O laurel dos vazadores, por Gabriel Priolli

Sou fã do jornalismo investigativo. Vibro quando coleguinhas descobrem uma boa falcatrua e põem na roda, deixando pilantras “nus com a mão n

Atualizado em 03/12/2014 às 13:12, por Gabriel Priolli.

Crédito:Leo Garbin o bolso”. Não acho que seja a única área meritória da profissão, a ponto de deter o monopólio quase absoluto dos prêmios que oferecem à nossa categoria, mas reconheço que é a mais vistosa e a mais influente, pelos abalos que provoca. É justa, portanto, a glória para os praticantes da modalidade.
Mas vamos entender que a mídia evolui sempre e que o jornalismo investigativo que se pratica hoje segue outros parâmetros. Praticamente não temos mais repórteres fuçando, bisbilhotando, esticando orelhas, vasculhando de soslaio documentos em mesas oficiais, violando na raça os segredos mais bem protegidos, mexendo em grandes vespeiros.
Repórteres como Leonêncio Nossa, de O Estado de S. Paulo , que ganhou neste ano o Prêmio Esso de Jornalismo com uma reportagem que exigiu 17 meses de trabalho e viagens a 35 cidades, para demonstrar que 1.133 pessoas foram assassinadas no país por questões políticas, desde a promulgação da Lei da Anistia, em 1979.
Temos pouco desse tipo de jornalismo porque ele já é desnecessário. Hoje, os fatos investigam-se a si mesmos. Alguém testemunha (ou promove) a maracutaia, guarda documentos comprometedores e envia no momento certo, ao veículo certo. Melhor dizendo, negocia o envio, controlando o que libera e quando libera, em troca da matéria resultante atingir quem ou o que o denunciante deseja. É assim que se produzem escândalos em cachoeira, controlando a correnteza para que arraste uns e nem respingue em outros.
De uns tempos para cá, temos até a oficialização dessa prática avançadíssima de geração de noticiário. Agentes públicos a serviço da Polícia Federal, Ministério Público e Tribunais de Justiça, no afã de contribuir para o aprimoramento da nossa democracia, vazam abertamente à imprensa, sem qualquer constrangimento ou receio, informações sigilosas de inquéritos e processos, referentes a pessoas, órgãos ou partidos do seu desagrado.
Vazam a conta-gotas, para esticar o noticiário e manterem-se em evidência o máximo possível. Os jornalistas só têm o trabalho de pentear, intitular e publicar o material que recebem desses servidores abnegados do interesse público.
Assim é que, em nome do aprimoramento permanente da nossa imprensa, sugiro que os órgãos supracitados tenham seus próprios programas em nossas redes de televisão e rádio, e suas próprias páginas em nossos veículos impressos. Sugiro que transmitam ao vivo, de seus próprios estúdios, a tomada de depoimentos de delatores premiados, para mais rapidez na comunicação de malfeitos e maior eficácia nos efeitos políticos que visam causar.
Quem sabe, nos próximos anos, possamos conceder os nossos prêmios de jornalismo diretamente a policiais, promotores e juízes. Livraremos, assim, os coleguinhas de mais esse fardo, o de subir aos palcos para receber estatuetas que talvez outros mereçam e de sorrir com elas para as câmeras desse bravo novo jornalismo.