O denuncismo de Alberto Dines, por Leonardo Attuch

O denuncismo de Alberto Dines, por Leonardo Attuch

Atualizado em 13/07/2005 às 14:07, por Leonardo Attuch*.

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Fiquei chocado ao ler o artigo "Revistas dão vexame e ninguém se incomoda", escrito por Alberto Dines, do Observatório da Imprensa. Ao criticar o suposto denuncismo da imprensa, Dines dá um exemplo cabal de como um jornalista pode ser apressado, leviano e injusto ao se sentar diante de uma folha de papel em branco. Exemplo típico do denuncismo de quem denuncia o denuncismo.
No artigo, Dines aborda o que ele imagina ter sido o modus operandi da entrevista da secretária Fernanda Karina Somaggio à Istoé DINHEIRO. Segue o que ele escreveu:

"A entrevista-bomba de Fernanda Karina, programada para sair em setembro do ano passado, foi engavetada depois da visita de Marcos Valério a Domingo Alzugaray, dono da Editora Três, responsável pela publicação da Istoé Dinheiro. O lobista revelou ainda que pagou R$ 300 mil ao jornalista Gilberto Mansur, funcionário da editora e seu consultor. Menos de 24 horas antes, no programa Observatório da Imprensa na TV, o repórter Leonardo Attuch, autor da matéria com Fernanda Karina, declarava peremptoriamente que a matéria não foi publicada em setembro de 2004 por falta de provas; negava, também peremptoriamente, qualquer encontro com Marcos Valério. O depoimento no dia seguinte de Marcos Valério mostrou que o jornalista mentiu duas vezes: esteve com Marcos Valério e a razão que impediu a publicação daquela bomba não foi a falta de provas, mas o peso dos R$ 300 mil pagos à Editora Três."

São acusações graves e que não podem ficar sem resposta. Como já foi exaustivamente explicado, a entrevista foi feita em duas etapas: setembro de 2004 e junho de 2005. No primeiro momento, não foi publicada por decisão editorial. Karina acusava seu ex-chefe sem provas e não se dispôs sequer a nos enviar sua agenda. Em junho, após as acusações de Roberto Jefferson à Folha de S. Paulo, Karina deixou de ser a acusadora da história e passou a ser a testemunha central do caso. Como qualquer estagiário de direito é capaz de compreender, às testemunhas não cabe provar. Cabe apenas testemunhar. E foi na condição de testemunha que Karina foi apresentada ao leitor da Istoé DINHEIRO.
Dines afirmou ainda que a reportagem não foi publicada em setembro do ano passado em função do lobby de Gilberto Mansur, assessor do publicitário Marcos Valério. É uma mentira deslavada e Dines sequer se deu ao trabalho de checar os dados da CPI. Mansur, que trabalha para as agências de Valério há quase dez anos, recebeu um pagamento de R$ 300 mil em março de 2004. O primeiro contato de Karina com a revista DINHEIRO foi feito seis meses depois, em setembro de 2004. Como alguém pode receber para abafar algo que sequer existia?
Dines afirma que eu menti duas vezes em seu programa, o Observatório da Imprensa. A primeira, por ter negado "peremptoriamente" qualquer encontro com Marcos Valério. Eu não poderia ter negado o que não me foi perguntado. Mas, se a pergunta tivesse existido, eu não teria me omitido. Até porque eu nunca estive com ele. Apenas o vi, de relance, uma única vez na editora. E, se dei um "bom dia" a ele, foi muito. Aliás, o mesmo relato foi feito por Valério na CPI. Minha segunda mentira, segundo Dines, seria não ter revelado no programa a razão pela qual a entrevista não foi publicada nove meses atrás. No programa, eu disse a verdade, ou seja, que a entrevista não saiu por razões editoriais. Eu estaria mentindo se dissesse o que Dines julga ser verdade. Até porque, como já expliquei, como alguém pode abafar uma entrevista inexistente?
Dines disse ainda que a revista Istoé publicou apenas uma pequena e tímida nota sobre o caso Mansur. Mas quem entrevistou a secretária Karina não foi a revista Istoé. Foi a revista Istoé DINHEIRO. E nós, na última semana, dedicamos três páginas ao assunto na reportagem "A versão de Marcos Valério". Desde o começo de toda essa história, cercada de insinuações falsas e sórdidas (dinheiro para publicar, dinheiro para engavetar, dinheiro para entrevistar), temos sido absolutamente transparentes. Foi em nome dessa transparência que, nas últimas duas semanas, fiz questão de falar em duas ocasiões ao Observatório da Imprensa. Lamento apenas que Dines, o novo denuncista da imprensa brasileira, se julgue no direito de tirar conclusões tão precipitadas quanto falsas.

· Leonardo Attuch é editor de economia da Istoé DINHEIRO