No jornalismo, nem é preciso um janeiro para se redescobrir ou se testar
Sabia eu que janeiro era um mês frio. Não imaginava o quanto. Nunca tinha ido à Europa nesse período. Tampouco havia visitado a Alemanha.
Atualizado em 07/01/2013 às 14:01, por
Silvia Bessa.
um mês frio. Não imaginava o quanto. Nunca tinha ido à Europa nesse período. Tampouco havia visitado a Alemanha. Dava arrepios de pensar em como seria a experiência de partir sozinha do Recife rumo a Frankfurt e outras cidades de negócios para uma semana de entrevistas com empresários de multinacionais, compondo um grupo de quatro jornalistas sul-americanos (do Brasil, também estava lá o brasileiro Carlos De Lannoy, da Globo). Atendíamos a um convite do consulado daquele país, e eu tinha sido indicada para integrar a comitiva em virtude dos meus trabalhos pelo interior nordestino – região de interesse do governo alemão.
Em princípio, fui atraída pela promessa de boas matérias e pela curiosidade em saber como o Nordeste era visto pelos alemães. Busquei com amigas e irmãs os casacos mais pesados. Acabei sendo recebida com 4 graus centígrados e a constatação de que minha bagagem havia sido aberta. Em vez de furtada, notei que na mala colocaram uns óculos femininos Ray-Ban lindos e chiques.
Sem me comunicar em alemão nem em inglês, apelei para o celular e para meu marido. Do Recife, ele tentou se entender com o fiscal de bagagem, usando um francês polido e explicando que os óculos eram de outro passageiro. O fiscal, que escondia todo o branco dos dentes, manteve sua determinação, informando-me com rispidez sobre o veredicto: “leve-os”. Com o dedo em riste, insistia que eu guardasse o objeto. Sem remédio, remediado estava: carreguei comigo os óculos.
Só quando tive de cruzar às 22h a rodovia que passa pelo trevo do Ibó – temido trecho situado no coração pernambucano e no chamado Polígono da Maconha – tive tanto medo. O que mais tinha na minha mala?, pensava no aeroporto da Alemanha. Era o medo do incerto, do desconhecido, da orfandade de gente amiga, da família e de proteção (algo que por vezes abate até nossos pensamentos). Saí do imenso aeroporto de Frankfurt com o coração acelerado.
Enrolei o cachecol no pescoço e mudei a rota do pensamento. Procurei lembrar que a viagem era o motivo que mais valeria a pena. Então, dei-me conta da neve linda do lado de fora do carro que me conduzia. Fui olhando-a cair, curtindo a minha solidão. Desfrutava o prazer de, como jornalista, me arriscar mais uma vez num lugar e numa zona de total desconforto.
Como é fascinante a nossa profissão. Vibro porque no jornalismo, na verdade, nem é preciso um janeiro para se descobrir, redescobrir ou se testar. Pode-se arriscar na busca de uma pauta arrebatadora, de uma primeira linha mais atrativa, de uma solução gráfica interessante, de um fecho que convença o leitor ou espectador sobre o valor daquela matéria. Viva! Recomecemos, pois. Amanhã é outro dia.

Em princípio, fui atraída pela promessa de boas matérias e pela curiosidade em saber como o Nordeste era visto pelos alemães. Busquei com amigas e irmãs os casacos mais pesados. Acabei sendo recebida com 4 graus centígrados e a constatação de que minha bagagem havia sido aberta. Em vez de furtada, notei que na mala colocaram uns óculos femininos Ray-Ban lindos e chiques.
Sem me comunicar em alemão nem em inglês, apelei para o celular e para meu marido. Do Recife, ele tentou se entender com o fiscal de bagagem, usando um francês polido e explicando que os óculos eram de outro passageiro. O fiscal, que escondia todo o branco dos dentes, manteve sua determinação, informando-me com rispidez sobre o veredicto: “leve-os”. Com o dedo em riste, insistia que eu guardasse o objeto. Sem remédio, remediado estava: carreguei comigo os óculos.
Só quando tive de cruzar às 22h a rodovia que passa pelo trevo do Ibó – temido trecho situado no coração pernambucano e no chamado Polígono da Maconha – tive tanto medo. O que mais tinha na minha mala?, pensava no aeroporto da Alemanha. Era o medo do incerto, do desconhecido, da orfandade de gente amiga, da família e de proteção (algo que por vezes abate até nossos pensamentos). Saí do imenso aeroporto de Frankfurt com o coração acelerado.
Enrolei o cachecol no pescoço e mudei a rota do pensamento. Procurei lembrar que a viagem era o motivo que mais valeria a pena. Então, dei-me conta da neve linda do lado de fora do carro que me conduzia. Fui olhando-a cair, curtindo a minha solidão. Desfrutava o prazer de, como jornalista, me arriscar mais uma vez num lugar e numa zona de total desconforto.
Como é fascinante a nossa profissão. Vibro porque no jornalismo, na verdade, nem é preciso um janeiro para se descobrir, redescobrir ou se testar. Pode-se arriscar na busca de uma pauta arrebatadora, de uma primeira linha mais atrativa, de uma solução gráfica interessante, de um fecho que convença o leitor ou espectador sobre o valor daquela matéria. Viva! Recomecemos, pois. Amanhã é outro dia.






