Novo livro de Gabriel Priolli contextualiza trajetória de 35 estrelas da TV brasileira

Com larga experiência como crítico e diretor de televisão, o veterano jornalista Gabriel Priolli, único colaborador da revista IMPRENSA que está desde a sua fundação, 35 anos atrás, lança em São Paulo, neste domingo (18/9 - Dia da Televisão Brasileira), seu novo livro Astros em Trânsito (192 páginas, editora Terra Redonda, R$58).

Atualizado em 15/09/2022 às 09:09, por Leandro Haberli.

Focada em 35 estrelas da televisão brasileira, a obra apresenta uma seleção comentada e contextualizada de textos que o próprio Gabriel escreveu entre 1980 e 2005, quando atuou como crítico de TV em grandes veículos de imprensa do país.
Com capa de Beto Borges e ilustração e diagramação de Sergio Papi, o livro será lançado no restaurante Canto Madalena, que oferecerá no almoço um buffet temático cujo prato principal é o Filé a Chateaubriant (receita criada pelo restaurante do Grande Hotel de Araxá para seu constante frequentador Assis Chateaubriand, considerado o fundador da TV no Brasil).
Apaixonado por astronomia desde a infância, Priolli não faz analogia ao tema apenas no título do livro. As reportagens, entrevistas, críticas e análises foram organizadas por ele em cinco unidades com temáticas astronômicas: Big-Bang, para as estreias e novas fases; Magnitude, os períodos de brilho; Oscilações, as viradas e polêmicas de carreira; Eclipse, as sombras no percurso; e Extinção, os últimos instantes da trajetória.
Na divisão de acordo com a categoria profissional das estrelas retratadas, o time de apresentadores tem nomes como Silvio Santos, Hebe Camargo, Fausto Silva, Ana Maria Braga, Gugu Liberato, Chacrinha, Astrid Fontenelle, Rolando Boldrin, Serginho Groisman e Idalina de Oliveira. Na parte de humoristas estão Jô Soares, Dercy Gonçalves, Chico Anysio e Henfil. Os locutores esportivos incluem Luciano do Valle e Silvio Luís. Dentre os ícones do telejornalismo, Cid Moreira, Marília Gabriela, Bóris Casoy e Paulo Henrique Amorim. Há ainda nomes do vídeo e da política, como João Dória e Marta Suplicy, além de roteiristas e diretores como Dias Gomes, Janete Clair, Glória Perez e Walter Avancini.
Na entrevista a seguir, Gabriel Priolli fala mais sobre o processo de elaboração de Astros em Trânsito, analisa o atual cenário da crítica televisiva feita no Brasil e ainda fala sobre o pioneirismo da revista IMPRENSA dentre os veículos brasileiros especializados na cobertura da imprensa. Crédito:Reprodução Terra Redonda Portal IMPRENSA - Como você selecionou os 35 personagens do livro?
Gabriel Priolli - Eu fiz um levantamento da minha produção ao longo da vida como crítico, repórter, editor, colunista. Eu já estou velho, naquela idade de tentar deixar um legado. Foi quando eu percebi que o grosso da minha produção sobre televisão não focava em personagens, que é a forma mais tradicional de fazer uma cobertura sobre televisão. A ligação mais forte das pessoas com a televisão é através das personalidades, dos artistas. No meu material, embora não tivesse muita coisa focada em pessoas, no conjunto da obra, tinha um material razoável nesse sentido. Aí eu fiz uma triagem em cima desse material, com a ideia de fazer um livro que não fosse técnico nem específico para quem é do trade, ou seja, estuda e trabalha com televisão. A ideia era fazer uma comunicação mais ampla. Com essa ideia eu selecionei os 35 personagens. Como colunista de TV diário do Jornal da Tarde por 2 anos, evidentemente falei de Deus e o mundo. Mas eram notinhas de 3, 5 linhas. Não era o caso de usar. Eu selecionei o material a partir de críticas, reportagens, entrevistas, pensatas. Enfim, textos em que o artista era sempre o foco. Esse foi o critério fundamental.
Portal IMPRENSA - Em que período o material que deu origem ao livro foi produzido?
Gabriel Priolli - Minha produção como jornalista especializado em TV concentra-se entre 1980 e 2005. Depois eu fui fazer outras coisas, eventualmente escrevi sobre televisão para a própria revista IMPRENSA e outros veículos. Porém, não mais como um trabalho regular. Então, esses 35 personagens também foram recortados temporalmente.
Portal IMPRENSA- Além desse trabalho de pesquisa e contextualização dos seus textos, você fez entrevistas para o livro?
Gabriel Priolli - Não. Eu não fiz nada novo. Quando eu estava trabalhando com material de épocas muito distintas, o que eu fiz foi um trabalho de contextualização dos artigos. Todos eles têm uma introdução, onde eu explico o contexto em que eu produzi aquele artigo. Onde eu estava, como pintou. Além dessa introdução, eu coloco notas que contextualizam expressões ou informações que são citadas no texto e podem não fazer sentido para um jovem leitor, pois saíram do discurso jornalístico corrente. Isso inclui gírias antigas, expressões ligadas a um artista. Por exemplo, eu explico que Velho Guerreiro é o Chacrinha e que esse apelido está citado em uma canção do Gilberto Gil. Eu encho o livro de pequenas notas, mas não são notas de livro acadêmico. Nada disso. Elas têm um certo humor, um pouco de ironia.
Portal IMPRENSA - Por que o nome Astros em Trânsito?
Gabriel Priolli - O livro é dividido em cinco unidades. Quando eu reuni os artigos, notei que eles eram sobre estreias, apreciações post-mortem, crises na carreira, fases de grande sucesso. Daí surgiu essa ideia de trânsito astral.
Portal IMPRENSA - O livro é repleto de analogias sobre astronomia. Você gosta do tema?
Gabriel Priolli - Demais. Eu sou um baby boomer. Nasci em 1953. Minha grande paixão foi a corrida espacial. A molecada pirava com a disputa União Soviética x Estados Unidos. Eu era completamente apaixonado por astronautas. Sonhava com isso. Sabia o nome de todos os astronautas, dos foguetes. Eu e outros moleques iguais a mim. Mas a expressão astros em trânsito, na verdade, vem da astrologia. Porém, isso não me interessa. Eu gosto mesmo de astronomia. Principalmente da base científica do tema.
Portal IMPRENSA - Como você analisa a crítica televisiva feita hoje?
Gabriel Priolli - Ela evoluiu, surgiu gente nova, se diversificou muito. A cobertura de televisão cresceu enormemente. Hoje temos uma crítica mais voltada à leitura de programas, com um olhar mais popular e foco na performance das atrações e dos artistas. Também temos uma crítica um pouco mais técnica, mais ligada ao negócio, pensando mais na linguagem e mais ligada à visão acadêmica. Eu acho que evoluímos na crítica televisiva de um modo geral. Eu tenho a pretensão, junto com alguns pioneiros, como o Artur da Távola no O Globo, a Liane Alves no Estadão, de ter contribuído para isso. Para formar gente, ou para fazer os colegas perceberem que podiam ampliar o espectro da crítica televisiva. Quando eu comecei, não se escrevia sobre o negócio televisivo. O foco era muito na disputa por audiência. Não se falava sobre investimentos, associações entre grupos para ampliação de redes. Aliás, era difícil abordar esses temas, pois eles mexem com interesses empresariais. Na época só a Globo tinha jornal em televisão, rádio. Não havia a integração que tem hoje. A televisão roubava anunciantes dos jornais. Por isso não queriam que a gente ficasse enchendo a bola da televisão. Era difícil, eu tinha que rebolar para vender certas pautas. Mas, com muita dor de cabeça, foi possível.
Portal IMPRENSA - Por que você escolheu o Mauricio Stycer para assinar o prefácio?
Gabriel Priolli - Quando eu reeditei o livro Campeões de audiência, que é uma biografia do Walter Clark, eu pedi para a Cris Padiglione fazer a orelha. O Maurício é um colega da área, eu sabia que ele ia entender e situar muito bem para os leitores o conteúdo. É um cara que eu respeito muito, acho que é um dos melhores colunistas que nós temos. Além disso, tenho uma relação pessoal muito boa com ele.
Portal IMPRENSA - Ele destaca que você incluiu no livro personalidades que vão além do seu gosto pessoal. Você teve essa preocupação?
Gabriel Priolli - Sim, eu sempre fiz isso. Quando eu comecei a escrever críticas, em 1980, eu vinha da televisão. Eu havia trabalhado 5 anos na TV Cultura. Eu me ressentia muito de trabalhar num veículo como esse, que é uma TV educativa, e perceber que a crítica de televisão da época era muito restrita. A cobertura era muito na base da crônica. Por isso eu acabei escrevendo pouco sobre astros e estrelas. Eu tentei pensar fora desse ângulo. Minha ideia era falar sobre indústria da televisão, negócio televisivo, a questão técnica. Tinha muita gente cobrando de nós que fazíamos televisão coisas impossíveis. Um diretor de televisão não é igual um diretor de cinema. É uma indústria com uma conformação completamente diferente. Isso rolava direto. A televisão era muitas vezes vista como uma arte menor. O Paulo Autran cunhou uma frase famosa a esse respeito. Ele dizia que o teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor e a televisão é a arte do patrocinador. Essa frase embute um pouco a ideia de que não é possível existir arte na televisão. Mas ele mesmo desmentiu isso, pois fez coisas magníficas em televisão. Eu não gosto de tudo na televisão, obviamente. Tanto que meu ângulo na televisão sempre foi o da educação e o da informação. Também atuei com TV universitária. Mas nunca mexi com entretenimento, não tive formação nem talento para isso. Obviamente, tem um monte de coisas na televisão que eu não gosto. Mas como jornalista da área, eu não posso negar a importância de um monte de gente. O Sílvio Santos, por exemplo. Eu jamais simpatizei como profissional e mesmo pessoalmente. Mas eu não posso negar que ele é o profissional de televisão mais bem sucedido no Brasil. Ele começou como garoto-propaganda e virou dono de uma rede nacional de televisão. Ninguém mais fez isso. Também falo no livro do Ratinho, que para mim representa um tipo de televisão que na época foi sinônimo de baixaria. Meio que uma exploração da ignorância das pessoas. Eu nunca gostei disso, mas vou deixar de falar? Se eu fosse falar só do que eu gosto, acho que não faria sentido.
Portal IMPRENSA - Você é o único colaborador da revista IMPRENSA que está desde a sua fundação, 35 anos atrás. A que você atribui essa parceria tão longeva?
Gabriel Priolli - Amizade, né? E carinho pelo produto. Eu estava no parto dele. Não estava no número 1 da revista, (...) mas entrei no time quando essa edição inicial estava rodando na gráfica. Nós fomos o primeiro veículo especializado de cobertura da imprensa. Havia o Meio & Mensagem cobrindo o mercado publicitário, mas não havia um veículo especializado cobrindo a imprensa. Havia só algumas publicações acadêmicas com esse foco. Nós fomos pioneiros. Só depois o Dines, que tinha a coluna Jornais dos Jornais, fez o Observatório da Imprensa. Depois o Moacir Japiassu fez a revista Jornal dos Jornais, a partir de uma coluna que ele publicava na IMPRENSA. A revista IMPRENSA me permitiu um prêmio Esso, que é uma honra que eu tenho.