O "escândalo" da tapioca
O "escândalo" da tapioca
Atualizado em 06/02/2008 às 18:02, por
Pedro Venceslau.
O "escândalo" da tapioca
O que você faz quando, depois de comer e pedir a conta, o garçom avisa que o Visa Electrom está "fora do ar"? Como dinheiro e cheque estão caindo em desuso tão rápido quanto os discos de vinil, sobram duas opções: 1 - passar outro cartão, 2 - armar um barraco, ameaçar acionar o Procon (a culpa é de quem?), esperar que a gerência da casa seja vencida pelo cansaço e que a conta seja paga outro dia. Não sei se foi esse o caso quando, em nove de maio último, o Ministro dos Esportes, Orlando Silva Junior, cometeu o pecado capital de pagar uma tapioca com seu cartão corporativo. Valor da compra: R$ 8,00. Essa foi com certeza a tapioca mais cara da vida desse baiano de trinta e poucos anos, o mais jovem ministro que o Brasil já teve.Quando o chamado "escândalo da farra do cartão corporativo" explodiu na mídia, a tal tapiocaria virou manchete e foi parar no "Jornal Nacional". Os "coleguinhas" bem que tentaram encontrar mais alguma irregularidade para engrossar o caldo. Como não conseguiram, foram de tapioca mesmo. A histeria foi tanta, que Orlando raspou a sua poupança e pediu dinheiro emprestado aos amigos para arcar com toda a fatura do cartão, algo em torno de R$ 31 mil. Ele espera, claro, que tão logo o TCU julgue o caso esse dinheiro seja ressarcido.
Jornalistas não têm cartão corporativo, mas quando viajam a trabalho não comem nem pagam hotel com dinheiro do próprio bolso. No caso dos encontros entre colunistas e fontes, quem paga a conta também é o jornal (ou a revista). Nada mais justo. Os manuais de ética e conduta, aliás, pregam justamente isso; jornalistas não devem receber presentes nem deixar que a conta seja paga por terceiros.
Os cartões corporativos foram criados na gestão FHC para "pagar despesas imprevistas decorrentes do exercício do cargo" e "dar mais flexibilidade às repartições públicas". Nada muito especifico, diga-se. O que é uma despesa imprevista? Se o presidente da CBF ou do Clube dos 13 vai almoçar com um ministro dos esportes para tratar de temas delicados como a "Timemania" ou a Copa do Mundo, quem deve pagar a conta? O gasto mais alto encontrado na fatura do Ministro dos Esportes foi de R$ 217 em um restaurante, o Le Vin Bistro. Sim, trata-se de um restaurante caro. E daí? Duvido que os jornalistas da Globo e da Veja levem suas fontes para comer prato feito no bar da esquina. Quem cobre Brasília sabe que a política é movida a almoços e jantares.
Por fim, li hoje no blog do jornalista Renato Rovai, editor da revista Fórum, um artigo que acerta na mosca: "É impressionante como este governo tem uma enorme capacidade de dar grande dimensão a pequenos problemas que deveriam ser enfrentados com a seriedade que merecem e não com moralismo de botequim".





