O filho drogado - Antonio Carlos Silva Ferreira / UCSal
O filho drogado - Antonio Carlos Silva Ferreira / UCSal
Terminamos o primeiro turno das eleições e, mais uma vez, elogiou-se a nossa competência em realizar eleições eletrônicas num país com tamanha dimensão geográfica. A mesma competência com que a Receita Federal introduziu e avança na entrega da declaração do IR pela Internet. E ainda estão aí a EMBRAER, a PETROBRÁS e os Correios para somar exemplos de instituições brasileiras de renome mundial. Mas a iminência da posse dos prefeitos também traz de volta a expectativa quanto ao que farão os futuros governantes para melhorar nossos indicadores de educação e de distribuição de renda, acabar com a corrupção, com a fome que ainda está longe do zero, a taxa de desemprego e, para sermos bem clichê, erradicar todas as antigas e conhecidas mazelas nacionais.
No meio da choradeira de praxe, nos chega um e-mail de uma compatriota residente na Bélgica, através do qual ela se queixa da precariedade do sistema telefônico daquele país e, no mais puro estilo "eu era feliz e não sabia", ela engrandece a pátria amada, levando-nos a crer que o paraíso tropical supera em tudo o inferno belga, onde ela parece estar a contra-gosto. Que pena, enquanto a compatriota sofre em terras alheias, sem feijão, sem farinha, sem palmeiras onde canta o sabiá, a gente fica aqui reclamando de barriga cheia, deixando de ver que este é um país que vai pra frente. Sem contar que aqui não tem guerra, nem vulcão, furacão, terremoto, ou seja, as forças da Natureza conspiram a nosso favor. Até um dos nossos primeiros turistas, Pero Vaz de Caminha, de cara percebeu que a terrinha tinha futuro.
E o mail da nossa amiga brasileira vai sendo reenviado de um brasileiro para outro, acrescido de um comentário ufanista que reforça que aqui sim é o melhor lugar do mundo e que aqueles países belos que gente vê nos programas de turismo das tv a cabo, é só marketing para vender passagem aérea, hotéis, serviços turísticos, etc. Afinal, nossa amiga mora na Bélgica e se ela diz que lá não presta deve ser porque não presta mesmo, por que haveríamos de contestar se nunca fomos por lá.
Acostumados a um mundo dicotômico, yin x yang, claro x escuro, forte x fraco, sim x não, nos viciamos a ter que optar por um lado da moeda. O mundo digital também é binário, é zero ou hum, ligado ou desligado e quando alguém diz que não é contra nem a favor, muito pelo contrário ou que, ao invés de sim ou não é mais ou menos, diz-se que esta pessoa é indecisa.
Para não ficar em cima do muro a gente abandona a razão e, usando da paixão, escolhe o lado que nos parece melhor. E a gente se divide entre os que acham que o Brasil é o melhor lugar do mundo e os que pensam que é o pior ou um dos piores.
Mas, falar na distante Bélgica nos faz lembrar que Edmar Bacha anos atrás apelidou o nosso país de Belíndia, pois, segundo ele, havia uma parte da população vivendo sob os indicadores sociais de primeiro mundo presentes na Bélgica e outra parte, bem maior, vivendo sob os índices miseráveis da Índia. Nosso economista, partindo de uma visão técnica, sem perder a criatividade ao cunhar o termo, expôs a visão de que, de fato, existem dois países dentro de um só. Para usarmos de metáforas poderíamos pensar que somos passageiros de um avião que segue viagem na linha divisória entre um precipício e um planalto de cenário maravilhoso. Os passageiros de um lado só enxergam o abismo enorme, enquanto que os do lado oposto se deleitam com as maravilhas que seus olhos podem ver.
Mas a metáfora do avião só nos serve de constatação da existências das duas faces da moeda. Que tal então pensarmos na metáfora do filho drogado? O filho drogado é um bom menino, que tem qualidades, que ama os pais, os irmãos, os tios e os avós mas que enveredou pelo caminho das drogas. A partir daí, as opiniões se dividem entre os pais, um deles diz que o garoto não vale nada, que é um inútil, um imprestável e, de preferência, vai sempre dizer isto ao cônjuge, referindo-se ao garoto como "seu filho". O outro, que não fez o filho sozinho, diz "meu filho é lindo" toda vez que ele sai batendo a porta estupidamente, para disfarçar o mal estar causado pelo gesto do filho. Certamente que nem um nem outro estão contribuindo para a recuperação do filho. O final de estórias como esta é sempre trágico, exceto quando alguém intervem e traz algum tipo de ajuda, de sensatez.
Precisamos escolher que atitudes adotar quanto ao nosso filho, ou à nossa mãe-pátria, melhor dizendo. Já sentamos nos dois lados do avião e sabemos que nem tudo é precipício como nem tudo são flores. A visão otimista nos levará a achar que vivemos num mar de rosas, que a Bélgica é uma porcaria, que o samba, o carnaval e o futebol é tudo que precisamos para um futuro feliz para todos. Já a visão pessimista nos diz que a culpa é dos políticos que estragaram e estragam a nação onde nós vivemos e que eles vão levá-la para o buraco. A menos que a ONU ou alguma grande nação intervenha com suas forças (de paz?) para resolver o problema.
Eu proponho reconhecermos, preservamos e enaltecermos o que há de bom no nosso filho, porque é justo e porque é merecido. A partir daí, teremos uma base sólida, um alicerce para a reconstrução do lado negativo, para a correção das falhas que já identificamos, as quais não precisamos esconder nem negar. Não precisamos de auto-estima exacerbada muito menos de baixa auto-estima, precisamos de consciência, de razão, de equilíbrio e transparência e de vontade de construir um futuro melhor. Tenho certeza de que do alto deste muro, estamos mais perto do céu do que os que estão no chão, qualquer que seja o lado do muro pelo qual tenham optado.






