No país da água, vamos morrer de sede. Pode?

No país da água, vamos morrer de sede. Pode?

Atualizado em 22/03/2011 às 17:03, por Wilson da Costa Bueno.

O Brasil detém, de maneira privilegiada, mais de 10% da água doce do planeta, mas, por diversos motivos, verá, cada vez mais, sua população sedenta, com riscos previsíveis de abastecimento para os próximos anos e certamente numa situação dramática no futuro, se nada for feito imediatamente.
Especulação? De jeito algum. Segundo mapeamento da Agência Nacional de Águas (ANA), cerca de 55% dos municípios brasileiros enfrentarão problemas, alguns em maior outros em menor intensidade, de abastecimento de água até 2015, sobretudo se não forem feitos investimentos significativos para mitigar a falta desse insumo básico para a sobrevivência humana.
Para a ANA, 16% dos nossos municípios já enfrentam algum problema de abastecimento e o cenário será particularmente desolador para os localizados nas regiões Sul e Nordeste. Embora estejam entre as maiores densidades populacionais do país, estas regiões concentram apenas 3% das fontes hídricas, ou seja, há um desequilíbrio importante por aqui, já que a região amazônica dispõe de mais de 80% dessas fontes.
A estimativa é de que, para levar volume adicional de água para os municípios maiores, o investimento será de no mínimo 9 bilhões de reais, a serem utilizados para aproveitamento de novos mananciais ou mesmo para adequação dos atuais sistemas de produção. Se considerarmos o Brasil como um todo, o investimento será superior a 22 bilhões de reais. Logo, é melhor correr porque não é fácil, de uma hora para outra, multiplicar a oferta de água para grandes contingentes populacionais.
O problema da falta de água é recorrente em todo o mundo e já existem conflitos importantes por causa do líquido, como no Oriente Médio, na África etc. Mas a gente esperava que, pelo menos no Brasil, com uma oferta tão generosa pudéssemos ficar livres dele, pelo menos pelos próximos anos. Mas os dados recentes indicam que, se não acharmos logo uma luz no final do túnel (que não seja um trem vindo em sentido contrário), caminharemos para as trevas da sustentabilidade.
É preciso reconhecer que governos e governos (do PSDB ao PT), ao longo do tempo, têm se descuidado dessa situação e que muitas soluções propostas implicam necessariamente em criar problemas outros, como os grandes projetos de hidrelétricas que, feitos sem o devido planejamento e avaliação de impacto, acabarão por penalizar brutalmente o meio ambiente. Obras feitas às pressas para resolver emergências costumam criar problemas adicionais e, em geral, vêem os seus orçamentos multiplicados, penalizando a receita da União, o que, na prática, significa avançar em nossos bolsos, quase sempre pelo aumento de impostos.
Além disso, determinados setores da economia utilizam irresponsavelmente a água ou a consomem freneticamente. Dados indicam que para a produção de um quilo de café ou de carne são necessários milhares de litros de água e esta contabilidade ambiental precisa ser feita a cada momento porque, diferentemente do que podemos pensar, não há água doce em excesso no país, à exceção da Amazônia.
A agropecuária e a indústria utilizam (e desperdiçam) amplamente os recursos naturais e cada um de nós, consumidores, fazemos mal a lição de casa, jogando pelo ralo um líquido essencial. É certo que algumas empresas e consumidores cidadãos conscientes têm se empenhado para reduzir o déficit de água, mas o que se vê, com freqüência, é a utilização irresponsável e predadora deste importante recurso natural. Estamos consumindo mais do que deveríamos, esquecidos de que a fatura será apresentada um dia. Pelo levantamento da ANA, este dia está cada vez mais próxima e a conta, pelo visto, será maior do que poderíamos imaginar.
Todos sabemos que há um desperdício incalculável de água nas grandes cidades por vazamentos e sistemas inadequados, que o mal uso ou o não uso da irrigação faz com que a agricultura gaste muito mais do que o necessário para produzir alimentos. Sabemos também que há um deslocamento de indústrias altamente intensivas em recursos naturais para o Brasil, com investimentos de países estrangeiros, como a China, que, após esgotados os seus recursos, avançam sobre os nossos, com a cumplicidade de governos e de empresas brasileiras que se aliam a estes investimentos absolutamente predadores, comprometidos apenas com o aumento de seus lucros.
Não há uma política efetiva em termos de saneamento e, por isso, 8 milhões de pessoas não têm sequer banheiro em suas residências e menos de 1/3 das residências dispõe de sistemas de tratamento de resíduos. Essa situação adversa tem a ver com a internação de centenas de milhares de crianças com até 5 anos por diarréias (com a morte de milhares delas), o que nos deveria encher de vergonha.
Se não temos água para todos, a água que temos costuma ser imprópria e compromete a saúde dos brasileiros, o que, nesta semana em que se comemora o Dia Mundial da Água, deveria ser motivo de reflexão para todos nós e de ação imediata por parte dos governantes.
Não podemos fazer a conta ainda, mesmo porque os gastos públicos com os grandes eventos programados para 2014 e 2016 (Copa do Mundo e Olimpíada) ainda não estão fechados (estarão um dia?), mas com certeza o que investiríamos para construção de estádios (alguns verdadeiros elefantes brancos!) poderia ser fundamental para aliviar a questão do abastecimento de água em boa parte dos municípios brasileiros.
Está mais do que na hora de agir porque, caso contrário, morreremos de sede no país da água.
Em tempo: o Brasil está assumindo a liderança mundial no consumo de agrotóxicos e pouca gente (sobretudo o Governo) faz a conta do impacto destes produtos nefastos na contaminação do solo, água, ar e alimentos. Pesquisas indicam que a água (para só citar um recurso, o objeto deste artigo) no país está cada vez mais contaminada por agrotóxicos que devem ser encarados definitivamente como veneno e não como remedinho para planta, como insistem as empresas agroquímicas e as entidades do Setor.
Vamos dar um jeito nisso ou esperamos por um milagre?
É importante que decidamos agora o que desejamos para o nosso futuro. Se nenhum investimento de porte for feito para resolver o problema, é melhor que comecemos a rezar imediatamente. Mas, cético como sou, aposto que não vai adiantar.
Empresas predadoras e governos incompetentes vão ficar com a imagem suja. Infelizmente para eles, não haverá água suficiente para fazer a limpeza.