O jornalismo investigativo tornou-se cadeia de transmissão de vazamentos de inquéritos

Atualizado em 07/01/2013 às 11:01, por Gabriel Priolli.

Aqueles dois ou três veículos mais desatentos da mídia pátria, que ainda não conseguiram a sua manchete exclusiva de um bom escândalo no governo federal, não devem pôr a culpa no pobre diretor de redação. Devem, ao contrário, dar ouvido às reiteradas súplicas que ele certamente faz por mais mão de obra para tanger os teclados e enfrentar a faina de noticiar.
Não é preciso dar a ele a equipe completa com que sonha, igual àquelas que conheceu quando era foca, ao tempo em que apurar a notícia ainda era a mais nobre missão do jornalismo. Não, nada de exageros, de perdularismo. Basta lhe dar uns gatos pingados, não muito experientes ou caros, e nem particularmente dotados de intuição, sagacidade e inteligência, os atributos de um repórter bem-equipado, além do bom texto. Indispensável é assegurar que ele ponha os novos subordinados a cobrir pontos estratégicos da administração pública.
Que pontos? Ao menos dois: Polícia Federal e Ministério Público. É deles que provém, atualmente, uns 90% do noticiário sobre “malfeitos”. Não que policiais, procuradores ou demais servidores da Justiça estejam se tornando particularmente displicentes e deixem documentos sobre as mesas, comentem coisas sigilosas no cafezinho ou façam diligências espalhafatosas por aí, ao alcance da curiosidade de repórteres abelhudos. Nada disso.
Eles estão é revelando tudo mesmo, entregando ouro, joias e platina, vazando intencionalmente as informações. Ainda que a lei e os códigos de conduta de suas atividades imponham o tal segredo de Justiça. Eles não estão nem aí para esse detalhe. Simplesmente vazam, vazam e vazam, e a República que se afogue – ou se salve.
O jornalismo investigativo tornou-se isso: cadeia de transmissão de vazamentos de inquéritos. Vazamentos premeditados, valendo pontos nas disputas corporativas internas ou no braço de ferro entre órgãos públicos. E transmissão preguiçosa, posto que nada exige do repórter além de boas amizades nos lugares certos. O custo moral do escambo, de trocar informação por uma jogada, não o incomoda, porque não entra na sua conta. É pago pela empresa.
A naturalidade com que se grafa que o veículo “teve acesso” a inquéritos, relatórios, ofícios, e-mails e outras peças acusatórias de irregularidades só tem paralelo na indiferença com que todos assistem a essa festa da denúncia. Acusadas, as autoridades cuidam da sua defesa, a mídia trata de manter o alarido e ninguém se lembra de que um ilícito não justifica outro. De que vazamento intencional é crime funcional e deve ser punido, tanto quanto a roubalheira que eventualmente denuncie.
Qual o que... Só os chatos apontam isso, no país em que a ansiedade por punir corruptos clama por justiça sumária, cega para tudo que possa atrasá-la.
foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV.
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