Nomes estranhos

Nomes estranhos

Atualizado em 19/10/2010 às 13:10, por Silvia Dutra.

Acho que tudo mundo sabe que no idioma Inglês não existe esse conceito de gênero nas palavras, como existe em Português, Francês, Italiano etc. Um amigo meu, Andrew - americano apaixonado pelo Brasil e que há anos tenta aprender o Português - absolutamente não consegue entender a razão da palavra "porta" ser feminina e "portão" ser masculina. Ele balança a cabeça, desconsolado, sem entender o porquê de ser "o prato", mas não ser "o tigela". Para ele um prato fundo não é muito diferente de uma tigela e, pensando bem, até concordo que esse negócio das línguas latinas terem masculino e feminino é realmente meio sem sentido. Apesar de entender a frustração do meu amigo, divirto-me com essa dificuldade dele.

Agora, virando a brasa para a nossa sardinha, sempre que ele reclama dessa insensatez das línguas latinas eu rebato dizendo que também acho esquisito isso dos nomes próprios aqui nos Estados Unidos servirem tanto para homem como para mulher. Comigo é assim, não deixo barato. Falo que além de confuso é um sinal de falta de imaginação. Como exemplo cito alguns amigos de minha filha que compartilham o mesmo nome, embora sendo de sexos diferentes: Sidney, Robin, Taylor e Tyler. Cameron também já vi sendo usado para meninos e meninas, assim como Michael, Tiger, Conan, Connor, Dylan e tantos outros. Também acho isso confuso. Daí ficamos empatados, porque Andrew também não sabe me explicar o porquê disso acontecer aqui com tanta frequência. No Brasil também acontece com alguns nomes considerados unissex - como Darcy, Clair, Irani, Adair - mas não tanto como se verifica aqui e em outros países de língua inglesa.

Agora confusão mesmo foi o que aconteceu com esse casal: Kelly e Kelly Hildebrandt, marido e mulher. A história deles é engraçada e começou, como tantas outras, através do Facebook. A mocinha, Kelly Hildebrandt, resolveu se cadastrar na rede social. Descobriu então que já existia Kelly Hildebrandt no Facebook. Para sua surpresa a "outra" Kelly era um rapaz. Conversa vai, conversa vem, iniciaram um romance.

A coincidência nos nomes e sobrenomes os tornou celebridades instantâneas quando a história vazou para a imprensa, em julho de 2009. Deram mais de 50 entrevistas para jornais e programas de televisão. No dia do casamento, depois de apenas 3 meses de namoro, a foto de ambos virou capa da revista People e junto com a felicidade ambos experimentaram a surpresa de descobrir que a história deles foi capaz de interessar milhões de pessoas, no mundo inteiro, aparecendo na época até na página frontal do site Yahoo. O comediante e apresentador de televisão Conan O'Brien -- que tem um show nos moldes do programa do Jô Soares -- criou um monólogo fazendo piada sobre o casal e teve até gente apostando que o romance era falso e todo o relacionamento só um plano para que ambos tivessem seus 15 minutos de fama.

Reprodução
Abaixo na imagem, o bebê Bunda

Na hora de tirar os papéis para o casamento tiveram que se explicar. Imagino que os convidados e até o padre devem ter achado estranho ouvir se Kelly Hildebrandt aceitava esse homem como seu marido. E logo a seguir se Kelly Hildebrandt aceitava essa mulher como sua esposa. Tempos depois Kelly, a esposa, fez uma ficha num hospital e deu o nome do marido como a pessoa que deveria ser chamada, em caso de emergência. Mais uma vez teve que explicar toda a história. Acredito que esse casal, daqui a alguns anos, vai ter material suficiente para escrever um livro com todos os episódios cômicos e confusos que a coincidência nos nomes e sobrenomes trouxe para a vida de ambos. E também na vida de suas famílias, amigos, vizinhos e até empregadores.

Essa questão de nomes aqui nos Estados Unidos é mesmo engraçada. Os negros americanos, por exemplo, adoram nomes terminados em "Isha". Eu ainda não descobri o motivo, mas é fato comprovado. Anos atrás até o ator e comediante negro Bill Cosby publicou um artigo na imprensa americana criticando, entre outras coisas, essa tendência cada vez mais disseminada nas últimas gerações de colocar nos filhos (homens ou mulheres) nomes terminados dessa maneira. Trabalho numa biblioteca e frequentemente atendo famílias negras com crianças com nomes como Saisha, Tanisha, Keisha, Aisha, Alysha, Felisha, Belisha, etc. Só espero conseguir conter o riso se um dia me aparecer pela frente uma (ou um) "Salsisha".

Sobrenomes então são outro caso a parte. Certa vez meu marido teve um cliente aqui nos Estados Unidos cujo sobrenome era "Bilau". A secretária americana, Jennifer, nunca conseguiu entender por que todos os brasileiros do escritório riam sempre que ela anunciava que Mr. Bilau estava impaciente, esperando em pé ao lado da mesa dela. Ou queimado de sol depois de um final de semana na praia. Ou ainda parecendo mais jovem, por conta do implante capilar. Morríamos de rir, mas nunca ninguém explicou a piada para ela.

Quando morávamos em Ottawa, em 1991, tive a pachorra de recortar e guardar uma página do jornal local para mostrar para meus amigos e parentes. Pura falta do que fazer, mas que rendeu muito papo furado e risadas. Naquela época os jornais publicavam numa mesma sessão as mortes e nascimentos, esses últimos divididos por sexos: meninas e meninos. Provavelmente por conta do idioma Inglês não ter esse conceito de gênero nas palavras ou nomes próprios.

Pois bem, foi notícia no jornal de lá o nascimento, no dia 16 de abril, do menino Stephen Jack Bunda. Pesando 3kg e 200 gramas , o pequeno Bunda foi recebido com amor pelos pais Stephen e Bonny e a irmã, Samantha Bunda. Já imaginou essa família vindo visitar o Brasil? Eles iriam nos achar o povo mais risonho e bem humorado do planeta. A ignorância, assim como o amor, não é lindo?

Voltando ao casal Kelly e Kelly Hildebrandt, semana passada eles completaram um ano de casados e se dizem felizes. Recentemente tiveram alguns desentendimentos porque planejam um filho e o marido quer colocar no rebento adivinhem qual nome? Kelly Hildebrandt. Vai ter falta de imaginação lá longe , não é mesmo?

Diante de uma história como essa nosso famoso Um Dois Três de Oliveira Quatro até me parece simpático. É esquisito, sem dúvida, mas pelo menos é original. E puxando de novo a brasa para a nossa sardinha, todo mundo sabe que se trata de um homem. Porque se fosse uma mulher seria Uma Duas Três de Oliveira Quatro. E agora vou parar de escrever tantas sandices, porque paciência de leitor tem limites. E se os limites dessa paciência, feminina, forem extrapolados, o leitor corre o risco de acabar num hospício como um paciente, masculino, independentemente de ser homem ou mulher. E chega, porque hoje estou atacada. Ao atacado.