"O jornalismo da TV Globo deu o recado a Ricardo Teixeira: 'quer brigar?'", diz Kfouri

As polêmicas entre Juca Kfouri e Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ultrapassam décadas e estão longede terminar.

Atualizado em 26/08/2011 às 10:08, por Luiz Gustavo Pacete.

Para Kfouri, a matéria exibida no "Jornal Nacional" com acusações à CBF foi um recado do jornalismo da TV Globo. "É como se a emissora dissesse: 'olha aqui meu senhor, ninguém nos monta, ninguém nos doma. Quer brigar?'", diz Kfouri.

Com o reaquecimento das denúncias envolvendo Teixeira, as declarações polêmicas do cartola à revista Piaui e a campanha #foraricardoteixeira na internet, Kfouri destaca que a situação de Teixeira só vai piorar em função do somatório de todos esses elementos; entretanto, ele não tem esperanças de ver grandes mudanças na estrutura do futebol brasileiro em curto prazo.

O jornalista que teve atuação importante na imprensa alternativa, e foi diretor do Sindicato dos Jornalistas, aponta que não se deve tratar a cobertura do esporte somente do ponto de vista do entretenimento. "As pessoas estão se dando conta de que uma coisa é o futebol como entretenimento e outra é o esporte como informação".

Com bom humor, Kfouri ressalta o que ele chama de "grande novidade em sua carreira": a nova coluna na revista dando dicas de um avô coruja.
Ao Portal IMPRENSA, ele também falou sobre as polêmicas e suas motivações em denunciar constantemente Teixeira, os rumos do jornalismo no Brasil, as relações de poder na imprensa e o atual momento de sua carreira. "Às vezes tenho certa pena de não poder pôr três ou quatro perdigueiros atrás de uma história que eu queria ver mais bem contada", lamenta. Abaixo você acompanha a entrevista dividida em três partes: Ricardo Teixeira, carreira e jornalismo.
Ricardo Teixeira
Portal IMPRENSA - Chegamos a um momento emblemático após o "Jornal Nacional" ter publicado matéria sobre denúncias envolvendo a CBF? Juca Kfouri - O Ricardo Teixeira avaliou mal alguns de seus passos. Seu grande erro foi querer tanto poder fazendo parte do Comitê Organizador da Copa do Mundo (COL). A CBF já é uma entidade privada de claro interesse público, o COL direta ou indiretamente está lidando com dinheiro público, mas neste caso você vê claramente instrumentos de quem abre a torneira do dinheiro público. Ele deu um passo que eu não teria dado: o passo da avidez, do poder, da ganância, ele quis ser tudo ao mesmo tempo. Basta ver que na linha de frente das decisões ele coloca a filha, o advogado, o porta-voz da CBF, toda corriola na cúpula, somente sua turma.
IMPRENSA - Você quer dizer que ele está dando um tiro no pé? Kfouri - Tudo isso se agravou pelas coisas que ele disse à revista Piaui. E eu tiro o chapéu para a Daniela Pinheiro [repórter da revista Piaui que fez um perfil de Teixeira em que o cartola faz declarações polêmicas], porque de todas as denúncias que fizemos nestes anos todos, por mais que duas delas tenham resultado em CPI, nenhuma foi tão devastadoras para a imagem dele quanto as aspas que disse para a jornalista. Evidentemente, por se achar o "rei da cocada preta" e estar diante de uma repórter competente e muito bonita, ele se "bacaneou" e fez uma rigorosa cafajestagem com o parceiro [Rede Globo].

"Eu tiro o chapéu para a Daniela Pinheiro da revista Piaui. De todas as denúncias que fizemos nestes anos todos, por mais que duas delas tenham resultado em CPI, nenhuma foi tão devastadoras para a imagem do Teixeira quanto as aspas que disse para a jornalista"

IMPRENSA - Só que ele fez isso consciente da repercussão... Kfouri - Não, acho que não. A questão não é a reação da família Marinho que certamente reagiu mal às declarações, mas o problema é o jornalista da Rede Globo de Televisão. O profissional que está lá disse "a gente já o tratava como algodão entre os cristais para esse cara virar aqui e falar o que bem entende?". Isso causou uma indignação interna. Vamos ter claro que a Rede Globo tem os melhores jornalistas do país, é fato que eles atendem a princípios editoriais, mas mesmo assim, imagine a indignação que as declarações não causaram a esses jornalistas? Mas o jornalismo da TV Globo deu o recado: "olha aqui meu senhor, ninguém nos monta, ninguém nos doma, quer brigar?".

IMPRENSA - Isso vai tomar maiores proporções nos próximos meses? Kfouri - Acho que vai. Principalmente porque a presidenta Dilma não faz questão nenhuma do Teixeira. Diferente do Lula que é conciliador, ela não engole ele nem pintado de ouro. Eu te diria que quando as Organizações Globo divulgaram a carta de princípios editoriais, muitas pessoas disseram que tinha relação com a matéria do Teixeira. Eventualmente que a carta também tem relação com o governo Dilma que é uma postura menos ácida do que foi durante os oito anos do governo Lula.
IMPRENSA - Qual o tempo para o Teixeira cair? Kfouri - Eu posso estar sendo otimista, mas acho que o Teixeira não chega à Copa como presidente do COL. Ele chega como presidente da CBF, mas vai achar um jeito de voltar a ser o que ele sempre foi, um perfil baixo, o cara da articulação, de agir na sombra. O problema foi que ele achou que nada mais o atingiria e percebeu que não é bem assim. Eu até entendo, ele escapou de duas CPI´s e várias denúncias, mas ele viu que não está imune.
IMPRENSA - Os processos de Teixeira contra você aumentaram recentemente? Kfouri - Faz três meses que ele teve um furor e saiu enviando protesto para mim. Chegaram três de uma vez para eu responder. A sorte que eu não respondo sozinho senão estaria quebrado.
IMPRENSA - Como repercutem suas criticas ao Teixeira sendo comentarista de um veículo das Organizações Globo?

Kfouri - Eu soube que um dia alguém reclamou nas reuniões da direção da Globo. Não faz muito tempo disseram: "temos um quinta coluna que fala mal do horário do jogo, que defende os pontos corridos no campeonato brasileiro". Neste instante, o João Roberto Marinho [presidente do conselho editorial das Organizações Globo] interveio e disse: "quando contratamos o Juca sabíamos muito bem quem ele era". Pronto. E se não for assim para mim não interessa, ou eu vou trabalhar desse jeito, ou eu não vou trabalhar.


Carreira
IMPRENSA - Qual o momento da sua carreira? Kfouri - Tirando o programa do rádio que era uma coisa que há dez anos me tomava todas as noites [em dezembro, Juca deixou de apresentar o programa diário "CBN Esporte Clube" na rádio CBN], tudo continua normal. E na verdade o fato de eu parar de fazer rádio está me permitindo atender uma porção de solicitações que antes eu não conseguia atender. Agora o fato de não precisar toda noite estar no mesmo lugar é um alivio, desde que acorda até a hora que acaba o programa você fica com ele na cabeça. É um programa de uma hora todo o dia em uma rede como CBN, aluga bastante.
IMPRENSA - Dos meios em que você está presente [TV, jornal, blog e rádio] qual é o que te demanda mais tempo? Kfouri - Eu digo sempre que sou um filho de Gutemberg. Para mim, a reverência é para a coisa escrita, porque as palavras o vento leva. A minha atividade principal é minha coluna três vezes por semana na Folha de S.Paulo , embora não seja o que mais me ocupe. O que mais me ocupa hoje, de forma disparada é o blog.

"Eu acho que certas coisas você conquista. Como conquista? Não permitindo que firam seus princípios, de maneira tal que se você se impuser as pessoas nem chegam para te propor coisas que vão ferir seus princípios"
IMPRENSA - Você se espantou com a repercussão do seu blog? Kfouri - Essa história do blog é uma das maiores surpresas dos meus 40 anos de carreira. Quando me chamaram para fazer o blog, há uns seis anos, eu perguntei: "o que é o blog?", e disseram que eu tinha que fazer uma nota por dia de segunda à sexta. Até ai sem problemas, parecia que eu ia fazer o mesmo que no jornal. E me lembro que fui dormir de domingo para a segunda, antes da estreia, e pensei: "se amanhã tiver no final do dia 10 mil acessos está bom", mas ao meio dia já tinham 60 mil acessos. Eu falei: "porra, e aí vai ficar essa nota o dia inteiro? Tem que fazer mais alguma coisa. E se as pessoas gostarem e voltarem?". Daí comecei escrever várias notas por dia; virei escravo desse troço.

Jornalismo

IMPRENSA - Você tem uma frase que diz 'meu patrão é meu leitor'. Poucos jornalistas podem dizer isso atualmente, não?

Para mim essa é uma das questões mais delicadas que vira e mexe aparece. A garotada diz para mim: "você é assim porque é o Juca Kfouri". Eu digo: eu sou Juca Kfouri hoje com 41 anos de profissão. Quando eu comecei a trabalhar eu era o José Carlos que brigava dentro da Editora Abril para que colocassem Juca no expediente. Quando eu fui para a revista Placar chefiar reportagem eu pedi para colocarem Juca e não colocaram. Eu só fui colocar Juca quando virei diretor de redação. Eu acho que certas coisas você conquista. Como conquista? Não permitindo que firam seus princípios, de maneira tal que se você se impuser as pessoas nem chegam para te propor coisas que vão ferir seus princípios.

IMPRENSA - Você foi diretor do Sindicato dos Jornalistas na época de efervescência política. Como avalia o papel do sindicato hoje? Kfouri - Mudou completamente. O sindicato que eu trabalhei e me tornei diretor, embora tenhamos feito greves por melhoria de salários, era eminentemente político. Era uma trincheira em favor da liberdade de expressão por conta da ditadura militar e a redemocratização do Brasil. Naquela época nós tínhamos medo e isso tinha muito valor. Acho que hoje o sindicato poderia deixar de tratar tanto de questões trabalhistas e discutir outros temas importantes, como o papel do jornalismo nas redes sociais, essa confusão toda que se gerou em função da regulação da mídia.

"Acho que hoje o sindicato poderia deixar de tratar tanto de questões trabalhistas e discutir outros temas importantes, como o papel do jornalismo nas redes sociais, essa confusão toda que se gerou em função da regulação da mídia" IMPRENSA - Porque o tema da regulação da mídia é visto com tanto medo? Kfouri - É o medo da censura. Eu acho que ficamos tão traumatizados com a censura que qualquer coisa hoje que lembre censura assusta. Agora, eu concordo com um projeto de regulação desde que não seja vindo do governo, o governo não tem que regular a mídia, é a mídia que tem que regular o governo. Agora, a sociedade precisa de ter algo que possa lhe dar uma resposta em relação à mídia, mas repito não que venha do governo.
IMPRENSA - Existem esforços para desmoralizar o jornalismo hoje? Kfouri - Sem dúvida nenhuma. Dou somente um exemplo: o número de desembargadores que viaja a custa da CBF em Copa do Mundo. Essa questão já foi levada ao conselho de ética, mas, para os desembargadores do Rio, não existe problema algum, embora eles que sejam os responsáveis por julgar as ações de Ricardo Teixeira. Vejo um problema sério por parte dos magistrados, eu que sou habitue de fóruns em função dos processos que recebo. Percebo que tem muita gente que bate contra a imprensa porque não quer ser pega com a boca na botija.

Procurada pelo Portal IMPRENSA para comentar as declarações, a CBF afirmou que o jornalista "faz isso [critica a entidade] há 20 anos e a resposta para ele é por meio de processos".
Leia mais