O contrato da Copa de 70

O contrato da Copa de 70

Atualizado em 14/06/2010 às 10:06, por Nelson Varón Cadena.

Em meados de 1969, o jornalista Almeida Castro desembarcou na Cidade do México para um encontro reservado com o todo-poderoso empresário Emilio Azcarraga Milmo, "El Tigre", então proprietário de três canais de televisão, várias emissoras de rádio, do estádio Azteca, um imenso patrimônio imobiliário e ainda detentor dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 1970, adquiridos da FIFA por 1,8 milhões de dólares. Almeida Castro representava o grupo dos Diários e Emissoras Associadas e seu objetivo era obter um contrato de exclusividade para a Rede Tupi de televisão.
As conversas evoluíram com a entrada em cena de um outro personagem, Walter Clark, Superintendente da Rede Globo de Televisão que se envolveu no processo, a convite de Almeida Castro, por sugestão do próprio Azcarraga que tinha raízes e negócios nos Estados Unidos e por isso estava muito bem informado sobre a Time-Life e a sua participação acionária na emissora de Roberto Marinho. As negociações foram concluídas com um contrato assinado entre a Televisa, Diários Associados e Rede Globo, mediante o qual as emissoras brasileiras teriam exclusividade para a retransmissão da Copa do Mundo, sem nenhum ônus financeiro, porém cedendo o espaço comercial para Azcarraga inserir patrocinadores mundiais, marcas multinacionais.
Tudo acertado, tudo combinado, os dois desafetos (O senador João Calmon, Presidente dos Associados denunciara no Congresso o acordo Globo/Time-Life) unidos em torno de interesses comuns. Faltou combinar com o Governo que alertado pela Rede Record, excluída do processo e que se considerava prejudicada pelo acordo, interferiu na questão determinando o cancelamento do contrato. Ou seja, faltando seis meses para o início da Copa do Mundo, as negociações voltavam à estaca zero. Almeida Castro e Walter Clark, desta vez representando um consórcio brasileiro de emissoras de televisão, retornaram as conversas com Azcarraga que percebendo a fragilidade dos negociadores pediu 900 mil dólares pelos direitos de transmissão para fechar em 715 mil dólares.
Clark e Castro retornaram ao Brasil com uma idéia fixa na cabeça, repassar o pepino para o Governo. Logo acertaram um contrato com a Caixa Econômica Federal de 1,1 milhões de dólares, da Loteria Federal que seria o patrocinador oficial das transmissões ao vivo. Dava para pagar os direitos de transmissão e bancar os custos operacionais. Negócio fechado. Por pouco tempo. O Governo mais uma vez interferiu no processo cancelando o contrato da Caixa Econômica. No desespero, os representantes do consórcio foram bater na porta da McCann-Erickson e da J.W. Thompson. A primeira entrou com duas cotas de patrocínio que obteve de seus clientes Gillette e ESSO, a segunda contribuiu com uma cota da Souza Cruz. Viabilizando a histórica e pioneira transmissão, via intelsat/Embratel, da Copa do Mundo de 1970, para 30 milhões de telespectadores.
O resto foi acomodar egos e interesses, através de um contrato, assinado pelas emissoras que formaram o consórcio. Nove narradores escalados, nenhum deles poderia aparecer no vídeo e em nenhuma hipótese falar de sua própria emissora. Bobagem. O telespectador fez a sua escolha, girando para a direita, ou para a esquerda, o botão do canal, quatro opções apenas, do seu aparelho de TV.