"O bom fotógrafo consegue fotografar de qualquer jeito", diz Rui Mendes
"O bom fotógrafo consegue fotografar de qualquer jeito", diz Rui Mendes
O fotógrafo Rui Mendes foi testemunha privilegiada de um dos movimentos culturais mais ricos e importantes da história recente do Brasil: a explosão do rock na década de 1980 - fenômeno que será resumido em livro-fotografia, a ser lançado no ano que vem, com nome provisório de "Música".
| Rui Mendes |
| Bezerra da Silva |
"Por sorte ou não", como o próprio gosta de ironizar, viu-se no meio do "olho do furacão" do movimento ao perceber que, na carteira ao lado, em uma das salas de aula da Escola de Comunicação e Artes da Universidade São Paulo (USP), estava um jovem estudante de Jornalismo que se tornaria um dos ícones da década, o ex-vocalista da banda RPM, Paulo Ricardo. A partir desta proximidade casual, não só o rock, mas a música nunca mais sairia do foco das lentes de Mendes.
Desde sua estreia no seguimento musical, em 1982, fotogrando para a extinta revista Pipoca Moderna as bandas Ratos de Porão e a finada Ira!, Mendes passou pelos mais importantes veículos que cobriam o tema. Entre eles, a revista Bizz, na qual firmou-se como fotógrafo principal. "E foi aí que eu fiz muito rock", conta.
| Rui Mendes |
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| Ira! |
Ao ser questionado se deseja fotografar algum artista da atualidade, Mendes não faz uso de sua moral adquirida durante seu quase estudo científico da música brasileira. "Ih, cara, tá difícil, viu?!", exclama Mendes em um tom levemente desiludido.
Em seus trinta anos de carreira, apenas um artista recusou-se a ser fotografado. Com absoluto humor, Mendes conta que, nos anos 1980, seu estúdio ficava em uma casa, no bairro do Bexiga, primorosamente localizada entre um terreiro de umbanda e um cortiço. O perfil "eclético" de seus vizinhos causou desconforto em um dos ídolos da época que, ao repreender o fotógrafo pelo "clamor" da vizinhança, recebeu a seguinte resposta. "Ah, fica quieto que daqui a pouco eles vão tocar uma sua".
| Rui Mendes |
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| Chico Science |
Indignado, o "galã" levantou e foi embora. A gravadora, constrangida pela atitude pouco profissional do artista, cumpriu o acordo com Mendes e depositou o valor acertado para a foto que ilustraria a capa do cantor. "Pagando, tá bom!", diz Mendes sobre o episódio que, ao que parece, não lhe causou qualquer desgosto.
Atualmente, o que chateia Mendes é a depreciação da fotografia em detrimento dos avanços tecnológicos que, em sua opinião, baratearam os "cliques" e banalizaram o compromisso com o profissional. "Um fotógrafo profissional tem horário para fazer a foto. Um amador pega uma câmera digital boa e sai metralhando tudo. Uma hora ele, claro, consegue alguma coisa boa, e aí ele vai e cobra uma mixaria pelo trabalho".
| Rui Mendes |
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| Raul Seixas |
Indagado se a digitalização do mercado causou incômodo por conta da adaptação forçada, Mendes observa que demorou cerca e um ano para se acertar, mas que sente-se absolutamete à vontade com as novas tecnologias, tanto porquê, segundo afirma, o "bom fotógrafo consegue fotografar de qualquer jeito".
Sobre seu projeto Música, Mendes conta que ainda estuda propostas de empresas tendo como base a Lei Rouanet. O livro reunirá cerca de 120 fotos e terá textos de amigos do fotógrafo que tiveram participação, como espectadores ou agentes, da música brasileira, sobretudo do rock, nas últimas três décadas. Por ora, contribuirão com a obra de Mendes nomes como Luis Caversan, Marcelo Rubens Paiva, Bia Abramo, Claudio Tognolli, Eduardo Logullo e Alex Antunes.
| Rui Mendes |
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| Renato Russo |
Além de tocar o projeto, Mendes participa de um estande da Casa Cor 2009. À convite de uma arquiteta, o fotógrafos expôs algumas de sua fotografias em um dos ambientes simulados da exposição. Após forar uma parede com parte daquelas obras que considera cruciais em sua obra, Mendes avalia que a venda de fotografias como peça de decoração pode ser uma alternativa lucrativa aos fotógrafos que buscam alternativas à grande imprensa.
*Foto home: Banda RPM
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