"O jornalismo científico deve democratizar conhecimento através da alfabetização científica", diz Francisco Bicudo
"O jornalismo científico deve democratizar conhecimento através da alfabetização científica", diz Francisco Bicudo
Formado em 1994 pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e mestre em Ciências da Comunicação pela mesma instituição, o jornalista Francisco Bicudo, 36, atua na área há quase 18 anos. "Metade de uma vida", ressalta.
Também professor de jornalismo, ele acredita que a ciência "faz avançar sociedades" e deve se tornar acessível à população através do que ele chama de "alfabetização científica", em que os cidadãos devem ter acesso às informações para conhecer os conceitos científicos e compreender as transformações que as descobertas da ciência trazem na prática.
Bicudo teve contato mais próximo com essa área depois de passar pela assessoria do Instituto da Criança (1998-1999), ala pediátrica do Hospital das Clínicas. Atualmente, colabora com a revista Pesquisa Fapesp e com o site Sindicato dos Professores e falou ao Portal IMPRENSA sobre a importância desse tipo de jornalismo para a sociedade.
Portal IMPRENSA: Como começou a sua trajetória no Jornalismo Científico?
Francisco Bicudo: Sempre fui um apaixonado pelas descobertas que a Ciência nos proporciona e pelas histórias que é capaz de nos contar, auxiliando na compreensão dos fenômenos da natureza e ajudando a fazer avançar as sociedades, com benefícios coletivos diversos, pelo menos potencialmente. Portanto, acho que foi uma trajetória natural. Minha primeira passagem pelo Sindicato dos Professores (1992-1998) foi fundamental, travei contato com uma efetiva e sincera preocupação com a educação como instrumento de autonomia e libertação.
Em 2002, iniciei minhas colaborações com a revista Pesquisa Fapesp , sempre como repórter, e me lembro com muito carinho da primeira matéria que publiquei - um estudo feito por pesquisadores da USP que analisava o diâmetro do Sol. Foi difícil, deu um trabalhão, escrevi o texto três vezes, até conseguir chegar a um resultado bacana, mas valeu a pena e foi extremamente gratificante.
IMPRENSA: Quais os principais fundamentos do Jornalismo Científico?
Bicudo: O jornalismo científico deve ser capaz de traduzir, contextualizar e interpretar para a sociedade a beleza e a importância do mundo da ciência e da tecnologia. Sua função, portanto, é democratizar conhecimento, nessa área específica, trabalhando com a idéia da alfabetização científica e fazendo da ciência um tema presente nos nossos debates cotidianos. Para participar dessas discussões, a sociedade precisa estar bem informada. Isso envolve conhecer os conceitos científicos, o processo de produção e desenvolvimento da ciência e os impactos sociais das descobertas e novidades, sem perder pé da dimensão ética.
IMPRENSA: Como você avalia a cobertura dos cadernos de Ciência nos jornais, revistas e canais de TV brasileiros?
Bicudo: Considero o momento bastante interessante, pois, embora ainda não seja o cenário ideal e muito ainda tenhamos que caminhar e avançar, avalio que há uma percepção cada vez mais clara e contundente, por parte dos veículos jornalísticos, da importância do tema para a agenda pública da sociedade. Dessa forma, além de ganhar espaço em jornais e revistas, o jornalismo científico tem se consolidado na televisão, em rádio e na internet, chegando inclusive a marcar presença em blogs.
IMPRENSA: Na recente polêmica em torno das pesquisas com células-tronco, por exemplo, você acha que a mídia conseguiu elucidar a população a respeito do que estava acontecendo?
Bicudo: Acho que houve avanços e de certa forma a discussão acabou chegando ao grande público. Os argumentos dos cientistas e dos grupos religiosos também foram identificados e apresentados. Acho, no entanto, que esse debate, extremamente importante, demorou muito tempo para chegar ao noticiário. Confesso também que fico um pouco incomodado com um certo maniqueísmo que parece ser a marca do jornalismo em muitas coberturas - a idéia dos "pró e dos contra". Não sei se o mundo, tão complexo, pode ser dividido dessa forma tão simplista.
IMPRENSA: Existe, no Brasil, alguém que você possa apontar como referência no Jornalismo Científico?
Bicudo: O jornalista Marcelo Leite, colunista da Folha e atualmente com um blog, é uma excelente referência de jornalismo científico feito com qualidade, seriedade e responsabilidade ética.
IMPRENSA: É possível fazer um paralelo entre o jornalismo científico e o econômico, haja vista a dificuldade que existe em levar a informação de forma clara ao leitor?
Bicudo: Se pensarmos na exigência das explicações e na linguagem, na importância e no impacto que as duas áreas têm em nosso cotidiano, podemos pensar em analogias; no entanto, vale lembrar que são áreas e especialidades bastante diferentes, com peculiaridades e singularidades que precisam ser consideradas e respeitadas. Além disso, o econômico certamente ocupa um espaço muito maior que o científico.
IMPRENSA: Em relação ao mercado de trabalho, há muita procura por profissionais especializados?
Bicudo: Com a consolidação dessa área de atuação e a abertura de vagas nos diversos veículos, a tendência é que essa busca se amplie, já que é preciso investir em profissionais bem formados e que conheçam o segmento.
IMPRENSA: Como professor, você nota que os alunos estão mais interessados pelo tema? Quais são as principais características necessárias ao profissional que deseja se especializar nesta área?
Bicudo: Quando a ciência é revelada como algo que faz parte do nosso cotidiano, como possibilidade de avanços sociais, como uma forma de conhecimento diretamente ligada à idéia do bem-estar coletivo, conseguimos atrair a atenção dos alunos. O importante é incentivar o espírito crítico, a curiosidade, o gosto pelo conhecimento e pela descoberta, a disposição para ouvir detalhes de estudos e pesquisas, a preocupação em estabelecer relações e conexões, a paciência para apurar e pesquisar com cautela, serenidade e profundidade e a vontade para procurar a melhor forma de contar as histórias, lembrando sempre que não se pode deixar de lado os princípios éticos que norteiam a profissão e que a razão final de ser de todo esse nosso trabalho é o público/cidadão.
Crédito da foto: Francisco Bicudo da Universidade Anhembi Morumbi






