O conto de Veríssimo no "O Cruzeiro"
O conto de Veríssimo no "O Cruzeiro"
Em 31 de agosto de 1929 a revista O Cruzeiro publicava um conto de um certo Erico Veríssimo, autor emergente gaúcho que estreava na literatura, então, com vinte e cinco anos de idade. Recebeu cem mil reis da editora, o equivalente hoje a mil reais, conforme previa o regulamento do concurso permanente de contos instituído por Malheiro Diaz, diretor da publicação, para atrair o público que apreciava os folhetins dos jornais e buscava o mesmo gênero nas revistas. O conto de Veríssimo foi ilustrado pelo artista Oswaldo Teixeira, membro da Academia de Belas Artes e autor, dentre outras obras, dos retratos em tamanho natural do Presidente Getúlio Vargas e do Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, hoje expostos no Ministério da Fazenda e Igreja da Candelária (RJ) respectivamente.
Os biógrafos de Erico Veríssimo citam o conto do autor, de título "Ladrão de Gado", publicado no "O Cruzeiro, como a sua primeira incursão na literatura e até se debruçam sobre o estilo por alguns classificado de regionalista". Ocorre que esses biógrafos mencionam a publicação do conto na "Revista do Globo" de Porto Alegre, entre 1928 e 1929, há divergências, e nenhum deles cita a publicação em "O Cruzeiro" que a rigor exigia obras originais. Se Veríssimo publicou o mesmo conto, antes, na sua cidade natal, foi no O Cruzeiro que tinha uma circulação mais expressiva e de maior representatividade que de fato o seu nome se projetou.
Entre 400 candidatos
O concurso do O Cruzeiro, enquanto durou, atraiu mais de 400 candidatos, escritores emergentes da capital e dos estados, mas considerando que eram publicados apenas dois contos por edição, pelo menos 300 foram jogados no lixo, ou pelo menos esquecidos. Os interessados deveriam remeter os originais à redação da revista "que funcionará como júri, sendo os autores dignos de publicação, atribuído o prêmio de Rs 100$000 e oferecido um desenho original que o próprio autor escolherá dentre as ilustrações do respectivo conto". Os editores da publicação deixavam claro que o critério de julgamento era mais jornalístico do que literário "isto é, contos de acordo com os moldes e índole de O Cruzeiro".
Mas que ilustrações eram essas que os autores recebiam como prêmio adicional? Na verdade, ilustrações de grande qualidade da autoria de quatro professores eméritos da Escola de Belas Artes: Augusto José Marques Junior (que em Paris freqüentou a Académie de la Grande Chaumière.), Carlos Chambelland (decorador do Pavilhão de Festas da Exposição do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, em 1922), Henrique Cavalleiro (cujo trabalho foi comparado ao de Kees Van Dongen por críticos franceses) e Oswaldo Teixeira (Diretor do Museu de Belas Artes durante 25 anos) todos com prêmios conquistados em exposições nacionais e mesmo na Europa.
Mas, retomando a história que ensejou este artigo tenho duas dúvidas que repasso aos pesquisadores do Rio Grande do Sul, ou mesmo estudiosos da obra de Veríssimo: Primeira: O conto publicado no O Cruzeiro foi o mesmo publicado da Revista do Globo, ou foi reescrito? Segunda: Há a possibilidade, diante das divergências de data, do conto publicado na revista gaúcha ter sido posterior à da revista dirigida por Malheiro Diaz? Qualquer que seja a resposta não lhe tira o mérito da estréia, apenas esclarece as circunstâncias.






