O foca e o intelectual
O foca e o intelectual
Na virada do século, eu era um foca que não admitia sê-lo, embora ciente da bola equilibrada sob o nariz. É um traço comum dos repórteres iniciantes. Me cercava, pois, de cuidados para que não parecesse tão foca quanto de fato era. Quando entrava uma matéria complexa na pauta, estudava e lia muito na véspera da apuração. Se não tivesse tempo, dava um jeito, invertia escalas, não dormia - tudo para soar o menos idiota possível diante de fontes gabaritadas. E passava horas no arquivo do jornal, o ponto de partida inicial para a pesquisa de qualquer repórter na era pré-Google. Para coisas mais recentes, arriscávamos surfar por buscadores como Altavista, Yahoo! ou o velho Cadê?. Mas sem pretensões de achar muita coisa numa memória digital que mal completava seis anos.
A maioria das pautas mais pesadas costumava cair sobre o colo de repórteres experientes. Mas na editoria de cultura do prematuro portal do Estadão ninguém era muito maduro. Minto: tínhamos a Teresa Ribeiro, setorista de literatura extremamente ágil e boa praça, e o editor e seu sub, Roberto Romano Taddei e Daniel Jelin respectivamente, sujeitos igualmente excelentes e formados há mais tempo que a base. O restante éramos um grupo de garotos em graduação ou recém-formados, felizes por disputar furos e pautas difíceis com veteranos de outros veículos.
Assim aconteceu quando me escalaram para um entrevistão com Marco Aurélio Garcia. O atual assessor especial do presidente Lula foi nomeado para a pasta de cultura da gestão de Marta Suplicy como prefeita de São Paulo. Depois de longas negociações com o gabinete na antevéspera e na véspera do Reveillón, eu seria o primeiro repórter a entrevistar o secretário de fato empossado, no dia 2 de janeiro de 2001.
Àquela altura do campeonato, já havia entrevistado muita gente mais velha, mais inteligente e mais experiente do que eu. A maioria das minhas fontes, correspondia (e corresponde) a essas características. Mas muitos, dentre os entrevistados, davam um depoimento ou uma entrevista rápida, ou discorriam sobre temas amenos, ou transmitiam certa familiaridade por serem famosos. Entrevistões com intelectuais eram, portanto, mais intimidantes. Doutor Garcia, em especial, era historiador, filósofo, poliglota, ex-exilado e ex-professor em universidades no Chile e na França. E vinha no embalo da gestão da Marta, uma mulher do PT que finalmente esboçava transformações após as desastrosas administrações de Paulo Maluf e Celso Pitta.
Recaiu-me, obviamente, uma mistura de nervosismo e ansiedade que me fizera devorar jornais, revistas, livros e websites não só a respeito de Garcia, mas também de gestões anteriores, problemas da área da cultura e especulações a respeito de outros nomináveis para pasta, entre outros assuntos. Quase dei plantão na redação durante a virada do ano, tão preocupado que estava com minha performance. Queria poder construir um diálogo relevante com um intelectual com o dobro da minha idade, além de tentar esconder o máximo possível a minha foquice.
Na manhã da terça-feira agendada liguei para a Secretaria com sutil esperança de que estaria fechada ou de que a entrevista seria adiada. Mas todos estavam trabalhando e esperavam minha chegada após o almoço, conforme combinado.
O esforço prévio valeu a pena e resultado foi ótimo. Romano, em vez de cortar os cerca de 20 mil toques da entrevista, resolveu fazer várias retrancas em diversos links separados por assunto: incentivos fiscais, política de eventos, inclusão digital, aparelhos municipais... Mas o saldo positivo foi principalmente consequência do entrevistado, que me deixou à vontade, foi humilde e não se esquivou das perguntas. Simpático e brincalhão, não testou o malabarismo do foca.
Anos depois, em julho de 2007, Garcia protagonizaria o famoso episódio do "top-top". Ele foi flagrado em vídeo ao fazer o gesto para um telejornal que admitia a barrigada de boa parte da mídia ao culpar o governo pelo acidente da TAM em Congonhas - comprovou-se que a falha foi mecânica. Comunicadores ressentidos e opositores moralistas malharam o assessor. Eu achei exagerado, talvez porque conhecesse Marco Aurélia Garcia pessoalmente e soubesse que aquele era um gesto de bar, coisa de amigos que não esperam ter o escritório vigiado por câmeras em cadeia nacional.
Naquele momento lembrei da primeira resposta que Garcia me concedera na entrevista anos antes, que ilustra bem o clima descontraído que ele ajudou a criar para a fluência da conversa. Questionei se ele já havia se atualizado das pendências da gestão anterior. Disse que já havia conhecido todos os funcionários e que ainda visitaria os equipamentos públicos, mas o maior e mais imediato problema era a dívida com a gráfica que imprimia a agenda cultural, cujo papel fora "fiado" por duas edições. Completou, entre risos: "Tem outros problemas de papel aqui, mais prosaicos, que também está faltando aqui, você pode imaginar. Nem o gabinete do secretário foi poupado!"






