O jornalismo do futuro

O jornalismo do futuro

Atualizado em 10/09/2009 às 15:09, por Igor Ribeiro.

Não sei se alguém pode ser levado a sério quando faz exercícios gratuitos de futurologia. Eu mesmo costumo torcer o nariz para quem vem me dizer o que vai acontecer daqui dez anos, dez meses, dez semanas ou dez segundos. Até entendo quem tem de fazê-lo por necessidades práticas, urgências de uma agenda duvidosa, daquelas que fazem o futuro depender estreitamente do presente. Fora isso, prefiro andar pela imponderabilidade da vida e, diante da dúvida do próximo passo, firmar bem a pisada no agora.

Entretanto, algumas vezes me pego pensando no que gostaria que acontecesse, imaginando possibilidades tal qual se imagina os personagens de um bom romance. Certamente isso exclui tudo que eu não gostaria que acontecesse. Apesar de tratar do dia-a-dia com realismo e certo ceticismo, prefiro meditar no acaso positivamente, resguardando para esses momentos certo grau de otimismo e intimidade. Sim, pois são muito pessoais e, entre tantas transparências que me revelam por ética, desapego ou narcisismo, esses pedaços de sonho merecem um espaço quieto e acolhedor em cantos recônditos da alma.

São raros esses exercícios inventivos, mas recentemente me vi pensando em um que até poderia ser dividido. Uma idealização sobre . É um terreno movediço, cheio de possibilidades e, por isso, altamente falível. Mas diante da mudança tão acelerada de velhos paradigmas, é também um exercício bastante saboroso.

Não quero ir muito longe nessa viagem, mas é inevitável começar na escola básica, quando formará jovens mais conscientes do futuro profissional que almejam. Fornecendo boa compreensão da realidade e das necessidades sociais, ajudará a cortar pelo pé as multidões de adolescentes que procuram cursos de comunicação social "para aparecer na TV" ou porque "gosta de esportes". Entrarão nas faculdades aqueles que têm plena consciência de que jornalismo é, acima de tudo, uma busca irrefreável pela verdade.

As faculdades, por sua vez, formarão jornalistas mais humanos, com melhor base teórica, e não mais perderão tempo ensinando minúcias técnicas que se aprendem em poucas semanas de trabalho. Fornecerão conteúdos de estudo direcionados às aptidões e anseios de cada grupo. Darão todo o apoio acadêmico e curricular para formar repórteres, editores, assessores, apresentadores, críticos, produtores, escritores, pesquisadores e até empresários. Serão raríssimas exceções os universitários perdidos e angustiados pelas baforadas quentes do desperdício.

Redações serão mais saudáveis, alegres e ninguém trabalhará além da conta. Reportagens altamente técnicas serão divididas fraternalmente entre jornalistas e especialistas de áreas específicas - prática que se tornará cada vez mais comum. Essa união pacífica entre profissionais formados dentro dos princípios fundamentais da boa comunicação e técnicos especializados em outras ciências e conhecimentos qualificará ainda mais o conteúdo gerado pelas empresas jornalísticas. Tal excelência informativa voltará a ser apreciada e valorizada como antigamente, em tempos anteriores às bravatas intolerantes de academias e instituições, quando a ascensão triunfante das mídias sociais "ameaçava" o tradicional modelo de negócio jornalístico.

Falando em mídias sociais, a circulação crescente e incontrolável do conteúdo gerado no universo digital não terá parado, mas a melhora do nível de alfabetização digital em países desenvolvidos e emergentes terá ajudado a organizar esse fluxo. Só será relevante o conhecimento gerado por excelência individual ou por intermediação jornalística confiável. A convergência completa das mídias também criará uma única plataforma depositária da verba publicitária, ainda que tal estrutura se divida em diversos tipos de suporte. Além disso, instituições jornalísticas de grande impacto político, econômico, cultural ou social poderão pleitear isenções fiscais do Estado e redistribuir tais recursos no desenvolvimento de seus serviços. Junte-se a isso o brusco corte que sofrerão os insustentáveis salários milionários de comunicadores "estrelados" e empresários gananciosos. O bolo a ser dividido entre todos os profissionais será mais generoso, realista e democrático.

Por fim, Estado e setor privado entenderão de verdade por que a demanda por transparência é tão legítima e por que devem trabalhar esse conceito juntos da imprensa. Saberão que, para além da abertura de capital e de atrativos digitais da confiança popular, tamanha receptividade agrega valores muito mais importantes que eleitores e consumidores. Entenderão que isso ajuda a forjar uma sociedade mais justa, mais equilibrada.

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É essa a utopia em que me peguei imaginando outro dia. Resolvi escrever para dividir, para guardar e, quem sabe, recuperá-lo daqui alguns anos para ver se alguma vogal disso aconteceu. Se nada se confirmar, ainda assim terá valido a pena praticar. Pode até parecer ficção científica, mas deixar que tais desenhos mentais se cruzem e se dispersem como nuvens ajudam a arejar as ideias. Quem quiser experimentar, mas tem vergonha de dividir, tente o . Lá você manda um e-mail para você mesmo, no futuro, escrevendo o que você quiser - ou sendo quem você quiser.