No manto do anonimato
No manto do anonimato
Atualizado em 19/08/2010 às 13:08, por
Silvia Dutra.
O jornal "The Sun Chronicle" da cidade de Attleboro, Massachusetts, anunciou semana passada que começará a cobrar uma taxa única de 99 centavos para que os leitores tenham o direito de deixar comentários nas matérias que aparecem na versão online.
Para ganhar o privilégio de expressar suas opiniões o leitor deverá fornecer o número de seu cartão de crédito e seu nome real. Após a cobrança da taxa única o leitor estará cadastrado e seu nome completo aparecerá sempre que ele postar um comentário em qualquer matéria.
Já tem gente criticando dizendo que com tantas fraudes com cartões de crédito ninguém vai querer fornecer o número. Outros acham arriscado expor o nome inteiro pela possibilidade de virarem vítimas de alguém desequilibrado, que possa discordar de alguma opinião emitida e partir para a violência física, especialmente em assuntos explosivos como questões religiosas ou sobre política e imigração. Concordo que é sempre um risco. Entretanto, o editor do jornal, Oreste P. D'Arconte, disse que a medida será implementada para "eliminar os excessos do passado, que incluíam um flagrante desrespeito pelas normas da civilidade e do comportamento apropriado, além de acusações e alegações falsas".
Gostei da idéia. Acredito que só a cobrança da taxa, um único pagamento de menos de dois reais, não impediria quem realmente quisesse de postar um comentário e contribuir com o debate. O que eu acho mais interessante é o fato do nome do leitor estar ligado a um cartão de crédito -- que pra ser concedido a pessoa tem que apresentar documentos e comprovar identidade, endereço, renda e etc -- e não simplesmente a uma conta de email, que também pode ser facilmente falsificada.
Acho maravilhosa a Internet e toda essa interatividade que ela possibilita. Comecei minha carreira em jornal nos idos de 1984, antes da existência dessas tecnologias todas. Minhas primeiras matérias nasceram em máquinas de escrever, daquelas Remingtons antigas, duras e barulhentas. No final do dia os dedos chegavam a doer e ficavam manchados de azul e vermelho da tinta do carretel, que enroscava o tempo todo nos ferrinhos da máquina. Quando cometia um erro ou decidia reorganizar a ordem dos parágrafos eu tinha que datilografar tudo de novo. Quando o fechamento estava em cima da hora e não daria mais tempo o jeito era fazer remendos no texto com tesoura e cola. Podem rir, eu sei que sou jurássica, embora não faça tanto tempo assim. Não existiam computadores, Twitter, Orkut, Facebook, Google e leitor só comentava através de cartas, que vinham pelo correio, e nem todas eram publicadas.
Editor de texto, naquela época, não era um programa de computador, mas um sujeito que ganhava mais do que eu e trabalhava bem menos. E era impossível de agradar. O caso é que ninguém imaginava que um dia jornais seriam eletrônicos, com notícias sendo atualizadas a cada minuto. E muito menos que os leitores poderiam dar um retorno imediato, apontar erros, enriquecer a história com novos dados, sugerir diferentes enfoques, criticar ou elogiar em tempo real. O que é maravilhoso.
Agora, ao mesmo tempo que a Internet possibilita isso tudo, também facilita que pessoas mal intencionadas se aproveitem do anonimato para tumultuar esse espaço tão salutar do debate, da troca de idéias e perspectivas. Seja fugindo do assunto, interpretando erradamente o teor do texto, seja agredindo o autor ou as pessoas retratadas na história. Ou ainda os demais leitores que comentam. Muitos ainda abaixam o nível, usando palavras de baixo calão, ironias e mordacidade. Não sei se por ignorância, falta do que fazer ou pura maldade.
Vou ainda mais longe. Acho que essa idéia de Massachusetts deveria ser implementada pelos jornais e revistas brasileiras e também os blogs mais populares, de grande sucesso, com muitos seguidores. Aposto que isso evitaria muitas baixarias e desgostos desnecessários. Sim, porque sem o manto do anonimato as pessoas teriam mais controle sobre suas línguas ferinas, neuroses e frustrações. E respeitariam alguns mandamentos básicos de etiqueta e boa educação que todos deveriam observar ao deixar um comentário numa matéria de jornal ou num blog.
Primeiro mandamento: por mais polêmico que seja o assunto, não misture sua opinião com fofocas. Não é porque muita gente está repetindo uma versão que ela é necessariamente a verdade. Não assuma disse me disse como fatos comprovados. Recentemente, durante o caso do goleiro Bruno, pipocaram comentários cruéis e de extremo mau gosto sobre todos os suspeitos, especialmente contra a vítima. Baseados em boatos e carregados de preconceitos e pré-julgamentos, tais comentários nada acrescentaram de positivo, além de dor e sofrimento adicional aos familiares e amigos dos envolvidos naquela tragédia.
Segundo mandamento: nada de ataques pessoais. Separe o que foi escrito do escritor. Você tem todo o direito de discordar do que bem entender, mas não ataque a honra e a dignidade do escritor só porque ele escreveu algo que lhe desagradou. Ou vai ver tocou direto em alguma ferida sua que você tenta e não consegue ignorar. Está incomodado? Saia do site, não precisa ofender o dono da casa. Nem as demais visitas que gostam do ambiente.
Terceiro mandamento: se descobrir um erro no texto, aponte delicadamente, demonstre tato. Tudo mundo erra, e não há nada de errado nisso, sempre é possível consertar. E venha preparado: apresente informações verificadas, autênticas, e forneça a fonte. Se o autor do texto ou do blog for sério e bem intencionado vai acatar suas informações, checá-las novamente e corrigir o texto. E ainda lhe dar o crédito. Se ele não fizer nada disso ou assumir uma atitude agressiva ou defensiva não perca mais seu tempo: procure outra coisa pra ler
Quarto mandamento: se atenha ao assunto em pauta. Não saia pela tangente, não divague, não escorregue na maionese. Meses atrás escrevi uma matéria sobre os Processos Judiciais mais Absurdos de 2009 aqui nos Estados Unidos. Um leitor irritou-se com um dos casos que citei e fez um comentário sobre a questão do Oriente Médio e do confito entre Israelenses e Palestinos que, diga-se de passagem, não tinha qualquer relação com o assunto. E o fez de uma maneira irada, meio que exigindo de mim uma posição sobre aquele beco sem saída. Nem respondi para não desobedecer ao mandamento do parágrafo seguinte.
Quinto mandamento: não dê atenção à pessoas raivosas, não alimente os pitbulls. Se alguém usar o espaço de comentários no blog ou matéria para lançar insultos pessoais ao autor, iniciar brigas com o escritor ou outros comentaristas ou simplesmente ser do contra, destilar azedume e peçonha, lembre-se do que ensinava Platão: jamais discuta com idiotas. Porque se você cair na armadilha eles te levam para o nível deles e acabam vencendo a discussão, já que como completos idiotas são bem mais experientes que você. Comente o post ou a matéria e não dê atenção demais aos comentários dos outros, especialmente os carregados de malevolência. Ignore-os.
Sexto mandamento: não precisa escrever com o Aurélio ao lado, mas tente não assassinar a gramática nem a ortografia. Utilize pontuação. Escrever um texto gigantesco e não usar vírgulas, pontos, parágrafos e acentuação torna sua mensagem confusa e nada atraente. E nada de palavrões, miguxês, palavras chulas, vulgaridades.
E sétimo mandamento, e talvez o mais importante e sensato: lembre-se que o que você está lendo, seja um artigo ou um post num blog, representa trabalho. Alguém gastou tempo e energia física e mental para produzir o que você lê. Se não gosta do estilo, não concorda com o assunto, acha tudo uma grande besteira, procure outra coisa para ler, não tumultue o blog nem menospreze o trabalho alheio. E se achar irresistível fazer uma crítica, oferecer um contraponto, mantenha a civilidade e critique as idéias, mas não ataque o autor. Respeito é sempre bom, e todo mundo gosta e merece.
Para ganhar o privilégio de expressar suas opiniões o leitor deverá fornecer o número de seu cartão de crédito e seu nome real. Após a cobrança da taxa única o leitor estará cadastrado e seu nome completo aparecerá sempre que ele postar um comentário em qualquer matéria.
Já tem gente criticando dizendo que com tantas fraudes com cartões de crédito ninguém vai querer fornecer o número. Outros acham arriscado expor o nome inteiro pela possibilidade de virarem vítimas de alguém desequilibrado, que possa discordar de alguma opinião emitida e partir para a violência física, especialmente em assuntos explosivos como questões religiosas ou sobre política e imigração. Concordo que é sempre um risco. Entretanto, o editor do jornal, Oreste P. D'Arconte, disse que a medida será implementada para "eliminar os excessos do passado, que incluíam um flagrante desrespeito pelas normas da civilidade e do comportamento apropriado, além de acusações e alegações falsas".
Gostei da idéia. Acredito que só a cobrança da taxa, um único pagamento de menos de dois reais, não impediria quem realmente quisesse de postar um comentário e contribuir com o debate. O que eu acho mais interessante é o fato do nome do leitor estar ligado a um cartão de crédito -- que pra ser concedido a pessoa tem que apresentar documentos e comprovar identidade, endereço, renda e etc -- e não simplesmente a uma conta de email, que também pode ser facilmente falsificada.
Acho maravilhosa a Internet e toda essa interatividade que ela possibilita. Comecei minha carreira em jornal nos idos de 1984, antes da existência dessas tecnologias todas. Minhas primeiras matérias nasceram em máquinas de escrever, daquelas Remingtons antigas, duras e barulhentas. No final do dia os dedos chegavam a doer e ficavam manchados de azul e vermelho da tinta do carretel, que enroscava o tempo todo nos ferrinhos da máquina. Quando cometia um erro ou decidia reorganizar a ordem dos parágrafos eu tinha que datilografar tudo de novo. Quando o fechamento estava em cima da hora e não daria mais tempo o jeito era fazer remendos no texto com tesoura e cola. Podem rir, eu sei que sou jurássica, embora não faça tanto tempo assim. Não existiam computadores, Twitter, Orkut, Facebook, Google e leitor só comentava através de cartas, que vinham pelo correio, e nem todas eram publicadas.
Editor de texto, naquela época, não era um programa de computador, mas um sujeito que ganhava mais do que eu e trabalhava bem menos. E era impossível de agradar. O caso é que ninguém imaginava que um dia jornais seriam eletrônicos, com notícias sendo atualizadas a cada minuto. E muito menos que os leitores poderiam dar um retorno imediato, apontar erros, enriquecer a história com novos dados, sugerir diferentes enfoques, criticar ou elogiar em tempo real. O que é maravilhoso.
Agora, ao mesmo tempo que a Internet possibilita isso tudo, também facilita que pessoas mal intencionadas se aproveitem do anonimato para tumultuar esse espaço tão salutar do debate, da troca de idéias e perspectivas. Seja fugindo do assunto, interpretando erradamente o teor do texto, seja agredindo o autor ou as pessoas retratadas na história. Ou ainda os demais leitores que comentam. Muitos ainda abaixam o nível, usando palavras de baixo calão, ironias e mordacidade. Não sei se por ignorância, falta do que fazer ou pura maldade.
Vou ainda mais longe. Acho que essa idéia de Massachusetts deveria ser implementada pelos jornais e revistas brasileiras e também os blogs mais populares, de grande sucesso, com muitos seguidores. Aposto que isso evitaria muitas baixarias e desgostos desnecessários. Sim, porque sem o manto do anonimato as pessoas teriam mais controle sobre suas línguas ferinas, neuroses e frustrações. E respeitariam alguns mandamentos básicos de etiqueta e boa educação que todos deveriam observar ao deixar um comentário numa matéria de jornal ou num blog.
Primeiro mandamento: por mais polêmico que seja o assunto, não misture sua opinião com fofocas. Não é porque muita gente está repetindo uma versão que ela é necessariamente a verdade. Não assuma disse me disse como fatos comprovados. Recentemente, durante o caso do goleiro Bruno, pipocaram comentários cruéis e de extremo mau gosto sobre todos os suspeitos, especialmente contra a vítima. Baseados em boatos e carregados de preconceitos e pré-julgamentos, tais comentários nada acrescentaram de positivo, além de dor e sofrimento adicional aos familiares e amigos dos envolvidos naquela tragédia.
Segundo mandamento: nada de ataques pessoais. Separe o que foi escrito do escritor. Você tem todo o direito de discordar do que bem entender, mas não ataque a honra e a dignidade do escritor só porque ele escreveu algo que lhe desagradou. Ou vai ver tocou direto em alguma ferida sua que você tenta e não consegue ignorar. Está incomodado? Saia do site, não precisa ofender o dono da casa. Nem as demais visitas que gostam do ambiente.
Terceiro mandamento: se descobrir um erro no texto, aponte delicadamente, demonstre tato. Tudo mundo erra, e não há nada de errado nisso, sempre é possível consertar. E venha preparado: apresente informações verificadas, autênticas, e forneça a fonte. Se o autor do texto ou do blog for sério e bem intencionado vai acatar suas informações, checá-las novamente e corrigir o texto. E ainda lhe dar o crédito. Se ele não fizer nada disso ou assumir uma atitude agressiva ou defensiva não perca mais seu tempo: procure outra coisa pra ler
Quarto mandamento: se atenha ao assunto em pauta. Não saia pela tangente, não divague, não escorregue na maionese. Meses atrás escrevi uma matéria sobre os Processos Judiciais mais Absurdos de 2009 aqui nos Estados Unidos. Um leitor irritou-se com um dos casos que citei e fez um comentário sobre a questão do Oriente Médio e do confito entre Israelenses e Palestinos que, diga-se de passagem, não tinha qualquer relação com o assunto. E o fez de uma maneira irada, meio que exigindo de mim uma posição sobre aquele beco sem saída. Nem respondi para não desobedecer ao mandamento do parágrafo seguinte.
Quinto mandamento: não dê atenção à pessoas raivosas, não alimente os pitbulls. Se alguém usar o espaço de comentários no blog ou matéria para lançar insultos pessoais ao autor, iniciar brigas com o escritor ou outros comentaristas ou simplesmente ser do contra, destilar azedume e peçonha, lembre-se do que ensinava Platão: jamais discuta com idiotas. Porque se você cair na armadilha eles te levam para o nível deles e acabam vencendo a discussão, já que como completos idiotas são bem mais experientes que você. Comente o post ou a matéria e não dê atenção demais aos comentários dos outros, especialmente os carregados de malevolência. Ignore-os.
Sexto mandamento: não precisa escrever com o Aurélio ao lado, mas tente não assassinar a gramática nem a ortografia. Utilize pontuação. Escrever um texto gigantesco e não usar vírgulas, pontos, parágrafos e acentuação torna sua mensagem confusa e nada atraente. E nada de palavrões, miguxês, palavras chulas, vulgaridades.
E sétimo mandamento, e talvez o mais importante e sensato: lembre-se que o que você está lendo, seja um artigo ou um post num blog, representa trabalho. Alguém gastou tempo e energia física e mental para produzir o que você lê. Se não gosta do estilo, não concorda com o assunto, acha tudo uma grande besteira, procure outra coisa para ler, não tumultue o blog nem menospreze o trabalho alheio. E se achar irresistível fazer uma crítica, oferecer um contraponto, mantenha a civilidade e critique as idéias, mas não ataque o autor. Respeito é sempre bom, e todo mundo gosta e merece.






