O dono da notícia

O dono da notícia

Atualizado em 04/08/2010 às 17:08, por Pamela Forti,  da redação e Laura Cantal e  da equipe de estagiários.

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FOTOS: ALF RIBEIRO

Clóvis Rossi, renomado jornalista e integrante do conselho editorial da Folha de S.Paulo, recebeu a equipe de IMPRENSA em sua casa, enquanto recuperava-se do acidente sofrido em Madri, durante cobertura da Cúpula União Europeia-América Latina, que resultou na fratura de três costelas e uma série de restrições médicas. Mesmo assim, Rossi não perdeu o bom-humor nem a vontade de trabalhar. Apesar das dores ainda incômodas, conversou bastante sobre política, jornalismo, sobre a Folha e sobre democracia. A seguir, veja alguns trechos, que não entraram na edição impressa (nº 259, pág. 22).

Revista IMPRENSA - Qual avaliação faz da reforma realizada pela Folha há alguns meses?

Clóvis Rossi - Olha, a teoria, os princípios básicos que foram anunciados ao longo desse ano em que se preparou a mudança, eu aplaudi de pé. Porque eu venho defendendo a ideia de que você tem que fazer mais análise, mais explicação, mais interpretação, mais história, mais narrativa - que é o novo jargão interno - há 20 anos. Desde que a Rede Globo parou de lutar contra o comunismo internacional porque o comunismo internacional acabou e passou a fazer jornalismo. Estamos falando do quê? De 1989, 1990... Faz 20 anos, portanto, que a Globo passou a fazer jornalismo. Bom ou mal, questão de gosto pra cada um. Mas antes não, antes a Globo estava a fim de defender a civilização ocidental e cristã, que tem pouco de cristã, embora tenha muito de ocidental. O problema da Globo era impedir que o Brizola, o Lula, chegassem ao poder, a ponto de terem apoiado um canalha como o Collor contra o Lula e o Brizola.

IMPRENSA - Qual é a mudança de maior impacto no projeto?

Rossi - No fundo é recuperar a expressão literal do que é lide. Lide, ao contrário do que ficou na prática do jornalismo brasileiro - que é o resumo da notícia -, lide quer dizer "liderar", to lead, conduzir, conduzir o leitor ao texto. Como você conduz o leitor ao texto é um problema seu, não é colocar o "como onde, quando, porque", etc., nas sete primeiras linhas. Tem milhares de maneiras para abrir os textos. Eu fiz a abertura do texto sobre a morte do Papa chamando atenção para o que ele tinha dito antes para um secretário particular dele sobre morte. Enfim, dizendo que morreu, mas puxando por aí, tentando encontrar alguma coisa que não estivesse na internet ou na televisão, na véspera.

IMPRENSA - Você costuma falar abertamente qual a sua definição política?

Rossi - Não, porque eu não tenho, sou um franco atirador, me defino como franco atirador. Não tenho condições de dizer como eu construiria o mundo se me dessem o mundo nas mãos. Eu estou aprendendo, passo a vida aprendendo, corro o mundo aprendendo. Então na hora em que eu aprender, se não morrer antes - provavelmente vou morrer antes - de repente até digo, mas não sei. Não é que não tenho posição política, eu não sei como construir o mundo em que eu gostaria de viver.

IMPRENSA - Apesar das funções de articulista e repórter serem do âmbito do jornalismo, são duas ocupações bem diferentes, não?

Rossi - A maior parte do tempo em que fiquei como colunista eu encarava a coluna erradamente, como uma espécie de subproduto do trabalho de reportagem. Enfim, meu foco vinha sendo sempre de repórter, estava acostumado com aquilo, gosto, continuo gostando de reportagem, estar na rua, não consigo ficar confinado a uma redação. Agora cada vez mais preciso sair para o exterior, porque no Brasil acho que já fiz tudo o que podia. Quando eu viajava, por exemplo, às vezes escrevia cinco, seis, sete textos para o corpo do jornal e só depois ia escrever a coluna - o que é um erro porque a coluna saia meio quebrada, meio pedregosa, pois eu estava cansado, já tinha esgotado os assuntos. Aos poucos é que eu fui descobrindo que a coluna no fundo era, digamos assim, o produto principal, embora possa parecer odioso para um jornalista sentimental você falar em produto. Então, passei realmente a me concentrar um pouco mais na coluna. Hoje, eu estou colunista, mas sou repórter.

Confira, em breve, o resumo desta matéria nesta página.
Assinantes podem ler a edição virtual da edição 259 de IMPRENSA pelo link abaixo.