"O governo foi muito longe nessa briga com a imprensa", diz Ricardo Kotscho
"O governo foi muito longe nessa briga com a imprensa", diz Ricardo Kotscho
| Alf Ribeiro |
| Ricardo Kotscho |
Em entrevista à BBC Brasil, o jornalista Ricardo Kotscho analisou a postura da mídia brasileira durante a cobertura das eleições, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, segundo ele, "não tem que ficar criticando a imprensa". Para o jornalista, os confrontos não seriam positivos para o governo nem para os veículos de comunicação.
"A imprensa não tem que disputar a eleição, tem que cobrir a eleição, testemunhar, relatar. E do outro lado, acho que o governo foi muito longe nessa briga com a imprensa", declarou o jornalista, afirmando que o cenário de confronto poderia prejudicar a candidata petista. Além disso, Kotscho disse que as pessoas não acreditariam mais nas notícias publicadas pela grande mídia, e que os veículos deveriam "ouvir o que pensa o público."
Para Kotscho, que foi secretário de Imprensa do governo Lula entre 2003 a 2004, os veículos de comunicação teriam se desesperado após as pesquisas eleitorais apontarem a candidata do PT, Dilma Rousseff, como favorita nas intenções de voto. Além disso, o jornalista afirmou que não acredita que exista imparcialidade na grande imprensa. "Sempre se discute a neutralidade do jornalismo, a imparcialidade do jornalismo. Eu não acredito nesses chavões, a grande imprensa sempre diz isso, que eles são imparciais", disse.
Sobre as críticas feitas por Lula à mídia, o profissional de imprensa declarou que o presidente "não deveria entrar nessa guerra": "Nesta semana, tive uma conversa com o presidente Lula e disse a ele que achava que ele não deveria entrar nessa guerra, não deveria falar da imprensa, deveria esquecer a imprensa. Os dois lados estão errados, acho que o presidente da República não tem que ficar todo dia falando da imprensa, criticando a imprensa. E, do outro lado, a imprensa não pode ser um partido político, agir como um partido político, que é o que está acontecendo."
O ex-secretário de Imprensa afirmou que as manifestações pela liberdade de imprensa e contra o "golpismo midiático", realizadas na última semana, não significariam que o país estaria "à beira de uma guerra civil, que a democracia está ameaçada", como alguns veículos tentariam fazer parecer. O jornalista disse, também, que a liberdade de imprensa "não está ameaçada", mas sim, que ela "está sendo abusada, mal usada".
Durante a entrevista, Kotscho se disse defensor da autorregulamentação da profissão de jornalista no país, com a criação de um conselho que tenha modelo semelhante ao do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar): "O espírito do Conselho Federal de Jornalismo, de cuja discussão eu participei quando estava no governo, era o de criar uma entidade - como há em todas as profissões no Brasil - para zelar pela profissão, em defesa da própria profissão e em defesa da sociedade. O modelo que eu acho que funciona muito bem, que nós temos há 30 anos no Brasil, é o modelo do Conar. Com o fim da Lei da Imprensa, que todo mundo era contra, que era da época da ditadura, não ficou nada no lugar", informou.
Sobre as recentes denúncias de casos envolvendo integrantes do governo, o jornalista questionou se as notícias foram feitas baseadas em apurações ou se foram enviadas por uma "central de escândalos". O profissional de imprensa declarou que não a mídia "vai muito ao sabor dos seus interesses, das circunstâncias políticas do país", e citou episódios históricos, como o golpe militar de 1964 e as Diretas Já!, em 1984, e a atuação de alguns veículos de comunicação.
Ao final da entrevista, Kotscho afirmou ser "impossível" uma relação ideal ente governo e imprensa: "Governo e imprensa são inconciliáveis, têm um tempo diferente, uma natureza diferente."
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