O dito e o não dito em jornalismo

O dito e o não dito em jornalismo

Atualizado em 14/05/2008 às 11:05, por Kátia Zanvettor.

O caso da menina Isabella, que foi jogada do sexto andar de um apartamento na zona norte de São Paulo, supostamente pelo próprio pai e madrasta, não só causou comoção nacional como tem merecido cobertura extensa da mídia. Sem desmerecer a necessidade real de cobertura de um caso que pode servir de exemplo e mobilizar a sociedade contra a violência doméstica, queria discutir os casos gritantes de sensacionalismo, com emissoras que passam manhãs e tardes falando indefinidamente do assunto, remoendo dados, trazendo os especialistas dos especialistas, apresentando detalhes banais como furos impagáveis de reportagem.

Mas também quero pedir licença ao leitor para não perder tempo com o que é dito nestes casos delirantes, isso já me parece cansativo demais e propor uma coisa diferente: pensar no é deixado de lado, naquilo que não é dito quando se gasta tanto tempo falando sobre o mesmo assunto. E também, como esse não dizer da mídia deve ser encarado na formação dos jornalistas.

Considerando que é impossível pensar nossa sociedade hoje sem considerar a influência exercida pelos meios de comunicação de massa, seu papel está muito além da simples informação do público, a mídia é, sem nenhuma dúvida, formadora de opinião. Assim, me parece evidente que ao trazer um determinado assunto em detrimento de outro, o jornalista está fazendo muito mais que uma simples seleção de pauta, ele está selecionando os temas que merecem centralidade no debate social. Logo, também fica bastante claro que o que não é dito pela mídia acaba passando por um processo, digamos, de apagamento.

Quando acompanhamos o caso da menina Isabella, por exemplo, ficamos comovidos, queremos entender as motivações, as causas e conseqüências deste acontecimento, este assunto passa a ser parte das nossas "agendas" individuais, falamos sobre isso, discutimos no trabalho, na escola e na família. Vamos circulando idéias, conversando, fazendo inferências, enfim, o assunto é debatido a exaustão. No lado oposto deste processo estão os outros assuntos, que também são importantes e mereceram destaque, mas que acabam sendo esquecidos ou minimizados por falta de cobertura.

Como o caso da absolvição do fazendeiro acusado de ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang. Porque os mesmos canais que acompanharam ao vivo cada dia das famílias envolvidas nesta triste história paulistana não transmitiram ao vivo o julgamento desta outra tragédia? Porque não entrevistaram o juiz e perseguiram os jurados para entender tamanha contradição entre duas decisões sobre o mesmo assunto? Porque esse assunto não mereceu vários especialistas? Este é um e os outros tantos casos de injustiça? Porque eles merecem menos espaço? Bom, uma resposta afoita e verdadeira é que a composição dos meios de comunicação exige, necessariamente, uma seleção. É impossível pensar numa mídia capaz de divulgar todos os assuntos relevantes de uma sociedade.

No entanto essa seleção precisa de um critério e aí mora a resposta para a nossa segunda questão, sobre a preparação do jornalista para lidar com os apagamentos provocados pelos meios de comunicação. Se a mídia faz, necessariamente, uma seleção o segredo está no equilíbrio. Isto é, se o caso Isabela é tão relevante quanto o caso Dorothy os dois deveriam ter um tratamento equivalente e isso não significa só o mesmo tempo no ar, mas principalmente o mesmo tempo de cobertura. Se podemos perder tempo na porta do prédio do casal acusado, para saber se eles almoçaram, jantaram ou saíram, também temos tempo para destacar e acompanhar o caso do julgamento dos algozes da missionária ou outros tantos que são relevantes.

Este equilíbrio tem que ser buscado no dia-a-dia da notícia, mas acredito que ele começa principalmente no aprendizado do jornalista. Nós precisamos preparar repórteres para lidar com os interesses diversos que cercam a notícia e a reconhecer que faz parte do seu trabalho à difícil tarefa da seleção. É preciso desmistificar a idéia de notícia, como se ela surgisse espontaneamente, livre do julgamento e do olhar do outro. Não é verdade, a notícia só vira notícia porque passou por um olhar que a percebeu como tal, ela sai do campo do acontecimento e se torna discurso, construindo valores e verdades de uma sociedade. Este olhar precisa estar livre de preconceitos e ser forte o suficiente para, se não conseguir, pelo menos enfrentar os interesses que pretendem conformar e reduzir a notícia ao lugar comum, banalizando toda a sua importância social.