“O contador de histórias”, por Sergio Bialski
Sem dúvida, Putin é um experiente e inveterado contador de histórias. Se são verdadeiras, isso é irrelevante aos olhos de um público interno
Opinião
Storytelling é uma palavra que está na moda, já há tempos, no mundo corporativo e no da comunicação. Na tradução literal, significa ‘contação de história’ e é encarada como uma ferramenta, técnica ou arte de construir uma narrativa, da melhor maneira possível. Embora seu uso seja recente, desde tempos remotos busca-se exercer poder de persuasão sobre o receptor contando-lhe algo que encante, informe e entretenha. O uso das redes sociais como espaços livres para contar algo traduz seu sucesso e alimenta o desejo coletivo de falar e de ouvir o que o outro tem a dizer.
No dia 09/06/2022, após visitar uma exposição dedicada aos 350 anos do czar Pedro, o Grande, o presidente russo, Vladimir Putin, contou a seguinte história: “Pedro, o Grande, travou a Grande Guerra do Norte por 21 anos. Parece que ele estava em guerra com a Suécia, que ele tirou algo deles. Ele não tirou nada deles, ele recuperou o que era da Rússia. Quando ele fundou uma nova capital, São Petersburgo, nenhum dos países da Europa reconhecia aquele território como pertencente à Rússia. Todos consideravam que fazia parte da Suécia. Mas desde tempos imemoriais, os eslavos viviam ali ao lado dos povos fino-húngaros”. Sobre a guerra na Ucrânia, completou: “Aparentemente, também coube a nós devolver o que é da Rússia e fortalecer o país. E se partirmos do fato de que esses valores básicos formam a base de nossa existência, certamente conseguiremos resolver os objetivos que enfrentamos".
Pedro, o Grande, czar cujo legado e história são amplamente conhecidos entre os russos, é o modelo de líder autocrático que Putin há muito deseja ser, razão pela qual sua construção discursiva vai nessa direção, afirmando que as recentes ações militares são plenamente justificáveis, pois a Ucrânia não é uma nação legítima e soberana. Enquanto ferramenta de comunicação estruturada por acontecimentos que apelam a sentidos e emoções, o storytelling de Putin segue os clássicos quatro passos para contar histórias envolventes.
A saber: 1) Anzol: apresenta um mistério, um problema, uma característica marcante de um personagem capaz de fisgar a atenção do público. O anzol russo caracteriza a Ucrânia como um problema, uma “pedra no sapato” que deve ser descartada por um protagonista com pulso forte para enfrentar o Ocidente. Seu nome? Vladimir Vladimirovitch Putin; 2) Foco: apresentado na sequência do anzol, oferece explicações para a história, mantendo a retórica e fazendo com que o público continue a acompanhar o relato. A desmilitarização e desnazificação da Ucrânia são as bases usadas como argumento para justificar as atrocidades praticadas; 3) Provas: buscam dar veracidade ao relato, apropriando-se de dados estatísticos ou explicações de fontes técnicas. Neste quesito, a imprensa estatal russa é pródiga em repetir a falácia e os números sobre supostos cidadãos russos mortos e oprimidos, na região de Donbass, pelo inimigo ucraniano; 4) Resgate: ocorre em um final tão elaborado quanto o começo, muitas vezes fazendo remissão ao início, caracterizando uma estrutura circular. Aqui se apela ao “heróico destino da nação russa”, que só pode ser resgatado com a guerra, ou, segundo o eufemismo utilizado, com a “operação militar especial” para solapar a soberania ucraniana.
É bem sabido que o jornalismo trabalha com fatos, tem absoluto compromisso com a verdade e sempre apresenta a melhor versão possível de algo que ocorreu, após a apuração com diversas fontes. A narrativa é a essência do jornalismo e, nas palavras de Ricardo Kotscho, o “repórter, no fundo, é um contador de histórias da vida presente”. Narrativas, contudo, são construções de fatos e é aí que mora o perigo, afinal, a imprensa estatal russa legitima as políticas do Kremlin e reproduz histórias que, de tão inverossímeis que são, levaram a ONG Repórteres Sem Fronteiras a considerar o jornalismo independente, na Rússia, como uma “arte marcial”, pois a mediação do regulador de comunicações Roskomnadzor multa e pune regularmente empresas de mídia que não excluem o conteúdo que o Kremlin considera ilegal. Para se ter ideia, uma pesquisa da fundação Körber, em 2017, chegou à conclusão de que 76% dos russos entrevistados pensavam que a tarefa da imprensa era apoiar o governo em seu trabalho e em suas decisões. Vale lembrar que a fundação Körber é uma organização sem fins lucrativos, criada em 1959 pelo empresário alemão Kurt A. Körber, que discute temas atuais importantes e desenvolve projetos operacionais sobre questões sociais e políticas, tendo respaldo global e legitimidade.
alienado pelo poder estatal. E o Kremlin, com sua catedral que ostenta cúpulas douradas, vastos muros, salões cintilantes e uma arquitetura de intimidação, continua a ser, como tem sido desde os tempos de Ivan o Terrível, a representação mais bem-acabada de um grandioso teatro de horrores, que banaliza a violência e impõe a censura e o medo como atores principais de sua mórbida peça.
*Sobre o Professor : Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





