Novo imortal da ABL, Antônio Torres conta como jornalismo ajudou em sua obra
“O jornalismo me ensinou a ver o mundo, a vida. A publicidade me ensinou a contar isso rapidinho”, relata Antônio Torres, que nasceu no interior da Bahia e foi eleito, na última quinta-feira (7/11), novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Atualizado em 11/11/2013 às 16:11, por
Maurício Kanno.
“Essas duas técnicas me ajudaram demais no texto que acabei desenvolvendo na literatura.”
O escritor diz ainda que deve muito às duas profissões, principalmente ao jornalismo, para que sua obra se mantenha em circulação, com interesse dos leitores, tanto que a Editora Record está lançando um pacote de reedições de seis dos seus livros, incluindo a 25ª edição de “Essa Terra”.
Torres não exerce o jornalismo profissionalmente desde 1963, mas ainda se considera repórter enquanto escritor. “Minha alma é de repórter”, declara. “É o que vai buscar o personagem, pesquisar a vida dele, para depois escrever um romance. Antes de o romancista entrar em ação, vem o repórter, que vê cenários, como o personagem se move nele, o que está por trás disso. Depois entra o romancista para fazer dramaturgia disso.”
Ele exemplifica o processo com seu livro “O Nobre Sequestrador”, que conta a história de um corsário do monarca francês Luís XIV, que teria feito o primeiro sequestro do Rio de Janeiro – a cidade em si ficou como refém por 50 dias – , em 1711, no episódio mais dramático da era colonial lusitana. Para essa produção, Torres pesquisou muito, inclusive visitando a cidade do corsário na França. “Tudo para descobrir os clássicos o quê, por que, onde...”, justifica.
Como exemplo de não-ficção produzida, cita um livro que escreveu sobre o centro do Rio de Janeiro, que virou até um documentário exibido na TV Cultura. Fazia parte da coleção “Encantos do Rio”, na qual o colega imortal e jornalista Carlos Heitor Cony escreveu sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Crédito:Divulgação Antônio Torres, eleito quinta-feira (7/11) imortal da Academia Brasileira de Letras
Travessão Quando questionado sobre a maior influência do jornalismo em sua obra, cita mesmo o início de seu romance “Meu Querido Canibal” (2000), que entra na 10ª edição: “Era uma vez um índio. E era nos anos 500, no século das grandes navegações – e dos grandes índios.”
O autor destaca esse trecho – sobretudo pelo travessão – como um dos que mais aprecia em seu trabalho. “É uma experiência de conversa com o leitor, um jeito de desconcertá-lo, deixá-lo se mexendo na cadeira”, diz. “O travessão dá ritmo, ou melhor, uma quebra de ritmo ao texto.”
Outra conexão entre o jornalismo e a literatura foi justamente na sua vivência com colegas de trabalho no jornal em Salvador, o Jornal da Bahia , onde aprendeu na prática o ofício de jornalismo, já que não havia faculdades de comunicação.
“Fiquei encantado que o editor-chefe, Ariovaldo Matos, era um escritor que eu acompanhava no suplemento literário”, exemplifica Torres. “O chefe de reportagem, João Paulo Teixeira Gomes, eu conhecia pelos poemas. Até o chefe da reportagem policial era poeta.”
Para completar, quando o escritor foi para o jornal Última Hora , em São Paulo, acabou conhecendo Ignácio de Loyola Brandão, que lhe mostrou um romance que estava escrevendo. “Desse modo, a redação de jornal foi um laboratório de experiências para um escritor e ficcionista.”
Além disso, ele diz que os jornalistas buscavam mesmo na literatura um apoio para seu desenvolvimento como repórteres, citando autores como John Reed, Ernest Hemingway e Rubem Braga. E afirma achar que as escolas de comunicação de hoje deviam estimular mais a leitura dos grandes ficcionistas.
Crédito:Divulgação Para o escritor Antônio Torres, seu lado repórter trabalha antes do romancista
ABL Quanto à nomeação para a ABL, ele considera: “Aos 73 anos, merecer uma coisa dessas é muito estimulante para continuar vivendo e escrevendo”. Lembra que foi a terceira vez em que se candidatava. “Perdi duas vezes antes. Tive que aprender a perder.”
E comemora. “Agora tive uma vitória consagradora, com 34 votos [dos 39 possíveis]. Vou ocupar cadeira que foi de Machado de Assis, Jorge Amado, Zélia Gattai, além do querido amigo pensador Luís Paulo Horta. Para ampliar a honra, o patrono da cadeira é José de Alencar. Veja o tamanho da responsabilidade.”
Como dica ao jornalista que também deseja se tornar escritor, ele é sintético: “Leia muito e escreva”. E ressalta: “Hoje é muito mais fácil que no meu tempo, tem muita editora lançando. A sensação que tenho é que tem mais escritor que gente.”
O escritor diz ainda que deve muito às duas profissões, principalmente ao jornalismo, para que sua obra se mantenha em circulação, com interesse dos leitores, tanto que a Editora Record está lançando um pacote de reedições de seis dos seus livros, incluindo a 25ª edição de “Essa Terra”.
Torres não exerce o jornalismo profissionalmente desde 1963, mas ainda se considera repórter enquanto escritor. “Minha alma é de repórter”, declara. “É o que vai buscar o personagem, pesquisar a vida dele, para depois escrever um romance. Antes de o romancista entrar em ação, vem o repórter, que vê cenários, como o personagem se move nele, o que está por trás disso. Depois entra o romancista para fazer dramaturgia disso.”
Ele exemplifica o processo com seu livro “O Nobre Sequestrador”, que conta a história de um corsário do monarca francês Luís XIV, que teria feito o primeiro sequestro do Rio de Janeiro – a cidade em si ficou como refém por 50 dias – , em 1711, no episódio mais dramático da era colonial lusitana. Para essa produção, Torres pesquisou muito, inclusive visitando a cidade do corsário na França. “Tudo para descobrir os clássicos o quê, por que, onde...”, justifica.
Como exemplo de não-ficção produzida, cita um livro que escreveu sobre o centro do Rio de Janeiro, que virou até um documentário exibido na TV Cultura. Fazia parte da coleção “Encantos do Rio”, na qual o colega imortal e jornalista Carlos Heitor Cony escreveu sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Crédito:Divulgação Antônio Torres, eleito quinta-feira (7/11) imortal da Academia Brasileira de Letras
Travessão Quando questionado sobre a maior influência do jornalismo em sua obra, cita mesmo o início de seu romance “Meu Querido Canibal” (2000), que entra na 10ª edição: “Era uma vez um índio. E era nos anos 500, no século das grandes navegações – e dos grandes índios.”
O autor destaca esse trecho – sobretudo pelo travessão – como um dos que mais aprecia em seu trabalho. “É uma experiência de conversa com o leitor, um jeito de desconcertá-lo, deixá-lo se mexendo na cadeira”, diz. “O travessão dá ritmo, ou melhor, uma quebra de ritmo ao texto.”
Outra conexão entre o jornalismo e a literatura foi justamente na sua vivência com colegas de trabalho no jornal em Salvador, o Jornal da Bahia , onde aprendeu na prática o ofício de jornalismo, já que não havia faculdades de comunicação.
“Fiquei encantado que o editor-chefe, Ariovaldo Matos, era um escritor que eu acompanhava no suplemento literário”, exemplifica Torres. “O chefe de reportagem, João Paulo Teixeira Gomes, eu conhecia pelos poemas. Até o chefe da reportagem policial era poeta.”
Para completar, quando o escritor foi para o jornal Última Hora , em São Paulo, acabou conhecendo Ignácio de Loyola Brandão, que lhe mostrou um romance que estava escrevendo. “Desse modo, a redação de jornal foi um laboratório de experiências para um escritor e ficcionista.”
Além disso, ele diz que os jornalistas buscavam mesmo na literatura um apoio para seu desenvolvimento como repórteres, citando autores como John Reed, Ernest Hemingway e Rubem Braga. E afirma achar que as escolas de comunicação de hoje deviam estimular mais a leitura dos grandes ficcionistas.
Crédito:Divulgação Para o escritor Antônio Torres, seu lado repórter trabalha antes do romancista
ABL Quanto à nomeação para a ABL, ele considera: “Aos 73 anos, merecer uma coisa dessas é muito estimulante para continuar vivendo e escrevendo”. Lembra que foi a terceira vez em que se candidatava. “Perdi duas vezes antes. Tive que aprender a perder.”
E comemora. “Agora tive uma vitória consagradora, com 34 votos [dos 39 possíveis]. Vou ocupar cadeira que foi de Machado de Assis, Jorge Amado, Zélia Gattai, além do querido amigo pensador Luís Paulo Horta. Para ampliar a honra, o patrono da cadeira é José de Alencar. Veja o tamanho da responsabilidade.”
Como dica ao jornalista que também deseja se tornar escritor, ele é sintético: “Leia muito e escreva”. E ressalta: “Hoje é muito mais fácil que no meu tempo, tem muita editora lançando. A sensação que tenho é que tem mais escritor que gente.”





