"O caso Zara teve repercussão porque jornalistas vestem essa marca", diz Sakamoto

Foi inevitável, no mesmo instante em que o programa "A Liga" exibia flagras de confecções que mantinham trabalhadores escravos, asmanifestações mencionando a rede espanhola Zara se multiplicavam no Twitter.

Atualizado em 05/09/2011 às 09:09, por Luiz Gustavo Pacete.

em que o programa "A Liga", da Band, exibia flagras de confecções que mantinham trabalhadores escravos, as manifestações mencionando a rede espanhola Zara se multiplicavam no Twitter. Naquela semana do começo de agosto o assunto seria o mais comentado da rede social. A repercussão foi em função da denúncia do programa, em conjunto com o site Repórter Brasil, dirigido pelo jornalista Leonardo Sakamoto.
Agência Brasil Leonardo Sakamoto
O conteúdo da matéria mostrava a ação do Ministério Público para combater o trabalho escravo. Além de lojas de confecção no interior de São Paulo e na região do Brás, onde foram encontrados cidadãos bolivianos em estados deploráveis, casos de pessoas em más condições na construção civil também foram noticiados. "Nosso trabalho foi o mesmo de sempre: conseguir pautar e contribuir para que os colegas da imprensa desenvolvam este tipo de matéria denunciando o que vem acontecendo no Brasil", diz Sakamoto. Ele conta que a reportagem resultou de um acordo entre o Repórter Brasil, da BBC, e o programa "A Liga". Os dois divulgaram as informações de forma coordenada.
Sakamoto tenta responder por qual motivo o caso Zara gerou tanta repercussão. "Outros casos parecidos já aconteceram com a Marisa e as Pernambucanas, mas só a Zara deu tanto barulho. Percebemos que os fatores podem ter sido o fato de ser uma marca de classe média, feita para um público que consome comunicação e está nas redes sociais. Outra questão importante: a Zara veste jornalistas".

O repórter também destaca que a relação entre os consumidores e a marca agravou a situação, já que quem escreve também veste a marca e se sentiu lesado por comprar um estilo de vida que não condiz com a atitude da empresa.
Sakamoto afirma que não se deve olhar para o jornalismo com a visão romântica da imparcialidade, e que este caso mostra a força dos jornalistas indignados. "Achar que o jornalista que está produzindo a informação é imune ao que acontece no entorno dele é um grande engano". Sakamoto lembra que o fato de o programa "A Liga" fazer sucesso entre os jovens também contribuiu para o assunto liderar os trending topics, ranking que mostra quais temas estão sendo citados no Twitter. Para Sakamoto, o que realmente fez o assunto virar assunto das emissoras de TV, portais de notícia, dos impressos e dos correspondentes foi a repercussão nas redes sociais junto com a matéria inicial divulgada na TV.
O jornalista destaca que, em termos de gerenciamento de crise, a Zara acertou em ter assumido a responsabilidade e não negar a existência do trabalho escravo. "Agora, eles escorregaram em ter jogado a culpa para o fornecedor, já que é muito claro que eles são responsáveis". Para Sakamoto, com esse episódio, a cobertura sobre trabalho escravo no Brasil só tem a ganhar. "O tema liberdade e direitos humanos é 'muito caro' para os jornalistas, o que contribui para intensificar as coberturas sobre trabalho escravo", conclui.

Leia mais