O dito pelo desdito
Toda vez que dizem o que não devem, em circunstâncias inconvenientes às suas pretensões, os políticos de todas as cores, credos e ideias reagem da mesma forma.
Atualizado em 29/05/2013 às 14:05, por
Gabriel Priolli.
que não devem, em circunstâncias inconvenientes às suas pretensões, os políticos de todas as cores, credos e ideias reagem da mesma forma. Culpam a imprensa pela má repercussão do que foi dito e asseguram que suas palavras foram “retiradas do contexto”. No momento em que escrevo, quem se exercita nessa modalidade de ilusionismo é a ex-senadora Marina Silva, acossada pelo lapsus verbi que cometeu ao avaliar a patética criatura de Deus ora presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal.
Azar de Marina que, nos tempos correntes, as declarações públicas de políticos sempre tenham registro audiovisual, numa câmera de celular que seja. A divulgação de seus comentários no You Tube, com todo o contexto que se possa querer, deixou claro que a candidata à presidência da República disse mesmo o que disse. Portanto, ela escorregou de fato. Viu perseguição religiosa onde existe repúdio moral e, dessa forma, contribuiu para a defesa do indefensável.
Mas não há filme ou gravação que mude o mantra dos políticos. Flagrados com o dedo sujo, apontam para o repórter mais próximo e, sem negar o que disseram, asseveram que sua fala foi privada do contexto. Ora, se é assim, se a compreensão das frases marcantes de políticos exige sempre a tessitura verbal completa em que foram bordadas, muitas delas não teriam se convertido em ícones da cultura universal. Elas foram pinçadas justamente por sua força expressiva, para existir por si mesmas, livres de qualquer contexto.
“Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”, disse Napoleão no Egito. “Tudo que eu posso lhes dar é sangue, suor e lágrimas”, resumiu Winston Churchill na Inglaterra da Segunda Guerra Mundial. “Deixo a vida para entrar na História”, escreveu Getúlio Vargas na carta-testamento de seu suicídio. “Se é para a felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico”, assegurou D. Pedro I aos que temiam sua volta para Portugal.
Alguém necessita do contexto dessas frases para recordá-las e repeti-las pelos tempos afora? Pelo inverso, teriam elas se tornado imortais se os cronistas que as anotaram não as houvessem retirado do contexto? De outra forma ainda, a frase de efeito, o aforismo, a formulação compacta e impactante não terá mais valor que um texto ou fala inteiros, precisamente pela virtude da concisão?
Marina Silva pede vênia para discordar. Todos os seus colegas políticos, pilhados no desatino verbal, igualmente. Mas não há sílaba de dúvida nessa matéria: extrair citações do contexto e valorizá-las é da natureza mais legítima do jornalismo, porque está no cerne da cultura e da memória coletiva. Quem não gosta que feche a matraca. Ou seja hábil para dizer o que preste.

Azar de Marina que, nos tempos correntes, as declarações públicas de políticos sempre tenham registro audiovisual, numa câmera de celular que seja. A divulgação de seus comentários no You Tube, com todo o contexto que se possa querer, deixou claro que a candidata à presidência da República disse mesmo o que disse. Portanto, ela escorregou de fato. Viu perseguição religiosa onde existe repúdio moral e, dessa forma, contribuiu para a defesa do indefensável.
Mas não há filme ou gravação que mude o mantra dos políticos. Flagrados com o dedo sujo, apontam para o repórter mais próximo e, sem negar o que disseram, asseveram que sua fala foi privada do contexto. Ora, se é assim, se a compreensão das frases marcantes de políticos exige sempre a tessitura verbal completa em que foram bordadas, muitas delas não teriam se convertido em ícones da cultura universal. Elas foram pinçadas justamente por sua força expressiva, para existir por si mesmas, livres de qualquer contexto.
“Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”, disse Napoleão no Egito. “Tudo que eu posso lhes dar é sangue, suor e lágrimas”, resumiu Winston Churchill na Inglaterra da Segunda Guerra Mundial. “Deixo a vida para entrar na História”, escreveu Getúlio Vargas na carta-testamento de seu suicídio. “Se é para a felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico”, assegurou D. Pedro I aos que temiam sua volta para Portugal.
Alguém necessita do contexto dessas frases para recordá-las e repeti-las pelos tempos afora? Pelo inverso, teriam elas se tornado imortais se os cronistas que as anotaram não as houvessem retirado do contexto? De outra forma ainda, a frase de efeito, o aforismo, a formulação compacta e impactante não terá mais valor que um texto ou fala inteiros, precisamente pela virtude da concisão?
Marina Silva pede vênia para discordar. Todos os seus colegas políticos, pilhados no desatino verbal, igualmente. Mas não há sílaba de dúvida nessa matéria: extrair citações do contexto e valorizá-las é da natureza mais legítima do jornalismo, porque está no cerne da cultura e da memória coletiva. Quem não gosta que feche a matraca. Ou seja hábil para dizer o que preste.






