O fio de Ariadne (para lembrar Klee)

O fio de Ariadne (para lembrar Klee)

Atualizado em 02/08/2007 às 11:08, por Rodrigo Manzano.

O avião caiu. Morreram 199. Ou 200. Ou 201. O prefeito Kassab quer demolir um hotel. Embaixo do hotel tem uma casa de tolerância. A palavra da estação é "grooving" e Garulhos deixou de ser uma opção. A sociedade paulistana saiu às ruas, indignada com o "caos" e uma convocatória circula, por e-mail, pedindo boicote aos aeroportos no dia 3 de setembro. O apresentador gordo do programa policial anuncia: eis o maior acidente aéreo da história do país.

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O dólar subiu. O indignado comentarista político que tinge os cabelos diz que alguma coisa deve ser feita.

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O Pan, enfim, começou. Panacéia para todos os males, o espírito olímpico sufocou o tráfico, a violência, a pobreza e a tristeza cariocas. Acostumados a receber turistas, os anfitriões sentiram-se, finalmente, em casa. Medalha após medalha, o ufanismo cresceu como pão-de-ló. E o Rio de Janeiro continua lindo. Tão lindo quanto a alegria de "nunca termos conquistado tantas medalhas como no Pan do Brasil", segundo o locutor esportivo.

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Renan, descobriu-se, pulou a cerca. No vácuo, sua mulher declarou-se comunista. A jornalista Mônica foi capa e 4a capa. Ninguém perguntou se é normal que fontes e jornalistas durmam na mesma cama, em Brasília ou em qualquer paragem. No pasto do Renan as vacas parecem mais gordas. E o comentarista de televisão anuncia: esse é o maior caso de corrupção da história do país.

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O dólar caiu. O comentarista econômico que pinta os cabelos afirma que algo deve ser feito.

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No meio do nada, a ponte que vai de nenhum lugar a lugar algum. Gautama, a empreiteira, ocupa o noticiário como um Buda gordo. Deputados correm da história tal qual gatos de água e o comentarista de televisão não se cansa de falar que esse é o maior caso de corrupção na história do país.

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Os burocratas dos gabinetes de polícia - de todas as grifes - surgem na televisão sem muitos pudores a explicar a ação no Morro do Alemão. Alguns governantes comemoraram os mortos e aqueles que os choram não aparecem. Sem nome, sem rosto e sem história, os frios defuntos vêem recair sobre si a responsabilidade do tráfico e da violência no RJ.

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O irmão do presidente é pego em escuta telefônica. A oposição, com o microfone em mãos, acusa a família de beneficiar-se do privilégio palaciano e, por sua vez, o governo utiliza metafísica rasteira para explicar que faltava-lhe capacidade para roubar. A PF procura, nada acha. A oposição esquece. E as palavras do engomado comentarista de televisão, para quem "esse é o maior caso de corrupção na história do país", dissolvem-se como bolachas no leite morno.

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O dólar caiu. O comentarista econômico - que se esqueceu da tintura de cabelos acaju nessa semana, vêem-se as raízes brancas - diz que alguma coisa deve ser feita.

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O Papa chegou. Pode-se ver sua cama, seu vinho, sua sobremesa, seu banheiro, seu carrinho, seu sapato, suas vestes. O Papa, vejam só, sorri. Frei Galvão troca de nome. É agora Santo Antônio de Sant´Anna Galvão. Na arena, o ministro e a igreja brigam publicamente em torno do aborto e outros assuntos delicados. As beatas se escandalizam, inclusive a mãe do ministro. O Papa vai.

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No Congresso, a CPI do Apagão Aéreo. Um parlamentar se queixa das barrinhas de cereais distribuídas pela companhia aérea. O outro, da dificuldade em comprar passagens por R$ 50. O jornalista de rádio afirma que o "caos" (ele, sempre o "caos") é o responsável por todas as desgraças do planeta e a repórter, ao vivo, informa que 43 vôos saindo de Congonhas foram cancelados.

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Três meses. Apenas três meses. Como curado de uma ressaca, o noticiário me faz lembrar Paul Klee, quando afirmou "pois bem, falta o povo"*.

*citado por Gilles Deleuze, na conferência "O ato de criação", de 1987.