"O blogueiro rompe com a inércia e se converte em símbolo de esperança", diz historiadora cubana
"O blogueiro rompe com a inércia e se converte em símbolo de esperança", diz historiadora cubana
Atualizado em 29/10/2010 às 16:10, por
Luiz Gustavo Pacete/ Redação Revista IMPRENSA e de Havana (Cuba).
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A historiadora de Havana Miriam Celaya, nascida em outubro de 1959, ano da Revolução Cubana, utilizou a internet pela primeira vez na vida em 2005. Apesar do pouco tempo de contato com a plataforma, Miriam faz parte de um novo grupo de intelectuais cubanos que, mesmo que inicialmente sem muita familiaridade com a internet, passou a ter a web como principal ferramenta de comunicação.
Formada pela Universidade de Havana e com especialização em História da Arte e antropologia no instituto Academia de Ciências, onde atuou por mais de 20 anos, Miriam foi responsável por dirigir estudos sobre a etnia aborígine Tainá, arte pré-hispânica antilhana e temas de religião, sociedade e identidades culturais.
Porém, em 2005, renunciou ao seu trabalho oficial. O que aconteceu é que ela dirigia um projeto sobre Gênero e Identidade e vinha publicando artigos de opinião em um site utilizando pseudônimos e atuando clandestinamente como membro do conselho de redação da revista digital "Encuentro en la Red". Enquadrou-se no grupo de pessoas que fazem propaganda anti-revolução. A acadêmica falou com IMPRENSA sobre a importância e o impacto do blog em sua carreira e atual situação da opinião em Cuba.
IMPRENSA - O que te levou a ter um blog? Miriam Celaya - Conheci o que era um blog e a possibilidade de administrar um em 2005, assim que renunciei ao trabalho oficial. Eu publicava com o pseudônimo de Eva González na revista digital "Encuentro en la Red". Membros da revista me sugeriram a criação de um espaço digital onde eu pudesse me expressar livremente, sem censores. Não pensei duas vezes. Em pouco tempo fui treinada nos conhecimentos necessários, já que possuímos limitação de acesso a internet em Cuba. Nunca havia navegado na internet.
IMPRENSA - Atualmente qual a realidade de muitos acadêmicos como você que estão aderindo aos blogs? Miriam - São tantos pontos de vista e histórias, porém a realidade de qualquer blogueiro alternativo é a mesma de que qualquer cidadão cubano, com o ingrediente adicional do risco que correm todos os que se atrevem a desafiar o poder onipresente da ditadura que se apropriou do poder meio século atrás. Um blogueiro alternativo possui as mesmas carências, angústias e circunstâncias que outro cubano, porém se distingue por sua vontade de vencer o medo e se expressar publicamente. O blogueiro rompe com a inércia e se converte, queira ou não, em símbolo de esperança. A blogosfera alternativa em Cuba está criando nichos de pensamento das mais diversas manifestações: existem blogs de opinião, de crônicas, de fotografia, de literatura, de denúncia, de antropologia...Temáticas tão diversas como são nossos problemas.
IMPRENSA - Existe algum tipo de pressão? Miriam - Nos últimos meses estamos assistindo a um incremento da pressão e da repressão contra os blogueiros independentes. Do meu ponto de vista, isso só pode responder ao temor das autoridades: somos um setor crescente da população cubana que está questionando o poder da ditadura ao quebrar o cerco da censura oficial. Os blogueiros estão utilizando a tecnologia para burlar o monopólio oficial sobre os meios de comunicação e também estamos criando espaços de opinião e intercâmbio na incipiente sociedade civil, estamos erguendo pontes frente às limitações de acesso à internet. Cada vez mais cubanos nos conhecem e divulgam nossos trabalhos.
IMPRENSA - Os blogueiros cubanos estão conseguindo se reunir? Miriam - Sim, ainda que as autoridades tenham tentado criar obstáculos em nossas atividades e estão pressionando de diferentes formas muitos de nós. Por vários meses, entre 2008 e 2009, tivemos o Blogger, que foi o antecedente direto da atual "Academia Blogger" e teve um caráter mais experimental, com muito de improvisação. Porém, permitiu dar um impulso fundamental a blogosfera. O grupo surgiu pela necessidade de treinar um número progressivo de cubanos independentes, sobretudo jovens, interessados em criar um blog e aprender a administrar.
IMPRENSA - A realidade de Cuba em relação a liberdade de expressão está longe de mudar? Miriam - Diria que já começou uma mudança discreta, não por vontade política do governo, que tem sido o artífice da censura, mas pela vontade espontânea e cidadã de um crescente número de cubanos que decidiram se expressar livremente sem perder licença, em um meio que escapa do controle totalitário do regime: Internet. Isso está criando espaços de debate e de sociedade civil independente em que as pessoas começaram a exercer sua opinião. Não creio que as autoridades vão ceder de bom grado ante a nova realidade.
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| Divulgação |
| Miriam Celaya |
Formada pela Universidade de Havana e com especialização em História da Arte e antropologia no instituto Academia de Ciências, onde atuou por mais de 20 anos, Miriam foi responsável por dirigir estudos sobre a etnia aborígine Tainá, arte pré-hispânica antilhana e temas de religião, sociedade e identidades culturais.
Porém, em 2005, renunciou ao seu trabalho oficial. O que aconteceu é que ela dirigia um projeto sobre Gênero e Identidade e vinha publicando artigos de opinião em um site utilizando pseudônimos e atuando clandestinamente como membro do conselho de redação da revista digital "Encuentro en la Red". Enquadrou-se no grupo de pessoas que fazem propaganda anti-revolução. A acadêmica falou com IMPRENSA sobre a importância e o impacto do blog em sua carreira e atual situação da opinião em Cuba.
IMPRENSA - O que te levou a ter um blog? Miriam Celaya - Conheci o que era um blog e a possibilidade de administrar um em 2005, assim que renunciei ao trabalho oficial. Eu publicava com o pseudônimo de Eva González na revista digital "Encuentro en la Red". Membros da revista me sugeriram a criação de um espaço digital onde eu pudesse me expressar livremente, sem censores. Não pensei duas vezes. Em pouco tempo fui treinada nos conhecimentos necessários, já que possuímos limitação de acesso a internet em Cuba. Nunca havia navegado na internet.
IMPRENSA - Atualmente qual a realidade de muitos acadêmicos como você que estão aderindo aos blogs? Miriam - São tantos pontos de vista e histórias, porém a realidade de qualquer blogueiro alternativo é a mesma de que qualquer cidadão cubano, com o ingrediente adicional do risco que correm todos os que se atrevem a desafiar o poder onipresente da ditadura que se apropriou do poder meio século atrás. Um blogueiro alternativo possui as mesmas carências, angústias e circunstâncias que outro cubano, porém se distingue por sua vontade de vencer o medo e se expressar publicamente. O blogueiro rompe com a inércia e se converte, queira ou não, em símbolo de esperança. A blogosfera alternativa em Cuba está criando nichos de pensamento das mais diversas manifestações: existem blogs de opinião, de crônicas, de fotografia, de literatura, de denúncia, de antropologia...Temáticas tão diversas como são nossos problemas.
IMPRENSA - Existe algum tipo de pressão? Miriam - Nos últimos meses estamos assistindo a um incremento da pressão e da repressão contra os blogueiros independentes. Do meu ponto de vista, isso só pode responder ao temor das autoridades: somos um setor crescente da população cubana que está questionando o poder da ditadura ao quebrar o cerco da censura oficial. Os blogueiros estão utilizando a tecnologia para burlar o monopólio oficial sobre os meios de comunicação e também estamos criando espaços de opinião e intercâmbio na incipiente sociedade civil, estamos erguendo pontes frente às limitações de acesso à internet. Cada vez mais cubanos nos conhecem e divulgam nossos trabalhos.
IMPRENSA - Os blogueiros cubanos estão conseguindo se reunir? Miriam - Sim, ainda que as autoridades tenham tentado criar obstáculos em nossas atividades e estão pressionando de diferentes formas muitos de nós. Por vários meses, entre 2008 e 2009, tivemos o Blogger, que foi o antecedente direto da atual "Academia Blogger" e teve um caráter mais experimental, com muito de improvisação. Porém, permitiu dar um impulso fundamental a blogosfera. O grupo surgiu pela necessidade de treinar um número progressivo de cubanos independentes, sobretudo jovens, interessados em criar um blog e aprender a administrar.
IMPRENSA - A realidade de Cuba em relação a liberdade de expressão está longe de mudar? Miriam - Diria que já começou uma mudança discreta, não por vontade política do governo, que tem sido o artífice da censura, mas pela vontade espontânea e cidadã de um crescente número de cubanos que decidiram se expressar livremente sem perder licença, em um meio que escapa do controle totalitário do regime: Internet. Isso está criando espaços de debate e de sociedade civil independente em que as pessoas começaram a exercer sua opinião. Não creio que as autoridades vão ceder de bom grado ante a nova realidade.






