O antes da entrevista, por Silvia Bessa
Seu Zé Pequeno avisou à família que tinha visita na comunidade quilombola de Barreiro, em Coremas (Sertão da Paraíba). Aumenta o feijão. Peg
Atualizado em 02/06/2014 às 13:06, por
Silvia Bessa.
Crédito:Leo Garbin a a carne que ficou exposta ao sol para dessalgar e assa mais um pedaço. São duas pessoas. Distribua o recado para os vizinhos: foram suspensas, por duas horas, as viagens do barco que percorre os 54 quilômetros do açude e que aproxima a ilha à terra firme. “Não, obrigada pelo convite para a refeição. Estou sem fome”, eu disse, realmente agradecida.
Já tínhamos tomado um café da manhã reforçado. Zé Pequeno, cujo nome de batismo é José Jorge, ignorou a recusa e o argumento mais que verdadeiro. Mandou-nos sentar. Atendemos à quase ordem do homem que trabalha como guardião daquelas terras e daquela gente. Ficamos com a família numa mesa de madeira reaproveitada, ganhei um prato duralex marrom, colher e faca. Dividimos a charque acebolada, o feijão e o arroz.
Há poucos dias, fui conversar com uma turma de estudantes de jornalismo e um jovem queria saber como é minha alimentação quando viajo para o interior do Nordeste. Pergunta nova no repertório. O rapaz tinha curiosidade se eu fazia refeições nas residências de entrevistados; ou talvez quisesse entender a relação entre repórter e fonte em casas pobres. Almoço, lancho ou janto o que a família oferecer, exceto casos extraordinários. Se notar insistência, aí é que aceito, mesmo tendo comido num restaurante, hotel e que esteja sem fome. Acho que, ao comer do feijão da família, o entrevistado tende a se sentir prestigiado; e a recusa pode soar como desfeita. É um código social dos grotões do Nordeste. Eu respeito e acho que só ganhamos com isso.
Da turma, surgiram outras dúvidas sobre como lidar com as fontes, como abordá-las, como conseguir uma boa entrevista. Cada profissional cria suas próprias soluções. Para mim, o ponto de partida é mostrar naturalidade diante do que vemos, buscar certa igualdade na relação, sobretudo, lidando com cidadãos mais humildes – algo que faço com frequência pelo viés social de pautas que proponho. Tenho quase uma obsessão em evitar uma relação de poder, sendo o entrevistado de classes mais humildes.
Penso ainda que vestir sem ostentação garante a aceitação de alguém que não está ali para impor condições do alto de seu diploma, e que quer apenas uma boa história. Evitar o gravador durante os primeiros contatos, na maioria das situações, demonstra que houve interesse na construção de uma relação – ainda que, pela dinâmica do trabalho, a relação se torne passageira. Posturas simples, como sentar num pedaço de calçada quebrada e sobre um alpendre ou à mesa com a família de Seu Zé Pequeno, estabelece uma espécie de parceria entre jornalista e fonte. Posso assegurar: o antes tem poder de determinar o durante e o depois das entrevistas.

Já tínhamos tomado um café da manhã reforçado. Zé Pequeno, cujo nome de batismo é José Jorge, ignorou a recusa e o argumento mais que verdadeiro. Mandou-nos sentar. Atendemos à quase ordem do homem que trabalha como guardião daquelas terras e daquela gente. Ficamos com a família numa mesa de madeira reaproveitada, ganhei um prato duralex marrom, colher e faca. Dividimos a charque acebolada, o feijão e o arroz.
Há poucos dias, fui conversar com uma turma de estudantes de jornalismo e um jovem queria saber como é minha alimentação quando viajo para o interior do Nordeste. Pergunta nova no repertório. O rapaz tinha curiosidade se eu fazia refeições nas residências de entrevistados; ou talvez quisesse entender a relação entre repórter e fonte em casas pobres. Almoço, lancho ou janto o que a família oferecer, exceto casos extraordinários. Se notar insistência, aí é que aceito, mesmo tendo comido num restaurante, hotel e que esteja sem fome. Acho que, ao comer do feijão da família, o entrevistado tende a se sentir prestigiado; e a recusa pode soar como desfeita. É um código social dos grotões do Nordeste. Eu respeito e acho que só ganhamos com isso.
Da turma, surgiram outras dúvidas sobre como lidar com as fontes, como abordá-las, como conseguir uma boa entrevista. Cada profissional cria suas próprias soluções. Para mim, o ponto de partida é mostrar naturalidade diante do que vemos, buscar certa igualdade na relação, sobretudo, lidando com cidadãos mais humildes – algo que faço com frequência pelo viés social de pautas que proponho. Tenho quase uma obsessão em evitar uma relação de poder, sendo o entrevistado de classes mais humildes.
Penso ainda que vestir sem ostentação garante a aceitação de alguém que não está ali para impor condições do alto de seu diploma, e que quer apenas uma boa história. Evitar o gravador durante os primeiros contatos, na maioria das situações, demonstra que houve interesse na construção de uma relação – ainda que, pela dinâmica do trabalho, a relação se torne passageira. Posturas simples, como sentar num pedaço de calçada quebrada e sobre um alpendre ou à mesa com a família de Seu Zé Pequeno, estabelece uma espécie de parceria entre jornalista e fonte. Posso assegurar: o antes tem poder de determinar o durante e o depois das entrevistas.






