O diploma, os monges e o gato

O diploma, os monges e o gato

Atualizado em 19/06/2009 às 02:06, por Rodrigo Manzano.

Nem Freud explica a histeria coletiva que acometeu muitos dos profissionais de redação desde ontem, quando deixou de ser obrigatório o diploma específico de jornalismo para o exercício profissional. Recebi meia dúzia de e-mails, nos últimos dois dias, de alunos, ex-alunos e colegas perguntando o que penso sobre a decisão do STF. Desde 2001, quando a juíza Carla Rister determinou que o diploma não era mais obrigatório, e nesses últimos oito longos anos, foram muitas as circunstâncias em que me perguntavam o que eu achava sobre a reserva de mercado. Como não achava simplesmente nada - é verdade - sempre deixei meus interlocutores frustrados porque me pareciam igualmente bons os argumentos tanto de um lado quanto de outro.

A ver: os que defendiam o diploma estavam instrumentalizados com um nobre argumento, de que a formação superior e qualificada garantiria a também qualificada atuação profissional. Falavam, ainda, de aspectos éticos da atividade, das responsabilidades coletivas e do interesse público. Do outro lado da rua, moram os que entendiam que o diploma era desnecessário e que, na prática, ele não garantia absolutamente nada. E que nada mais justo seria abrir ao cidadão a oportunidade de que pudesse atuar nos ambientes jornalísticos, exercendo, assim, o valioso direito da livre manifestação do pensamento e de expressão.

Pois bem, atentem que não se trata de um duelo de monges por um gato. Explico-me: nas escolas zen budistas japonesas há uma tradição filosófica que chamam de "koan". São como charadas, pequenos diálogos, supostamente travados entre mestres e discípulos, que nos deixam como herança lições particularmente complexas à razão. Um bastante conhecido koan zen-budista conta que certa vez dois monges brigavam pela posse de um gato que aparecera no mosteiro. O superior do monastério, mestre dos monges, chegou, levantou o gato com uma mão e com a outra cortou o pescoço do bichano, matando-o. Ao fazê-lo, dissipou a ilusão de propriedade, de eu, de razão dos monges. Há várias versões para essa história, mas em quase todas o coitado do gato se dá mal no fim. Entendam a analogia: os pró e os contrários à formação específica são os monges. O diploma é o gato.

A discussão em torno do diploma transformou-se em um verdadeiro quiproquó. De repente, tanto sindicalistas quanto patrões nos parecem santos a defender as causas mais nobres do universo. Na peleja, não há santos. É claro que muitas das empresas de comunicação desejam, no fundo, fazer valer seu direito à condução dos negócios da maneira mais lucrativa possível. Sim, empresas precisam e gostam muito de lucro e nos dicionários de gestão, recursos humanos e administração não há a expressão mais-valia. Já vários dos sindicalistas, há muito tempo insignificantes na representatividade profissional, placebos da identidade coletiva, desejam garantir a manutenção da atividade e o controle da categoria. A briga é, no fundo, pelas formas de poder. De um lado, o poder econômico. De outro, o poder político. Empresas e sindicatos discutiam de quem era a propriedade do gato. O gato, sim, o gato morreu.

Dou aulas em cursos de jornalismo há oito anos. O ofício me toma tempo, energia e paciência. Adoro dar aulas: nas classes da universidade vejo o melhor e o pior da raça humana. As salas de aula são selvas onde me encontro com bichos de toda a sorte, mas também me encontro comigo mesmo aos 20 e poucos anos. Se estamos falando de diploma, estamos no fundo falando da experiência do ensino de jornalismo. Existem hoje mais de três centenas de cursos superiores de jornalismo no Brasil. Eles despejam, no mercado, profissionais que, infelizmente, não serão absorvidos pelas redações e pelas assessorias de imprensa, mesmo com a reserva de mercado. Não há vagas para todos. Eu sempre digo aos meus alunos que o primeiro inimigo deles é a tia. A tia - irmã da sua mãe ou irmã do seu pai, tanto faz - é um ser perverso. Quando informada de que o sobrinho estuda jornalismo, ela emenda rapidamente a indefectível pergunta: "Quando vou te ver apresentando o Jornal Nacional, hã?". As minhas foram logo avisadas, no meu primeiro ano de faculdade: "Nunca". Simplesmente porque não me alimento de ilusões. Mas os milhares de jovens estudantes almoçam e jantam ilusões diariamente: as de que, cedo ou tarde, estamparão, com a cara redonda, a tela do televisor no horário nobre.

Já dei aulas para mais de mil alunos. Uma de minhas ex-alunas é a moça do tempo. Ela proclama todos os dias se eu preciso ou não levar um guarda-chuva ao trabalho ou se vai ter sol. Bonita, a moça do tempo fala também em frentes frias, no vento polar e efeito estufa. Essa moça do tempo, eu nunca me esqueço, uma vez me entregou um trabalho de 25 páginas plagiado da internet. Seu método de pesquisa foi o Ctrl c + Ctrl v. Levou zero, chorou, reclamou. Hoje ela me informa se vai chover ou não. Eu nunca acredito.

Também tive alunos ótimos. Éticos, corretos, inteligentes, educados. Investiram todo talento e empenho na sua formação, além do dinheiro pago nas mensalidades do curso. Muitos estão desempregados.

E conheço muitos outros não-jornalistas com quem adoraria trabalhar, porque têm todos os instrumentos básicos que se exigem dos profissionais da redação. São publicitários, designers, comerciantes, que poderiam ocupar o meu lugar com mais competência que eu, mas falta-lhes o que chamam de habilidades técnicas da profissão.

O fim do diploma como requisito fundamental não vai por fim aos cenários acima, nem dos pilantras de beca, nem dos talentosos sem trabalho. E enquanto a discussão for histérica, parcial e apaixonada, estaremos apenas falando em um pedaço de papel carimbado e assinado.