O Estado das coisas
O Estado das coisas
Atualizado em 16/03/2010 às 18:03, por
Igor Ribeiro.
No domingo fui ansioso ler o Estadão novo. Minha principal expectativa era menos gráfica e mais editorial. Um boneco anteriormente enviado à redação dizia que a linha informativa seguiria uma tendência mais analítica e adequada à era digital. Essa é a busca de muitos impressos atuais - poucos conseguem. Será quie o tradicionalíssimo O Estado de S. Paulo finalmente daria uma resposta convincente do ponto de vista de um veículo diário? Aos designers e profissionais gráficos mais experientes cabe a crítica sobre lay out e tipografia. A mim interessava principalmente o aspecto jornalístico.
Parece que o Estadão está no caminho certo. A tendência mais reflexiva, com foco na complementaridade, é aparente. Em essência, parece que este será o mesmo Estadão anterior ao projeto: bem intencionado jornalisticamente, respeitado nacionalmente, criador e incentivador de boas ideias editoriais. Mas o avassalador incremento informacional causado pelas novas tecnologias de informação deveria instigar o jornal a ousar ainda mais. O principal e mais difícil problema é desancorar-se de uma indústria que está fadada a sucumbir.
Não estou decretando a morte do impresso. Mas representa um negócio e um processo dos mais antigos e caminha, lentamente, para sua reinvenção. Este é um assunto o qual discuto cotidianamente com colegas de redação. Já tratamos desse desafio por meio de diversas reportagens no Portal e na Revista IMPRENSA, inclusive uma matéria de capa sobre a questão ( "). O novo Estadão , apesar do esforço latente, parece não ter se resolvido a ponto de encarar os obstáculos que virão.
Sou um amante e um devorador de impressos. Tive breve passagem por internet (no próprio Grupo Estado, diga-se) e por assessoria, mas construí minha carreira em diários e revistas. A cadeia produtiva de um impresso e a sensação de ter em mãos as páginas com seu texto ou material é incomparável. Talvez por ser a mais antiga forma de registro físico, o material impresso parece pleno de uma aura de verdade inatingível, de um aroma romântico de conquista. Mas mesmo essa poderosa afetividade cultural não pode negar certos fatos, como a grande dispendiosidade humana e material envolvidas no processo de produção de jornais, livros e revistas.
É um quadro tão antigo quanto previsível, e ficou mais evidente a partir do desenvolvimento da web 2.0. Vinha sendo discutido mais profundamente há um ano, antes da crise financeira de setembro de 2008. Mas em vez de precipitar novas ideias e paradigmas desenvolvimentistas, parece que o maremoto econômico fez gestores e pensadores da macroeconomia se agarrarem ainda mais fortemente ao envelhecido barco neoliberal. Nos negócios de mídia, a irrisória recuperação de alguns impressos no fim do último semestre e o contínuo (e falacioso) crescimento de share audiovisual faz com que os empresários do setor achem que está tudo bem. Não está.
Matéria de capa da deste mês reflete, já em seu abre, o porquê disso. Com simplicidade e efeito, mostra porque é insustentável um negócio que empreende gastos bilionários no cultivo de árvores, na produção de papel, na manutenção de parques gráficos enormes e em distribuição e transporte desses produtos por distâncias continentais. Já é assim hoje; com a maior adesão da população aos meios digitais tal inviabilidade se tornará ainda maior.
O impresso continuará a existir e ser relevante em nichos menores, o que não é de modo algum ruim. É apenas um novo negócio que deverá se adequar em método e volume. Como é um acontecimento inevitável, o impresso deve começar a assumir, desde já, uma responsabilidade transitória para o que virá. Não pode assumir riscos ou fazer cálculos audaciosos com base num futuro indefinível, mas não deve reeditar ou inventar processos que pouco contribuam nessa mudança.
Vale ressaltar que o Estadão tenta, é verdade, inclusive por meio do portal, que acompanhou a reformulação do jornal e parece ansioso por facilitar seu acesso a todo o tipo de leitor, com boa hierarquia de notícias, texto rápido e fácil de ler, com fontes grandes e bem espaçadas. O novo portal mantém todos os blogs que a marca já abarcava e acrescenta alguns a mais; conecta-se a diversas redes sociais; provê aplicativo para mobile; atualiza o noticiário com frequência; mantém interface constante com o impresso e, além de tudo, é gratuito. Os espaços publicitários disponíveis são variados e bem posicionados, mas duvido que possuam o valor de mercado que realmente merecem. Essa miopia comercial é uma epidemia que fere toda a cadeia de produção jornalística: do impresso ao audiovisual, os preços praticados se amparam em estimativas muito pouco mensuráveis.
O alcance gráfico do novo projeto do jornal O Estado de S. Paulo não ousou comercialmente. A enxurrada de informações e toda complexidade de fontes disponíveis devem ser levadas em consideração pelos veículos que pretendem dizer algo ao futuro. O acúmulo acachapante de conteúdo é um problema sério que também foi matéria de capa recente de revista, a inglesa . Não só o armazenamento em si de todo esse conhecimento é preocupação de primeira grandeza, como também questiona incisivamente qual o sentido de tanta informação.
Qual o benefício prático da produção e reprodução acelerada de dados gerada por nossa sociedade? Nem o cético mais pirronista do universo é capaz de dar uma resposta absoluta a essa questão. O ato de publicar qualquer coisa torna-se, portanto, uma afirmação de relevância com garantia de receptor, uma noção que ultrapassa os velhos padrões de consumo, transformando o público num fiel seguidor, num verdadeiro entusiasta do veículo.
Como no filme " ", de Wim Wenders, o jornal diário de hoje é como o cinema em preto e branco no antepasso do cinema colorido. O veículo Estado parece estar em suspensão similar, indefinido entre a manutenção romântica de sua tradição jornalística e o desafio de se reinventar digitalmente. Não que a segunda opção necessariamente negue a primeira. O preto e branco/impresso pode e vai continuar existindo e sendo culturalmente importante, mas somente o colorido/digital vai garantir sua razão de ser econômica e social. Por ora, a reforma de O Estado de S. Paulo parece caminhar no sentido certo, mas não pode perder a oportunidade de discutir enfaticamente um problema que vai além de fios, tipografia, tarjas e vinhetas: a sustentabilidade da indústria de comunicação.
Parece que o Estadão está no caminho certo. A tendência mais reflexiva, com foco na complementaridade, é aparente. Em essência, parece que este será o mesmo Estadão anterior ao projeto: bem intencionado jornalisticamente, respeitado nacionalmente, criador e incentivador de boas ideias editoriais. Mas o avassalador incremento informacional causado pelas novas tecnologias de informação deveria instigar o jornal a ousar ainda mais. O principal e mais difícil problema é desancorar-se de uma indústria que está fadada a sucumbir.
Não estou decretando a morte do impresso. Mas representa um negócio e um processo dos mais antigos e caminha, lentamente, para sua reinvenção. Este é um assunto o qual discuto cotidianamente com colegas de redação. Já tratamos desse desafio por meio de diversas reportagens no Portal e na Revista IMPRENSA, inclusive uma matéria de capa sobre a questão ( "). O novo Estadão , apesar do esforço latente, parece não ter se resolvido a ponto de encarar os obstáculos que virão.
Sou um amante e um devorador de impressos. Tive breve passagem por internet (no próprio Grupo Estado, diga-se) e por assessoria, mas construí minha carreira em diários e revistas. A cadeia produtiva de um impresso e a sensação de ter em mãos as páginas com seu texto ou material é incomparável. Talvez por ser a mais antiga forma de registro físico, o material impresso parece pleno de uma aura de verdade inatingível, de um aroma romântico de conquista. Mas mesmo essa poderosa afetividade cultural não pode negar certos fatos, como a grande dispendiosidade humana e material envolvidas no processo de produção de jornais, livros e revistas.
É um quadro tão antigo quanto previsível, e ficou mais evidente a partir do desenvolvimento da web 2.0. Vinha sendo discutido mais profundamente há um ano, antes da crise financeira de setembro de 2008. Mas em vez de precipitar novas ideias e paradigmas desenvolvimentistas, parece que o maremoto econômico fez gestores e pensadores da macroeconomia se agarrarem ainda mais fortemente ao envelhecido barco neoliberal. Nos negócios de mídia, a irrisória recuperação de alguns impressos no fim do último semestre e o contínuo (e falacioso) crescimento de share audiovisual faz com que os empresários do setor achem que está tudo bem. Não está.
Matéria de capa da deste mês reflete, já em seu abre, o porquê disso. Com simplicidade e efeito, mostra porque é insustentável um negócio que empreende gastos bilionários no cultivo de árvores, na produção de papel, na manutenção de parques gráficos enormes e em distribuição e transporte desses produtos por distâncias continentais. Já é assim hoje; com a maior adesão da população aos meios digitais tal inviabilidade se tornará ainda maior.
O impresso continuará a existir e ser relevante em nichos menores, o que não é de modo algum ruim. É apenas um novo negócio que deverá se adequar em método e volume. Como é um acontecimento inevitável, o impresso deve começar a assumir, desde já, uma responsabilidade transitória para o que virá. Não pode assumir riscos ou fazer cálculos audaciosos com base num futuro indefinível, mas não deve reeditar ou inventar processos que pouco contribuam nessa mudança.
Vale ressaltar que o Estadão tenta, é verdade, inclusive por meio do portal, que acompanhou a reformulação do jornal e parece ansioso por facilitar seu acesso a todo o tipo de leitor, com boa hierarquia de notícias, texto rápido e fácil de ler, com fontes grandes e bem espaçadas. O novo portal mantém todos os blogs que a marca já abarcava e acrescenta alguns a mais; conecta-se a diversas redes sociais; provê aplicativo para mobile; atualiza o noticiário com frequência; mantém interface constante com o impresso e, além de tudo, é gratuito. Os espaços publicitários disponíveis são variados e bem posicionados, mas duvido que possuam o valor de mercado que realmente merecem. Essa miopia comercial é uma epidemia que fere toda a cadeia de produção jornalística: do impresso ao audiovisual, os preços praticados se amparam em estimativas muito pouco mensuráveis.
O alcance gráfico do novo projeto do jornal O Estado de S. Paulo não ousou comercialmente. A enxurrada de informações e toda complexidade de fontes disponíveis devem ser levadas em consideração pelos veículos que pretendem dizer algo ao futuro. O acúmulo acachapante de conteúdo é um problema sério que também foi matéria de capa recente de revista, a inglesa . Não só o armazenamento em si de todo esse conhecimento é preocupação de primeira grandeza, como também questiona incisivamente qual o sentido de tanta informação.
Qual o benefício prático da produção e reprodução acelerada de dados gerada por nossa sociedade? Nem o cético mais pirronista do universo é capaz de dar uma resposta absoluta a essa questão. O ato de publicar qualquer coisa torna-se, portanto, uma afirmação de relevância com garantia de receptor, uma noção que ultrapassa os velhos padrões de consumo, transformando o público num fiel seguidor, num verdadeiro entusiasta do veículo.
Como no filme " ", de Wim Wenders, o jornal diário de hoje é como o cinema em preto e branco no antepasso do cinema colorido. O veículo Estado parece estar em suspensão similar, indefinido entre a manutenção romântica de sua tradição jornalística e o desafio de se reinventar digitalmente. Não que a segunda opção necessariamente negue a primeira. O preto e branco/impresso pode e vai continuar existindo e sendo culturalmente importante, mas somente o colorido/digital vai garantir sua razão de ser econômica e social. Por ora, a reforma de O Estado de S. Paulo parece caminhar no sentido certo, mas não pode perder a oportunidade de discutir enfaticamente um problema que vai além de fios, tipografia, tarjas e vinhetas: a sustentabilidade da indústria de comunicação.






