O despropósito da banana que "desinforma", por Saulo Guilherme Marques (PA)
O despropósito da banana que "desinforma", por Saulo Guilherme Marques (PA)
Jamais, em todos os anais da história jornalística deste Estado, os profissionais da imprensa paraense sentiram-se tão humilhados. Nunca um jornalista, no anteparo dos interesses do seu Estado e do compromisso firmado com os seus leitores a propósito de uma informação de qualidade, foi covardemente agredido num episódio previamente articulado e com o auxílio, este sim o fato dos mais nauseantes, de Policias Militares à paisana. O fatídico episódio que vitimou o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal, em corolário a um artigo publicado neste último no qual realizava-se acerbas argüições referentes ao estridente poder exercido pelas Organizações Romulo Maiorana no Estado do Pará, do qual fazem parte a TV Liberal ( afiliada à Rede Globo), o periódico O Liberal entre outros, o diretor-geral das ORM , Ronaldo Maiorana, sentiu-se na obrigação de desforrar os tais insultos e salvaguardar o aviltado brio da nobre família. Ronaldo, certamente, jamais cogitou que as avarias por ele causada seriam tão estrepitosas, apesar da omissão do Sindicato dos Jornalistas do Pará.
Desencadeou-se então, uma série de altercações referentes as prerrogativas da atividade jornalística, tais como a tão acabrunhada liberdade de expressão, o controverso jornalismo comercial e, ao que parece, o já antanho compromisso com os leitores e espectadores. A partir das discussões de semelhantes acontecimentos estudantes de jornalismo e profissionais veteranos esbarram-se sempre em um não insólito percalço: o jornalismo como porta-voz de interesses políticos e econômicos. Em síntese, não somente o jornalista transformado em refém dos ímpetos do proprietário do jornal, mas, evidentemente, os leitores e espectadores que diante de tal fato tornam-se cativos dos nefastos interesses escusos dos proprietários dos meios de informação.
Para corroborar tal assertiva, basta-nos observar os anais da história política paraense e, sem assombro de dúvida, iremos comprovar que interesses políticos e econômicos sempre caminharam lado a lado com a história da imprensa no Pará. Para tal labor, temos um manancial de exemplos. De início, retornemos ao final do século XIX e início do século XX, período que compreende a consolidação do movimento republicano no Brasil. Especificamente, o ano de 1876 data o início de vida de um dos mais influentes periódicos da imprensa paraense. Trata-se do diário A Província do Pará de propriedade, inicialmente de Joaquim de Assis, e posteriormente do pragmático político Antônio Lemos. Este último transformou A Província em um jornal eminentemente político e panfletário dos interesses de uma elite aristocrática que comandará o Pará por um longo período. È a chamada Oligarquia Lemista, dona de uma miríade de terras produtoras de borracha, principal motor da economia paraense até o término da Segunda Grande Guerra.
Nesta mesma época, uma outra oligarquia, a cacaueira, tornou-se proprietária de um dos jornais, que ao lado de A Província do Pará , compunha o leque de periódicos de grandiosa influência. Falamos da Folha do Norte, periódico panfletário do político Lauro Sodré. Lauro, a partir do esteio da Folha, realizava assaz contendas com o objetivo de derrubar o poderio político de Lemos. O ringue político da época resumia-se no confronto de palavras entre: a Folha do Norte versus a A Província do Pará . Todavia, para se ter um vislumbre da gravidade da contenda, em 30 de agosto de 1912, depois de muitas reviravoltas políticas, os asseclas de Lauro ordenaram a incineração do prédio da Província, decretando ,desta forma, o fim da Oligarquia Lemista e proporcionando um dos maiores ultrajes realizados contra um político paraense. Antônio Lemos foi achincalhado perante à todos os transeuntes das ruas de Belém como o político malogrado e derrotado, tal qual costuma-se realizar nas cerimônias de despojos de guerra.
Doravante, quando da ascensão do "varguismo" no Brasil, e da nomeação de Magalhães Barata, político essencialmente autoritário e populista, para o cargo de governador do Estado, os confrontos de interesse político-econômico na imprensa persistiram. Sob a égide de Paulo Maranhão, a Folha do Norte , representando os interesses das elites insatisfeitas com a ascensão do populismo de Barata, passou a comandar a artilharia de guerra contra o então governador. Diariamente, o jornal expressava-se em editoriais de conteúdo acintoso, criticando ferozmente os feitos políticos do "baratismo". Eis um exemplo vistoso do aranzel, publicado na Folha: "Já é tempo de S. Exa., se ir desrevestindo dessa tendência tão notória por o quero, mando e posso (...). Há de menos ver a luz do dia, quando for possível a imprensa despegar-se da argola do constrangimento em que vive escravizada desde outubro de 1930". E Barata: " Eu o insultarei toda vez que for pelo senhor insultado. Sempre revidei, nunca provoquei. Não espere de mim a menor hesitação no revide, em qualquer terreno. Não me insulte nem me ofenda, para depois acenar, com os seus cabelos brancos, como credenciais para a imunidade ou piedade que não merece". Diante de tais desentendimentos, Barata funda o jornal O Liberal para tentar combater os ataques desferidos por Paulo Maranhão, que por 20 anos será o porta-voz político do PSD baratista. Assim como Á Província do Pará, a Folha do Norte perece de uma fabulosa arapuca. A tropa de choque baratista ajudada pela polícia, metralhou o prédio do jornal e Barata, enfim, livrou-se do seu maior inimigo político.
Em tempos atuais, os tacanhos achaques pelos quais vitimaram a imprensa paraense ao longo de sua história perduram. Hoje, os embates entre jornais estão representados por O Liberal, de propriedade da família Maiorana, cacifes de grande influência sobre a opinião pública e o Diário do Pará, pertencente ao deputado federal Jader Barbalho, notório político paraense reconhecido na imprensa nacional pelas acusações de crimes pecuniários a SUDAM e ao BANPARÁ. Embora tenham sido criados como guarida essencialmente política, a muito ambos travam disputas de cunho comercial-político pela liderança de vendas e prestígio. A mais recente demonstração do confronto evidenciou-se no episódio de agressão sofrida pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, já citado aqui. Quando da agressão, ao contrário de O Liberal que foi acometido de uma afasia e não se manifestou sobre o caso, O Diário despejou evidentes disparos contra o jornal concorrente, demonstrado nas constantes manchetes em primeira página ao longo do litígio . Recentemente, a redação do Diário foi admoestada por Jader no intento de que seus repórteres não comentem mais sobre o assunto.
Condescendência? Logro! Interesse evidentemente político: no pleito de 3 de outubro passado, o primogênito de Jader, Helder Barbalho, elegeu-se prefeito de Ananideua, cidade vicinal a Belém e pertencente a Região Metropolitana, evidenciando mais uma demonstração de amnésia e imbecilidade política de que padecem os eleitores paraenses, rotineiramente enganados por uma propaganda eleitoral brutalmente assistencialista. Comenta-se os interlocultores da poderosa família, que num certo colóquio casual com seu herói, Helder teria solicitado ao seu progenitor "que diminuísse a troca de tiros com os Maiorana para que sua nascente carreira de prefeito não enfrente um caminho cheio de espinhos, que os adversários - comerciais e políticos - já lhe apresentaram", aduziu Lúcio Flávio Pinto no seu quinzenal Jornal Pessoal .
Por fim, concluísse este exíguo artigo citando novamente o ínclito jornalista ignobilmente agredido, que de uma forma simplória porém muito significativa resume todos os achaques que aqui foram levantados: "Quando o negócio da informação se reduz a uma quitanda, o poder jornalístico se torna uma fonte de poder pessoal, imenso para quem o exercita e absolutamente vazio para todos os demais, e a informação, uma banana. É o que, em boa medida, explica o estado de prostração no qual o Pará se encontra, incapaz de entender seu drama, por falta de informações, e submisso à vontade do soba que o manipula conforme seus caprichos".
Tristemente, nós e nossos predecessores vivemos e viveram a era do despropósito, da banana que desinforma. Indagamo-nos, portanto, até quando?






