O direito de fala de quem discorda é sagrado

Liberdade de imprensa contempla o direito universal de opiniões diversas

Atualizado em 12/06/2020 às 07:06, por Sinval de Itacarambi Leão e  editor Revista e Portal IMPRENSA.

Fernando Jorge, jornalista e escritor polêmico, amado por muitos e contestado por outros, gosta de repetir a frase de Voltaire (1694-1778) que dizia: “Não concordo com uma só palavra do que dizeis mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”. O direito à fala é para o iluminismo a razão do discurso libertário e da narrativa jornalística, nela incluído o contraditório.


Dia 3 de junho, semana passada, o New York Times dispensou seu diretor de opinião, James Bennet, vencido pela furiosa pressão da redação contra a publicação, nas páginas de editoriais que Bennet dirigia, de um artigo do Senador do Arkansas, Tom Cotton, emulando o presidente Donald Trump a enviar tropas para sufocar os protestos espalhados em todo os EUA pela morte do cidadão negro Georges Floyd, preso e sob custódia da polícia de Minneapolis.


Crédito: Reprodução FSP



Em editorial, do dia 11/06, a Folha de S. Paulo aponta o erro que o . Lamenta ser “triste que jornalistas, em particular, não compreendam o valor de publicar ideias que contrariem frontalmente, as suas próprias”. Diz mais. A publicação do texto de Cotton “se encaixa perfeitamente nos cânones do livre debate”. Ou seja, no plano jornalístico, Bennet agiu certo.


É oportuna a retomada do affair do NYT pela FSP. “Momentos de emoções à flor da pele não raro descambam para atos obscurantistas“. A pauta antirracista atropelou até a pandemia. É tudo que não poderia ter acontecido nessa crise tripla -- sanitária, econômica e política --, quando a imprensa profissional é atacada pelos radicais de diversas cores. É quando mais se precisa de ideias claras e distintas.


O primeiro ganho do e é retomar a certeza de que o jornalismo só é jornalismo quando livre. Segundo, a doutrina da isenção do jornalismo negando o direito de fala a quem discorda não é defender o jornalismo; é desvirtuar a imprensa.


Por último, o mais importante, é praticar a democracia com a democracia em movimento. A práxis dos jornalistas profissionais é mais complexa do que se aprende nas redações. Juízos de valor dialogam com eixos transversais, misturando ética e ótica, intuições e lógicas, “parem!” e parábola. Mas no final do jogo, prevalece mesmo é a percepção da correlação de forças. O media watcher é sempre o aprendiz do bom senso que tudo vê.


E aprende-se a ver, tudo ouvindo. Para tanto, basta saber perguntar.