura. E também tratamos muito de livros que não se referem somente a assuntos culturais. Isso, de alguma maneira, sobreviveu e acho bom que seja assim, isso enriquece o caderno.

IMPRENSA - Quais são seus planos para o futuro?
Gonçalves - O futuro a Deus pertence (risos).