O Jornalismo e o oportunismo irresponsável na saúde
O Jornalismo e o oportunismo irresponsável na saúde
O Jornalismo e o oportunismo irresponsável na saúde
Até que enfim a ANVISA suspendeu (corretamente) a propaganda de antigripais e analgésicos em todos os meios de comunicação. Esta medida colocou fim ao abuso irresponsável cometido por laboratórios que, aproveitando-se do pânico instalado no país pelo aumento do número de mortes por gripe suína, aumentaram a divulgação dos seus produtos com o objetivo explícito de multiplicar os seus lucros.
A situação estava mesmo insustentável e exigia a intervenção oficial porque a divulgação de remédios para atenuar os sistemas da gripe estava induzindo os cidadãos à automedicação, absolutamente nefasta neste momento porque estes remédios, além de não combaterem o vírus, podem mascarar os sintomas da gripe suína e retardar o atendimento aos pacientes efetivamente contaminados.
O abuso da Big Pharma não é inédito, muito pelo contrário: esta mesma estratégia oportunista foi utilizada em outros momentos, como o da epidemia da dengue anos atrás, quando a população atemorizada se tornou vulnerável a este apelo "medicamentoso" e consumiu sem dó nem piedade.
Muitas farmacêuticas insistem na propaganda irresponsável. A mesma ANVISA , em notícia publicada pela imprensa na semana passada, reiterava seu alerta sobre a burla repetida à legislação da propaganda de medicamentos no Brasil, constatada pelo seu programa eficaz de monitoramento da publicidade de remédios. Isto quer dizer que não é possível esperar mesmo comportamento correto de determinadas empresas.
A postura não ética, que é recorrente por parte de determinados laboratórios, deveria, na verdade, ser coibida definitivamente pelas autoridades porque é sabida a influência da propaganda junto à população, notadamente junto àqueles segmentos que, pela precariedade do sistema brasileiro de saúde e restrições financeiras, não podem, rotineiramente, consultar os profissionais de saúde. Se estes medicamentos têm efeitos colaterais importantes, não é razoável continuar permitindo que estas mensagens ocupem os meios de massa para gerar um consumo não responsável.
Da mesma forma, as autoridades deveriam coibir a propaganda abusiva que ocorre nos pontos de venda, com balconistas de farmácias vestindo, acintosamente, jalecos de laboratórios e indicando (mais ainda, fornecendo) medicamentos para pessoas incautas. Há casos de balconistas ou de agentes dos laboratórios distribuindo folhetos nas farmácias, o que configura uma prática imoral, passível de punição exemplar.
A ANVISA deveria também analisar o caso da Bayer que teve seu concurso "cultural" (piada de mau gosto") Aspirina suspenso mas que, há poucos dias, em e-mail encaminhado aos que haviam se inscrito no concurso, anunciava os vencedores. Desde o início tenho denunciado este fato porque não há dúvida de que se trata de uma propaganda insidiosa para estimular o consumo do medicamento. Eu me inscrevi de propósito no concurso porque sabia que o objetivo era criar um mailing (quanta gente não se inscreveu pensando na recompensa financeira que o concurso poderia trazer, particularmente jovens!) para divulgação futura. Este e-mail de divulgação (irresponsável porque anunciava os vencedores de um concurso suspenso e com o objetivo de único promover a Aspirina) acabou chegando aos inscritos, exatamente no auge da epidemia da gripe suína, o que evidencia o real interesse do laboratório com o hipócrita concurso.
Quem se dispuser a ler o livro da pesquisadora da Universidade de Harvard Márcia Angel, considerada uma das 50 pessoas mais influentes dos EUA, publicado no Brasil sob o título A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, verá que essa postura é comum na chamada Big Pharma que, ao contrário do que afirma, investe muito mais em publicidade/propaganda do que em pesquisa e desenvolvimento. É bom notar que a autora foi editora da New England Journal of Medicina, uma das publicações mais prestigiadas da área da saúde em todo o mundo e que, portanto, tem pleno conhecimento das ações e estratégias das corporações multinacionais da saúde.
O momento exige atenção redobrada e é fundamental que as autoridades, os profissionais de saúde , a mídia e a população estejam atentas à ação daqueles que, por ganância, totalmente descomprometidos com a cidadania, aproveitam-se para, sofregamente, avançar sobre o bolso e a saúde das pessoas, absolutamente fragilizadas, literalmente em pânico pela gravidade do problema e pela falta de informação adequada.
As notícias desencontradas envolvendo o Tamiflu comprovam o caos informativo em que nos encontramos. Só agora pesquisadores e autoridades começam a ter espaço ou coragem para a divulgação dos riscos da prescrição deste medicamento para crianças e outros grupos (grávidas, idosos etc). Enquanto isso, como noticiam amplamente os jornais, a gripe suína tem dado lucros excepcionais para a Roche, fabricante do Tamiflu (as vendas triplicaram na primeira metade de 2009, com um valor 12 vezes maior no segundo trimestre deste ano em relação ao ano anterior).
Cuidados ainda maiores devem ser tomados com respeito às inúmeras vacinas que estão sendo anunciadas e que, pelo andar da carruagem, serão colocadas no mercado sem o controle devido. Elas deverão estar disponíveis já no final do ano ou no início de 2010, numa tentativa desesperada não apenas de combater o avanço da gripe mas sobretudo de aumento de lucro de um número maior de farmacêuticas.
Em princípio, nada contra o esforço para se produzir uma vacina contra a gripe suína - ela é absolutamente necessária, mas é fundamental que não se repita o fenômeno da corrida a que ainda assistimos (sabe-se lá, estimulada por que objetivos) em busca de um remédio, prescrito inclusive para casos em que, além de não ser eficaz, pode ser perigoso.
O jornalismo em saúde, particularmente no Brasil, anda refém do assédio da indústria da saúde, muitas vezes de seus porta-vozes disfarçados de pesquisadores plantados como fontes independentes e reproduz, sem espírito crítico, releases e pesquisas parciais que têm como objetivo favorecer a comercialização de medicamentos, muitos deles indicados como "milagrosos".
É importante que os jornalistas estabeleçam seus filtros em relação ao noticiário oriundo da Big Pharma, de suas agências e assessorias, qualificando a informação a ser encaminhada à população. Há, na maioria dos casos, propaganda travestida de informação confiável e repetida sonegação de dados importantes como os de efeitos colaterais associados à ingestão de medicamentos.
A imprensa não pode continuar adotando uma postura equivocada, omissa, de absoluta cumplicidade com esta divulgação irresponsável, ardilosa, e deve, sobretudo, estar comprometida com o interesse público.
A formação do jornalista (e aí fica mais evidente a importância de um ensino superior de excelência para o profissional de imprensa) deveria incluir esta perspectiva crítica em relação aos lobbies formidáveis que assediam os veículos, transitam pelos corredores do Congresso e freqüentam, inclusive, consultórios médicos, conforme testemunham repetidamente as entidades da área médica, preocupadas com esta parceria nem sempre responsável.
Os jornalistas e os veículos deveriam estar atentos aos congressos tidos como científicos e que na verdade mascaram a divulgação de laboratórios que os patrocinam, bem como algumas parcerias estabelecidas entre a Big Pharma e institutos de pesquisa, quase sempre amplamente favoráveis à indústria da saúde.
Há certamente empresas responsáveis nesta área e é preciso separar o joio do trigo. Estas certamente não se sentirão atingidas por estas observações, mas outras vestirão a carapuça porque têm mesmo o rabo preso.
Neste momento crítico, estamos assistindo, como diz o ditado, a uma briga de cachorros grandes, com bocas enormes e um apetite voraz. É preciso desconfiar sempre.
A cobertura da saúde tem assumido uma perspectiva muitas vezes doentia. Os veículos e os jornalistas deveriam dosar as informações que recebem dos representantes da Big Pharma, confrontá-las sempre, enxergar além da notícia. De novo, repetimos: Não existe almoço grátis e não devemos hesitar em fazer como os americanos: "follow the money" (siga o dinheiro). Ele comanda boa parte da divulgação na área da saúde.






