“O jornalismo brasileiro precisa de um choque”, diz Geneton Moraes Neto
Atualizado em 04/04/2013 às 13:04, por
Luiz Gustavo Pacete.
Geneton Moraes Neto é do tipo de jornalista que não gosta de reunião de pautas, não porque elas não sejam importantes, mas segundo ele, são nessas reuniões que repórteres desprezam assuntos que poderiam render grandes reportagens.
Funções de chefia também não lhe agradam muito. Em 40 anos de carreira, já foi editor do “Jornal da Globo” e chefiou o escritório da Globo em Londres. Mas confessa que não tem a menor vocação para tais funções. “Prefiro jogar dinheiro fora a ocupar qualquer cargo desse tipo. É dez mil vezes melhor entrevistar um flagelado da seca do que ficar em uma sala de reunião decidindo pautas”.
Crédito:Leonardo Rozário
Geneton Moraes Neto
Em fevereiro, Geneton estreou na direção de documentários com “Garrafas ao Mar”, sobre a vida do colega e amigo, o jornalista Joel Silveira. Ele falou à IMPRENSA sobre a atual situação do jornalismo brasileiro e compartilhou histórias de grandes entrevistas.
A conversa abaixo é conteúdo extra da entrevista que Geneton à IMPRENSA, publicada na edição de abril, 288.
IMPRENSA – Qual deve ser a pretensão de um bom jornalista? Geneton Moraes Neto - Existem dois tipos de pretensão: uma é a pretensão ridícula do jornalista que se acha mais importante do que é. Isso se aplica a 95% dos jornalistas. Pensa que é mais importante que o entrevistado. Despreza assuntos e derruba uma matéria atrás do outra. Isso é lamentável e risível. A pretensão saudável é a de buscar fazer algo novo de um assunto que já é considerado velho.
Os jornalistas estão muito fechados em suas redações? É muito comum eu chegar numa padaria, num bar e ouvir as pessoas se impressionarem quando eu falo que entrevistei fulano ou vou fazer determinada reportagem com alguém. Sabe, é você chegar e dizer acabo de entrevistar um ex-agente do FBI de 50 anos, é capaz de um jornalista chegar e falar, ‘ah mais isso já faz muito tempo’. Essas manifestações também acontecem no Twitter ou no Facebook. A reação dos leigos é muito mais contundente do que de jornalistas.
Por que você optou por fazer carreira na rua e não em funções administrativas, mesmo ganhando mais? Uma vez, no “Fantástico”, ocupei cargo de chefia. Mas não tenho a menor vocação para ser chefe, não quero ser chefe de nada. Prefiro jogar dinheiro fora a ser chefe. Prefiro dez mil vezes entrevistar um flagelado da seca do que ganhar mais para ficar numa sala decidindo pautas.
Os jornais seguem rumo à morte de conteúdo? Agora que os jornais estão tentando adivinhar qual será o futuro e que a primeira informação quem dá é a internet, não é nem a TV mais. Eu acho que talvez seja a hora de voltar a esse jornalismo mais autoral. O culto ao texto, cultivar novamente o texto. Basta ver a capa de O Globo quando houve a tragédia de Santa Maria. Todo mundo já estava transtornado com a notícia e o que marcou na capa foi o poema de Fabricio Carpinejar que vai ficar gravado na memória.
Você tem um estilo de gravar suas entrevistas para depois usar como documento histórico. A companhia do gravador é indispensável? Uma vez eu entrevistei o escritor cubano Cabrera Infante, que estava em Londres, e eu gravei as perguntas. Ele me perguntou por qual motivo eu gravava. Eu respondi que era para ser o mais fidedigno possível ao que ele me dizia. Ele disse para eu fazer uma experiência de conversar com alguém e escrever somente o que ficou na memória. Se ficou na memória, isso sim era importante e relevante. E é verdade, eu gostava tanto de futebol que lembro até hoje da escalação do Sport Club Recife de 1968, agora, meu professor ficou um ano tentando me explicar o que era hipotenusa e eu não faço a menor ideia do que é isso. De qualquer forma, eu sempre gravo e guardo.
Como foi a experiência de entrevistar o inacessível Carlos Drummond de Andrade? O Drummond era meio inacessível, ficou anos sem dar entrevistas, disse que quem quisesse saber o que ele pensava era só ler sua obra. É verdade. Se você quer saber algo da vida de um cantor escute a música dele. Mas eu também acho genial essa coisa do Caetano, do Glauber Rocha e de outros artistas interferirem no Brasil com suas obras.
Por que algumas figuras da música vivem em pé de guerra com a imprensa? Uma vez, o Caetano Veloso me ligou, ele estava brigado com a imprensa, mas disse que ia dar entrevista somente se fosse para mim. Eu aceitei e perguntei para ele por qual motivo ele e outros artistas viviam brigados com a imprensa. Ele disse que “o jornalista ou o jornalismo existe para obedecer a certas hierarquias e o artista serve para quebrar essas hierarquias”.
Como foi sua convivência com o Paulo Francis? Eu, pessoalmente, tive uma relação muito boa com ele. Ele era um cara muito generoso. Quando eu publiquei o livro "Dossiê Drummond", num gesto de generosidade ele me ligou e disse compre o Estadão no domingo que você terá uma agradável surpresa. Aquilo era meu diploma de jornalismo, ele falando da minha entrevista com o Drummond. Ele disse que o que eu estava fazendo era preencher lacunas históricas. E, para ele, esse era o papel do jornalista. Isso é um exemplo de como você não pode abandonar e desprezar a pauta para mim.
Citando Paulo Francis, você acha que faltam textos como o dele? Uma coisa é uma prosa clara e instruída que vai ser sempre interessante. Agora, outra coisa é uma prosa esquálida e árida que não tem atrativo algum. É uma contradição imaginar que um texto rebuscado e complicado é um texto bom. É exatamente o contrário. Houve uma época em que quando você lia a Veja , ela parecia ser escrita pela mesma pessoa. Houve também uma época de bons textos. O próprio Caetano dizia que outras revistas e jornais eram escritos como se fosse por robôs. Claro que ela teve bons textos com o de Leo Gilson Ribeiro, o Mino Carta que escrevia estupidamente bem.
Funções de chefia também não lhe agradam muito. Em 40 anos de carreira, já foi editor do “Jornal da Globo” e chefiou o escritório da Globo em Londres. Mas confessa que não tem a menor vocação para tais funções. “Prefiro jogar dinheiro fora a ocupar qualquer cargo desse tipo. É dez mil vezes melhor entrevistar um flagelado da seca do que ficar em uma sala de reunião decidindo pautas”.
Crédito:Leonardo Rozário
Em fevereiro, Geneton estreou na direção de documentários com “Garrafas ao Mar”, sobre a vida do colega e amigo, o jornalista Joel Silveira. Ele falou à IMPRENSA sobre a atual situação do jornalismo brasileiro e compartilhou histórias de grandes entrevistas.
A conversa abaixo é conteúdo extra da entrevista que Geneton à IMPRENSA, publicada na edição de abril, 288.
IMPRENSA – Qual deve ser a pretensão de um bom jornalista? Geneton Moraes Neto - Existem dois tipos de pretensão: uma é a pretensão ridícula do jornalista que se acha mais importante do que é. Isso se aplica a 95% dos jornalistas. Pensa que é mais importante que o entrevistado. Despreza assuntos e derruba uma matéria atrás do outra. Isso é lamentável e risível. A pretensão saudável é a de buscar fazer algo novo de um assunto que já é considerado velho.
Os jornalistas estão muito fechados em suas redações? É muito comum eu chegar numa padaria, num bar e ouvir as pessoas se impressionarem quando eu falo que entrevistei fulano ou vou fazer determinada reportagem com alguém. Sabe, é você chegar e dizer acabo de entrevistar um ex-agente do FBI de 50 anos, é capaz de um jornalista chegar e falar, ‘ah mais isso já faz muito tempo’. Essas manifestações também acontecem no Twitter ou no Facebook. A reação dos leigos é muito mais contundente do que de jornalistas.
Por que você optou por fazer carreira na rua e não em funções administrativas, mesmo ganhando mais? Uma vez, no “Fantástico”, ocupei cargo de chefia. Mas não tenho a menor vocação para ser chefe, não quero ser chefe de nada. Prefiro jogar dinheiro fora a ser chefe. Prefiro dez mil vezes entrevistar um flagelado da seca do que ganhar mais para ficar numa sala decidindo pautas.
Os jornais seguem rumo à morte de conteúdo? Agora que os jornais estão tentando adivinhar qual será o futuro e que a primeira informação quem dá é a internet, não é nem a TV mais. Eu acho que talvez seja a hora de voltar a esse jornalismo mais autoral. O culto ao texto, cultivar novamente o texto. Basta ver a capa de O Globo quando houve a tragédia de Santa Maria. Todo mundo já estava transtornado com a notícia e o que marcou na capa foi o poema de Fabricio Carpinejar que vai ficar gravado na memória.
Você tem um estilo de gravar suas entrevistas para depois usar como documento histórico. A companhia do gravador é indispensável? Uma vez eu entrevistei o escritor cubano Cabrera Infante, que estava em Londres, e eu gravei as perguntas. Ele me perguntou por qual motivo eu gravava. Eu respondi que era para ser o mais fidedigno possível ao que ele me dizia. Ele disse para eu fazer uma experiência de conversar com alguém e escrever somente o que ficou na memória. Se ficou na memória, isso sim era importante e relevante. E é verdade, eu gostava tanto de futebol que lembro até hoje da escalação do Sport Club Recife de 1968, agora, meu professor ficou um ano tentando me explicar o que era hipotenusa e eu não faço a menor ideia do que é isso. De qualquer forma, eu sempre gravo e guardo.
Como foi a experiência de entrevistar o inacessível Carlos Drummond de Andrade? O Drummond era meio inacessível, ficou anos sem dar entrevistas, disse que quem quisesse saber o que ele pensava era só ler sua obra. É verdade. Se você quer saber algo da vida de um cantor escute a música dele. Mas eu também acho genial essa coisa do Caetano, do Glauber Rocha e de outros artistas interferirem no Brasil com suas obras.
Por que algumas figuras da música vivem em pé de guerra com a imprensa? Uma vez, o Caetano Veloso me ligou, ele estava brigado com a imprensa, mas disse que ia dar entrevista somente se fosse para mim. Eu aceitei e perguntei para ele por qual motivo ele e outros artistas viviam brigados com a imprensa. Ele disse que “o jornalista ou o jornalismo existe para obedecer a certas hierarquias e o artista serve para quebrar essas hierarquias”.
Como foi sua convivência com o Paulo Francis? Eu, pessoalmente, tive uma relação muito boa com ele. Ele era um cara muito generoso. Quando eu publiquei o livro "Dossiê Drummond", num gesto de generosidade ele me ligou e disse compre o Estadão no domingo que você terá uma agradável surpresa. Aquilo era meu diploma de jornalismo, ele falando da minha entrevista com o Drummond. Ele disse que o que eu estava fazendo era preencher lacunas históricas. E, para ele, esse era o papel do jornalista. Isso é um exemplo de como você não pode abandonar e desprezar a pauta para mim.
Citando Paulo Francis, você acha que faltam textos como o dele? Uma coisa é uma prosa clara e instruída que vai ser sempre interessante. Agora, outra coisa é uma prosa esquálida e árida que não tem atrativo algum. É uma contradição imaginar que um texto rebuscado e complicado é um texto bom. É exatamente o contrário. Houve uma época em que quando você lia a Veja , ela parecia ser escrita pela mesma pessoa. Houve também uma época de bons textos. O próprio Caetano dizia que outras revistas e jornais eram escritos como se fosse por robôs. Claro que ela teve bons textos com o de Leo Gilson Ribeiro, o Mino Carta que escrevia estupidamente bem.





