O jornalismo intruso
O jornalismo intruso
Quem diz que o jornalismo é a vocação e razão de ser dos veículos de comunicação ? O jornalismo é um intruso. Não foi cogitado como objetivo de nenhum dos veículos que a humanidade conheceu até hoje. Inventor algum imaginou que através de uma prensa, uma caixa sonora, uma caixa com imagem, ou uma tela com teclado, poderia se divulgar noticias. E se o jornalismo acabou sendo o produto principal do jornal e da revista e subproduto dos demais meios de comunicação é porque na história do mundo alguém se lembrou de ocupar um espaço que não era o seu, invadindo a seara dos outros, não por inveja, mas por preguiça. Esses precursores do periódico desenvolveram a escrita fascicular (um tema hoje, outro amanhã), escreviam menos e nesse culto ao ócio inventaram o conceito de jornal.
Quando Johannes Gutemberg fundiu os tipos móveis imaginou apenas imprimir livros, propósito também dos vários mestres que dominaram a técnica e multiplicaram as oficinas tipográficas por toda Europa. Mais de um século, eu disse um século, transcorrido da invenção de Gutemberg ninguém cogitara essa coisa de contar para os outros os acontecimentos da vila ou a intimidade dos palácios ou das casas feudais. Muito menos com regularidade. Então surgem os chamados precursores (Einkommende Zeitungen e outros do gênero) que nada informavam, eram apenas veículos de propaganda. Tinham a mesma finalidade que o edital público ou o cartaz de sacristia colado nos palácios ou igrejas, num outro formato. O jornal era o veículo, mas jornalismo não era o seu produto.
Caixa de música
Com o rádio não foi diferente. Tudo que Giugliemo Marconi queria na vida era ganhar dinheiro com os telegramas sonoros e por isso o invento era denominado de TSF (telegrafia sem fio). Os seus concorrentes imaginaram o veículo como uma extensão do telefone, os militares cogitaram um instrumento para substituir o megafone e o grito no campo de batalha e acabou sendo a "caixa de música" de David Sarnoff. Após a primeira guerra deveria ter sido um veículo educativo, mas a lógica do mercado que impulsionou o seu crescimento torno-o um canal de entretenimento. O jornalismo intrometeu-se também nesta seara. Invadiu o espaço dos outros através da tecnologia de ondas curtas e então Hitler, Mussolini, Stalin e a BBC... transformaram a informação em release. Como nos primórdios do jornal a "noticia" era propaganda.
A televisão já nasceu carimbada pelo entretenimento. Os telejornais sempre estrearam no dia ou na semana seguinte à abertura oficial, em intervalos bem curtos; o sujeito sequer olhava para a câmara direito. Quem estava do lado de cá não via um jornalista na pantalha. O homem da telinha com a sua voz "impostada" e gestos "teatrais" estava mais para um "ator" interpretando um script. É claro que um dia o homem chegou na lua, mas até os pulinhos de Neil Armstrong no satélite tinham um "ar" de ficção, Enterteiment puro, jornalismo coisa nenhuma. E se eu disse que a TV era entretenimento extrapolei, era e é o cachorro de poltrona, ainda hoje o melhor amigo e companhia do homem, com a vantagem de que não late e não faz xixi na sala.
Caixa de ferramentas
A internet, por sua vez, nasceu para garantir bancos de dados independentes entre bases militares, ninguém cogitou noticias. O meio acadêmico apropriou-se do invento até os fornecedores de infra-estrutura de telecomunicações desenvolveram o conceito de "caixa de ferramentas". Logo transformava-se (com apoio dos provedores de conteúdo) numa "caixa de ferramentas e meios" e o jornalismo, novamente intruso, ocupava um espaço que não era o seu. Invadia a seara da pornografia, da jogatina, dos sites de relacionamento e dos Msns da vida, estes sim a verdadeira vocação da internet.
A culpa disso tudo é do Gutemberg que ao inventar os tipos móveis, criou a possibilidade da renovação. O mesmo tipo usado hoje, poderia ser usado amanhã. E a reciclagem na transcrição da escrita só poderia dar nisso aí: jornalismo.






