O jornalismo nos blogs e sites pessoais

O jornalismo nos blogs e sites pessoais

Atualizado em 28/07/2005 às 12:07, por Gabriel Kwak.

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Os dez anos da Internet comercial estão sendo comemorados no momento em que os blogs vivem o auge da sua popularidade. De mero diário eletrônico, repleto de confidências e passagens do dia-dia das pessoas, passou a veículo de jornalismo com peso na balança, assinado por nomes que o leitor de há muito se acostumou a ver nas páginas dos jornais impressos, reproduzindo uma prática já muito comum nos Estados Unidos (o próprio romance entre o então presidente Bill Clinton com a sua estagiária Mônica Lewinski foi noticiado pela primeira vez num site de jornalista, o Drudge Reports).
Com a proximidade das eleições presidenciais e da Copa do Mundo de Futebol, essa ferramenta tende a ter cada vez mais visibilidade. "Aqui no Brasil, este ano, especialmente por conta da movimentação política, a imprensa brasileira começou a prestar mais atenção nos blogs", diz o jornalista multimídia Marcelo Tas, dono de um blog que deu certo, o Blog do Tas.
Um dos primeiros sites independentes de jornalista foi o do ex-porta voz do presidente Fernando Collor de Mello, Cláudio Humberto Rosa e Silva, o introdutor do estilo "bateu, levou" (lembra-se?). Humberto vive disso: sua página, responsável por alguns furos, é reproduzida em mais de 30 jornais, de 24 estados, e tem diversos contratos de publicidade. "A coisa mais curiosa é a cara-de-pau dos que usam os nossos furos diários e não se dignam a citar a fonte", reclama. Seu site pessoal permitiu-lhe voltar ao jornalismo político diário em 1998, depois de enfrentar resistências no mercado de trabalho.
Um exemplo do jornalismo blogueiro logo citado por dez entre dez internautas é o blog do jornalista Ricardo Noblat, lançado em março de 2004. Depois que deixou as redações, o jornalista não pôde deixar adormecido o seu lado repórter, privando leitores de informações quentes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios.
Seu blog teve audiência recorde durante os últimos escândalos de Brasília. Desde março deste ano, Ricardo Noblat começa a colher os frutos do êxito da sua empreitada. "O IG está me pagando para que eu continue com o blog hospedado lá", conta. Marcelo Tas também recebe do UOL para postar suas notinhas. Cláudio Humberto acredita que essa é uma tendência do mercado. "Sem profissionalização não há como ser competitivo, inclusive para criar e manter uma estrutura, contratar colaboradores e, sobretudo, para manter a independência."
O jornal "O Globo" foi o primeiro a oferecer a seus colunistas a opção de manterem blogs no site do jornal. Tereza Cruvinel, Cora Ronái e mais dezesseis articulistas não precisam seguir qualquer padrão técnico em suas páginas. Exige-se apenas que o blog não passe mais de uma semana sem atualização.
Outra jornalista experiente que destaca-se na blogosfera é Rosana Hermann. A idéia de manter um blog com notícias e comentários surgiu quando ela saiu da TV Record, onde apresentava o noticiário "Fala Brasil". Sua página tem em média 10 mil visitantes únicos por dia. Comparando a reação dos telespectadores com a do público dos blogs, Rosana fala das desvantagens de escrever para esse meio. "Há um anonimato virulento contra você como pessoa. Você está no mesmo meio de quem recebe. Há uma relação de igualdade com o leitor", diz. "O blog deixa você mais vulnerável. Ao contrário de apenas ter um programa no rádio, TV ou coluna no jornal, você vira um alvo atingível pelo consumidor de notícias do outro lado", analisa Tas, "alvo" ao alcance de cerca de 30 mil visitantes únicos.
Os blogs também são um complemento, um braço das atividades que esses jornalistas desempenham em outras mídias, como jornal e televisão. A página de Mauro Ventura, repórter especial de "O Globo", procura contar os bastidores das suas reportagens, ou seja, aquilo que a versão impressa não disse. Marcelo Tas usa seu blog para discutir com o internauta idéias para sua coluna em "O Estado de S. Paulo" e para seu programa no Canal 21, "Saca-Rolha". Além disso, a blogosfera ajuda seus adeptos a conseguir novos horizontes profissionais. "Já consegui free-lancers graças aos textos que publico no meu blog, que se tornou uma espécie de portfólio informal do meu trabalho como jornalista", conta Alexandre Inagaki, colaborador da revista "Flashback", da Abril, e dono do site "Pensar Enlouquece" (com 2000 pageviews diários).
Os analistas da Internet dizem que os blogs vieram para pôr em prática o chamado "jornalismo autônomo", ou seja, um jornalismo sem intermediações que permite ao cidadão comum ser editor de si próprio. "Os blogs deram para cada brasileiro o sonho de ter sua própria mídia. Pelos anos de repressão, o brasileiro tem uma grande sede de expressão", conclui Rosana Hermann.

Serviço

Marcelo Tas - www.blogdotas.com.br

Cláudio Humberto - www.claudiohumberto.com.br

Ricardo Noblat - www.noblat.blig.com.br

Tereza Cruvinel - www.oglobo.globo.com/online/blogs/tereza/

Cora Ronái - www.cronai.com

Rosana Hermann - www.queridoleitor.zip.net

Mauro Ventura - www.dizventura.blogger.com.br

Alexandre Inagaki - www.pensarenlouquece.com