O diploma para uma formação humanista
O diploma para uma formação humanista
Defendo, com bastante afinco, o diploma em jornalismo. Não necessariamente pela idéia de reserva de mercado ou, para ser mais exata, por achar que só jornalista deve escrever em jornal ou opinar em diferentes órgãos de imprensa. Essa não é uma realidade plausível com o cenário democrático e o jornal deve ser sim um portador de diferentes vozes, acolhendo opiniões e debates promovidos pelos mais diferentes setores da sociedade.
Mas a defesa do diploma em jornalismo não tem nada a ver com a defesa de que só jornalistas formados escrevam para o jornal e sim, que só jornalistas atuem como jornalistas, nas suas funções variadas. Há uma larga diferença nisso. Uma coisa é um economista escrever um artigo em uma coluna de opinião ou de debate sobre algum assunto da sua área de atuação outra coisa, completamente diferente, é ele escrever uma reportagem, editar uma matéria e operar qualquer procedimento próprio do fazer jornalístico.
Minha defesa pelo diploma está muito menos na reserva de mercado que ele por ventura garantiria do que na qualidade da formação do jornalista. Isso porque acredito que o bom jornalista hoje é formado sim pelas escolas de comunicação e não pelo mercado de trabalho. Mesmo sabendo das dificuldades que a formação acadêmica enfrenta, com um crescente número de escolas despreparadas, currículos defasados, laboratórios desorganizados e a velha desconexão entre os conteúdos e as necessidades do mercado, não podemos prescindir da defesa de uma formação acadêmica de qualidade.
Eu vou além, não só acho que a formação acadêmica é essencial como acredito que ela deveria ser ampliada e consolidada. Com quatro anos de formação básica e mais um ou dois de especialização, assim, o jornalista teria uma base não só da dinâmica da profissão, como também teria a oportunidade de se aprofundar em uma das diferentes especialidades ampliando assim seu conhecimento teórico sobre os temas a serem tratados no processo de apuração e produção da notícia.
Sei que parece meio utópico a idéia de ampliar a formação do jornalista ou então, para os defensores da formação no mercado de trabalho, exagerada e desnecessária. Mas minha defesa se justifica pela forma como interpreto o sentido da profissão, isto é, muito mais próxima de uma carreira humanista do que técnica. Defendo que o jornalismo é uma profissão que trabalha, sobretudo, na construção de sentidos sociais e por isso requer uma preparação mais humana do que técnica.
O papel do jornalista, por mais imparcial que procure ser, não é o de transmitir informações e sim de organizá-las. Inevitavelmente, ao lidar com os acontecimentos sociais os jornalistas o fazem por meio da linguagem que, por natureza, não é transparente e sim carregada de valores culturais.
Logo, a formação humanista em contraste com a formação técnica é àquela que amplia a visão de mundo do futuro jornalista e o prepara para lidar com os efeitos de sentidos provocados pela construção da linguagem e pelas relações de poder que disputam a hegemonia das informações jornalísticas. O ensino de jornalismo não deve ser reduzido ao aprendizado do lead, da pauta e de outros mecanismos técnicos - que realmente podem ser muito bem ensinados em meia hora de redação - ele tem que ser visto para além disso, como uma formação ampla que prepara para lidar com o lado humano da informação.






