Nos EUA, Jornalismo começa na escola
Nos EUA, Jornalismo começa na escola
Já falei numas colunas atrás que aqui nos Estados Unidos ninguém precisa ter um diploma de Jornalismo pra exercer a profissão. Entretanto, isso não significou nem o fim das faculdades de Jornalismo e nem retirou da profissão seu fascínio e sua importância na construção de uma sociedade justa e democrática.
Na verdade aqueles interessados em estudar Jornalismo podem começar a sentir o gosto da profissão e experimentar o cotidiano da atividade ainda no colegial, antes mesmo de entrar em qualquer universidade.
Minha filha, Marina, de 17 anos, cursa atualmente a última série da High School e já há três anos tem aulas de Jornalismo e participa da realização tanto do jornal ( The Circuit ) quanto da revista ( The Outlet ) da escola que freqüenta, Cypress Bay High School , que é a mais populosa High School nos Estados Unidos com mais de cinco mil alunos.
A Cypress Bay é uma escola de segundo grau que leva tão a sério o estudo do Jornalismo que até a MTV fez um reality show sobre isso em 2007. Chamado " The Paper " (O Jornal), o show foi ao ar durante algumas semanas e os estudantes conviveram com as câmeras seguindo-os nas reuniões de pauta, entrevistas, deadlines, diagramação e todos os demais processos na criação de uma publicação. Além de massagear o ego dos participantes, o show ajudou a destruir um preconceito existente entre os demais estudantes da escola, que viam os alunos interessados em Jornalismo como um bando de nerds, gente monótona, com gosto por coisas chatas. Nada poderia ser mais longe da verdade, mas preconceitos e estereótipos funcionam assim mesmo, sem qualquer base na realidade.
O interessante é que o ensino da matéria não fica restrito à sala de aula, questões de gramática, estilo e os dilemas e labirintos éticos e técnicos da profissão. Os alunos também têm que correr atrás de anunciantes, vender anúncios, pensar em maneiras de arrecadar dinheiro para financiar a impressão de cada exemplar. O tamanho de cada edição depende da venda (ou não) de espaço para publicidade e de acordo com os resultados alcançados a pauta vai sendo ampliada ou reduzida, em novas reuniões. E sendo todos moças e rapazes entre 14 e 18 anos, com os hormônios a mil, é claro que rolam as paixões, as competições, as puxadas de tapetes, exatamente como em qualquer local de trabalho que, como adultos, eles terão que enfrentar.
Esse ano, durante as férias de verão, Marina participou em Washington, DC, de uma convenção sobre Jornalismo e Mídia e teve contato e assistiu palestras de professores de universidades de Jornalismo, profissionais da CNN, National Geographic, C-Span, CBC, NBC e correspondentes de grandes jornais dentro da Casa Branca, que é a área de interesse de minha filha, Jornalismo Político. E voltou para a Flórida meio desanimada com as projeções que muitos desses profissionais fizeram sobre o futuro do Jornalismo impresso, a avalanche digital e as novas tecnologias que apontam para caminhos ainda a serem desbravados na produção e consumo de notícias. Há previsões de um mercado de trabalho cada vez mais estreito e competitivo.
Entretanto, apesar dessa nota meio amarga, o evento despertou em minha filha o interesse por uma mídia que até então ela nunca havia prestado muita atenção: o rádio. E no recomeço das aulas, há duas semanas, ela teve a oportunidade de se envolver num novo projeto patrocinado pela Cypress Bay em conjunto com uma estação de rádio, a WWNN 1470 AM, de Pompano Beach, uma cidade aqui no sul da Flórida.
Essa rádio produz uma atração chamada " The Jeff Deforrest Show ", que é um programa sobre esporte amador, especificamente futebol americano, praticado por estudantes de várias High Schools. Como muitas universidades dão bolsas de estudo substanciais para estudantes que se destacam em esportes em geral, e futebol americano em particular, há um público cativo para esse tipo de show.
O projeto consiste em ter estudantes de Jornalismo das mesmas escolas levantando dados pessoais e esportivos sobre os atletas e treinadores, além de estatísticas sobre performance individuais e da equipe (pontos perdidos, conseguidos, contusões, problemas médicos, qualidades e falhas mais marcantes, etc.) E após o levantamento dessas informações os estudantes de Jornalismo participam do show de rádio ao vivo, conversando com o locutor e enriquecendo assim a quantidade e a qualidade das informações fornecidas aos ouvintes.
Semana passada, minha filha fez sua estreia ao vivo e voltou pra casa animada e feliz com a experiência. Há cada duas semanas, ela vai participar do show. Eu não sei se ela vai mesmo fazer faculdade de Jornalismo. Ou se com a volubilidade própria da juventude de repente vai se descobrir apaixonada por Psicologia, ou Direito, ou qualquer outra área de estudo. Mas é emocionante, como mãe e jornalista, ver uma jovem descobrindo as possibilidades desse mundo e tendo a oportunidade de viver experiências que só dependem da boa vontade dos meios de comunicação e dos estabelecimentos escolares para se tornarem viáveis.
Adoraria que esse relato inspirasse escolas e meios de comunicação brasileiros a copiar essa importante experiência americana. Como já disse em colunas passadas, Jornalismo de boa qualidade não depende de diploma, mas de paixão, preparo, conhecimentos e flexibilidade para estar sempre disposto a aprender e encarar novos desafios.
Aqueles que se interessarem por mais informações sobre a Cypress Bay High Scholl e seu excelente ensino de Jornalismo para estudantes de segundo grau podem acessar os links abaixo:






