O grão amigo e o dragão inimigo

O grão amigo e o dragão inimigo

Atualizado em 11/07/2008 às 20:07, por Rodrigo Manzano.

"Larga, poeta, o verso comedido,
a paz do teu jardim vocabular,
e vai sofrer na fila do feijão."
Carlos Drummond de Andrade
"A excitante fila do feijão"

Quando pensamos que estávamos todos livres da velha imagem do dragão a representar a inflação - personagem típico nas capas dos jornais na década de 1980 e exterminado com os pacotes econômicos e plano Real em 1994 - eis que o monstro retorna as redações e às manchetes, em contextos absolutamente diferentes daqueles.

É bem verdade que a inflação é um problema. É também verdade que a sociedade precisa estar sensível aos movimentos econômicos, de modo a orientar suas ações cotidianas, como consumo e investimentos, da melhor maneira e o jornalismo tem papel fundamental nesse processo. Mas o que poucos têm percebido é que o "quanto pior, melhor" se manifesta com eficiência como um sintoma da cobertura econômica nesses dias. No noticiário, tem sido freqüente a alusão ao retorno da inflação como se ela fosse um problema nacional. Se a dimensão dessa crise é global, é certo que o governo tem responsabilidade em procurar os melhores meios de evitar que suas conseqüências atinjam diretamente a estabilidade econômica do país e o dia-a-dia dos cidadãos. Mas essa responsabilidade é, ou deveria ser, compartilhada entre vários atores, inclusive a própria mídia.

Uma das lições ancestrais em minha faculdade de jornalismo foi a de que algumas notícias têm efeito multiplicador e, elas mesmas, são capazes de alterar a realidade. Os exemplos mais citados eram os casos de suicídio e inflação, naquele momento um assunto ainda fresco na minha mente e na de meus colegas, que chegaram a presenciar o tiroteio dos etiquetadores de preço nos supermercados. Diz a teoria que uma notícia de suicídio estimula suicidas em potencial a concretizar o ato e que existe uma mola inflacionária na manchete que apregoa o aumento dos preços porque o comerciante, ao saber que os produtos sofreram acréscimo de 10%, por exemplo, subiam na gôndola o valor de seus produtos, gerando um efeito cascata; ou também porque a possibilidade de um terrorismo inflacionário gera nos consumidores uma corrida aos produtos essenciais e, nas relações econômicas, o aumento na demanda faz com que o preço, de fato, aumente.

Nunca fui muito letrado em números e os cadernos econômicos soam-me como misteriosas cartas escritas em um idioma estrangeiro. A Gazeta Econômica é como um tratado de Kant traduzido para o russo. O Valor é "Ulisses", de Joyce, em húngaro. Até imagino que eles cumpram bem seu papel. No entanto, preocupa-me quando a editoria econômica ganha força pública e vai às manchetes. Ou então chega aos telejornais. Na tradução, trai-se. Além disso, há uma notável obsessão em ilustrar a matéria com personagens: para falar do aumento dos preços, duas ou três donas de casa são convidadas a listar ao repórter aquilo que retiraram de suas listas de compra, a anunciar, em rede nacional, que o iogurte está pela hora da morte e que, a partir de agora, carne apenas dia sim, dia não.

Outro dia, mesmo, uma dessas mal-humoradas donas de casa anunciou que havia restringido o feijão em seu cardápio. Censurou o grão, como se fosse possível abrir mão do rei de nossa culinária, deixando divorciado o pobre do arroz. Não fosse trágico, seria engraçado. Além de ser inócuo, o recurso é perigoso. Ele incute em nós, telespectadores, a sensação de que a conjuntura está pior do que realmente é. Ou ainda provoca um desânimo moral frente a um problema cuja solução depende de esforços coletivos, paciência e, sobretudo, informação. Nesse momento, pecam os jornalistas que preferem tratar a inflação como se ela fosse a madrasta da Isabella: mitificando, atemorizando e desinformando.

O próximo passo, escrevam, será uma explosiva manchete: "Dona de casa se mata por que feijão está mais caro". É bem capaz que isso aconteça. E a culpa, todos sabemos, não será nem do grão amigo nem do dragão inimigo.