O lançamento do rádio no Brasil foi um evento menor
O lançamento do rádio no Brasil foi um evento menor
Nesta semana em que se comemora o Dia do Radialista (21/09) e o Dia do Rádio (25/09) permitam-me uma provocação: você, leitor do Portal Imprensa, já viu, ou conhece alguém que tenha visto alguma fotografia da "famosa" e "badalada" inauguração do rádio no Brasil, lá pelos idos de 7 de setembro de 1922? É claro que não! Já que não há nenhuma imagem sobre o assunto. A data é sempre lembrada como um marco de referência do início de operações da radiofonia no Brasil e se você está imaginando que estou a duvidar do fato, não é bem isso. Apenas tenho a sensação de que aquilo foi um evento menor, inexpressivo, no contexto da grande festa do Centenário de nossa Independência.
Tratava-se de uma festa organizada pela diplomacia brasileira, que estava lá se lixando, para experiências científicas de qualquer ordem. A prioridade era o cerimonial, a pompa e a circunstância, em torno da presença do Rei Alberto da Bélgica, dos presidentes da Argentina e Portugal e mais de uma centena de autoridades representando os seus respectivos países, atletas das nações latino-americanas e milhares de marinheiros dos navios estrangeiros ancorados no porto do Rio de Janeiro, protagonistas do grande desfile no Campo de São Cristóvão, perante 300 mil pessoas.
Imagem de tudo e de todos
Foi uma oportunidade e tanto para os fotógrafos da época que produziram centenas de imagens e nenhuma delas retrata a dita fala do Presidente da República Epitácio Pessoa no rádio. Os profissionais da área clicaram a grande parada militar aqui referida, mas também a abertura dos jogos latino-americanos, a inauguração da Feira das Indústrias, visita aos pavilhões dos países, o baile na embaixada uruguaia, as festas a bordo dos navios ancorados no porto, a recepção nas embaixadas, as homenagens da Universidade do Plata ao Brasil, o baile de gala do Itamaraty, o Garden-Party do Jardim Botânico, a inauguração do monumento de Cuauhtemoc em homenagem à delegação do México...
Clicaram ainda o campeonato de futebol do Centenário, as honras ao Presidente de Portugal, a concentração do povo do lado de fora do Palácio Monroe, a iluminação cênica das ruas do Rio de Janeiro, os fogos de artifício, o meeting de atletismo, os Grandes Prêmios Ypyranga e Independência no Jockey Club, o almoço no Palácio do Catete, palestras e conferências nos centros acadêmicos, a temporada lírica no Teatro Municipal e até o almoço que Santos Dumont ofereceu na sua residência (muitas autoridades convidadas) ao herói da 1º Guerra Mundial, o célebre aviador francês René Fonck.
As revistas ignoraram
Os fotógrafos destacaram também os ilustres jornalistas presentes, dentre os quais Jorge Piacentini, Diretor de "La Nacion" e Willian Powell Wilson do "The Philadelphie Comercial"... Fizeram imagens de todos e de tudo, menos da inauguração do rádio, que deve ter sido, mesmo, um evento menor, tanto que não há convergência nos registros sobre o assunto. Alguns autores falam que a inauguração foi durante o desfile do Campo de São Cristóvão, outros que dentro do recinto do Palácio das Indústrias. Dúvida difícil de ser equacionada já que os jornais diários, pautados pelo evento maior do Centenário, mal destacaram o evento coadjuvante, se a tanto chegou. As revistas (O Malho, Fon-Fon e Revista da Semana) ignoraram solenemente__nenhuma ironia nesta frase__ o episódio. Nem imagem, nem texto.
Tal vez devamos deixar de lado o entusiasmo e prestarmos maior atenção ao depoimento de Roquette Pinto, testemunha ocular e imparcial como cientista que era: " muita pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais da radiotelefonia...". Está dito e explicado quando repara que ninguém ouviu nada, reporta-se à qualidade técnica do som, mas também às circunstâncias: "no meio de um barulho infernal". Ninguém ouviu, ninguém viu e ninguém registrou para a posteridade aquela que seria uma imagem de fato mercante do início de uma nova era nas telecomunicações.






