O dia em que levei um tapa na cara

O dia em que levei um tapa na cara

Atualizado em 17/08/2010 às 18:08, por Thaís Naldoni.

Desde criança, lá em Poços de Caldas (MG), sempre ouvi dizer que não havia humilhação maior do que levar um "tapa na cara". Sempre levei isso a sério, pensando no quão esse tapa poderia doer, não na face, mas na dignidade. Até que no final de Junho, recebemos, aqui na redação de IMPRENSA, um vídeo absurdo. Absurdo pela atitude, pela violência, pela covardia, pelo despreparo do agente público, pela impunidade latente. Mas surpreendente pela coragem e postura da jornalista Márcia Pache, repórter da TV Centro-Oeste - filiada do SBT na cidade de Pontes e Lacerda (MT). Ela aguardava em uma delegacia da cidade para entrevistar o vereador Lorivaldo Rodrigues de Moraes (DEM- MT), conhecido como Kirrarinha, que estava sendo indiciado por uma série de irregularidades. Márcia acompanhava de perto o caso, porque havia feito uma série de reportagens que denunciavam os desmandos do político. Quando saía da sala do delegado e foi interpelado pela jornalista, o político a atingiu com um tapa daqueles: seco, sonoro, ardido. Márcia caiu no chão com a pancada, com o susto, mas levantou e tentou continuar o trabalho.
Na porta da delegacia, os colegas que viram a confusão estavam espantados. E perguntaram para o vereador o motivo da agressão. Ele disse: "o motivo são as perguntas que ela faz".
Hoje, um mês e meio depois, a vida de Márcia como profissional segue. Pautas pela cidade de cerca de 50 mil habitantes todos os dias, mas a vida pessoal mudou muito. A jornalista não pode mais levar seus filhos de cinco e 11 anos para a escola. Se chega com eles ao portão, os meninos são hostilizados pelos colegas que dizem: "sua mãe apanhou na cara, sua mãe apanhou na cara".
Quando faz pautas na periferia da cidade, é hostilizada da mesma forma. Em Pontes e Larceda, Kirrarinha é conhecido nas comunidades carentes por "ajudar" a população. Ele diz que é culpa da jornalista a agressão. Quem recebe a "ajuda", acredita.
Ela se sente intimidada, mas não acha justo deixar uma cidade em que gosta de viver, e na qual acredita estar desempenhando um bom trabalho como jornalista, pela postura violenta de um cidadão.
Atualmente, a Câmara de Vereadores da cidade está com Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aberta para apurar a atitude de Kirrarinha. Caso não haja nenhuma conclusão em 90 dias da abertura, que aconteceu antes do recesso parlamentar, o processo será extinto. O vereador arrolou 11 testemunhas para sua defesa. Apenas uma delas estava no local da agressão, seu advogado. E as oitivas já foram adiadas mais de uma vez.
Quando fico sabendo desse tipo de coisa, da impunidade que parece estar cada vez real, da mania brasileiro de deixar passar a indignação e abraçar o conformismo, aquele tapa na cara que Márcia levou dói em mim. Não é possível que uma agressão realizada em frente às câmeras, dentro de uma delegacia, de um político contra uma mulher, fique impune.
O tapa na cara não foi apenas em Márcia, foi em todos os jornalistas sérios do país que, muitas vezes, são intimidados por pessoas que, com qualquer poder na mão, acreditam estarem acima de qualquer lei e qualquer conceito de ética e civilidade.